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MEUS INIMIGOS ESTÃO NO PODER

Posted by Clenio on 21:17 in
Hoje uma parte do Brasil está em festa, e a outra está em preparação para a luta. Uma parte comemora o fato de ter no poder alguém que irá legitimizar a violência, o preconceito, a misoginia, a homofobia, a xenofobia e todo tipo de preconceito. Outra lamenta décadas de retrocesso que virão à reboque de tal temeridade. Alguns celebram o fim de um socialismo que nunca houve a não ser em mentes delirantes; outros choram o enterro de ações sociais que deram dignidade a milhões de compatriotas.

Alguns brasileiros acreditam (ingenuamente ou por motivos outros que é melhor nem procurar saber) que a corrupção acabou ou está em vias de ser extinta, apesar de escândalos envolvendo o novo presidente pipocarem em cada esquina (e serem convenientemente abafados por questões óbvias). Outros tentam compreender como um governo formado por acusados, indiciados e condenados pela justiça pode ser capaz de fazer a "limpeza" que todos esperam. Uma parcela da população mal pode esperar a hora de ter em mãos as armas que finalmente irão protegê-la da violência (!!); outra parcela sabe muito bem quais serão os alvos dos ditos "cidadãos de bem". Alguns aplaudem porque finalmente o politicamente correto está com os dias contados e piadas sexistas e preconceituosas voltarão a frequentar mesas de bares; outros se desesperam em perceber que pesadelos voltarão em forma de risos, apelidos e discriminação.

Alguns celebram armas, outros pedem educação. Alguns invocam um Deus que é a antítese da bondade e da compaixão; outros se dedicam a ajudar àqueles que precisam de conforto de corpo e alma. Uns aplaudem deboche e ignorância como se fossem qualidades; outros tentam em vão usar de racionalidade e bom-senso. Parte dos eleitores acredita que a ditadura militar não aconteceu (ou, se aconteceu, foi um período de flores e crescimento do país); outros conhecem História do Brasil. Alguns se acham elite e se identificam com banqueiros e empresários que os desprezam profundamente; outros sabem seu lugar no tecido social e lutam para que todos caibam em um mundo mais justo.

Uma parte do país acha que já fez a sua parte, colocando no poder seu "capitão" - ignorando (ou não) sua vontade de praticamente desmontar o país e submetê-lo a interesses de outros países (leia-se EUA e sua sede imortal por petróleo); outra parte tem certeza de que a luta ainda ainda nem começou. De um lado estarão aqueles patriotas que desconhecem a realidade do próprio país; do outro estarão os vagabundos que "destruíram o Brasil" com suas "irresponsáveis" políticas sociais. Alguns irão dormir felizes e orgulhosos - outros com o peso da injustiça e do medo sobre os ombros. Pelos próximos anos, alguns se sentirão superiores aos outros. Alguns se sentirão vitoriosos, outros serão considerados perdedores. Mas nunca me senti tão feliz em estar no time dos inferiores e perdedores! Estou muito bem acompanhado e não me envergonharei jamais de estar no lado certo da história.

#NINGUÉMSOLTAAMÃODENINGUÉM #CADEOQUEIROZ?

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OSCAR 2018: MELHOR ATRIZ

Posted by Clenio on 19:49 in ,
Frances McDormand está se encaminhando para levar seu segundo Oscar de melhor atriz. O primeiro veio em 1997 por "Fargo", comédia de humor negro dos irmãos Coen que tem muito em comum com o estilo narrativo de Martin McDonaugh, o diretor de "Três anúncios para um crime" - que pode ser o responsável por sua segunda (e merecida) estatueta. Mas será que McDormand é uma favorita tão absoluta assim? Tudo indica que sim, mas a categoria de melhor atriz deste ano é uma das mais disputadas das últimas temporadas - e a Academia pode surpreender. Como? Leia abaixo.

SALLY HAWKINGS (A forma da água) - Premiada como melhor atriz pelos críticos de Los Angeles, Hawkins arrebata sua segunda indicação ao Oscar e primeira na categoria principal - ela concorreu como coadjuvante em 2014, por "Blue Jasmine", de Woody Allen. Agora ela passa ao primeiro time encarnando uma zeladora muda que se apaixona por um ser anfíbio que está sendo mantido preso pelo governo americano em plena Guerra Fria. O desempenho de Hawkins é admirável, transmitindo uma variedade imensa de sentimentos sem dizer uma única palavra - talvez fosse um prêmio certo, caso Frances McDormand não surgisse na última hora e abocanhasse os principais troféus da temporada. Ainda assim ela não é carta fora do baralho: a força do filme pode ajudá-la, e se a vitória for sua a estatueta estará em ótimas mãos.

FRANCES MCDORMAND (Três anúncios para um crime) - Parece um favoritismo absoluto: Golden Globe, Critics Choice Award e SAG Award nos braços fazem de McDormand o nome a ser batido na categoria. Já vencedora uma vez - por "Fargo" (96) - e indicada outras três, sempre como coadjuvante - "Mississipi em chamas" (88), "Quase famosos" (2000) e "Terra fria" (2005) - a esposa do cineasta Joel Coen passou de queridinha do cinema independente dos anos 80 e 90 para uma atriz respeitadíssima pela indústria. Um segundo Oscar é mais que justo - afinal, até Hilary Swank tem dois, o que não deixa de ser muito estranho.

MARGOT ROBBIE (Eu, Tonya) - Até há pouco tempo, a bela Margot Robbie era apenas isso: uma bela e desejável atriz em busca de reconhecimento. Bastou Martin Scorsese colocá-la em "O lobo de Wall Street" (2013) para que ela finalmente conhecesse um pouco de respeito artístico. Nem sua participação em "Esquadrão Suicida" (2016) pode apagar seu brilhante trabalho como a patinadora Tonya Harding, pivô de um escândalo no meio esportivo dos anos 90. Equilibrando senso de humor negro e drama, Robbie conquistou elogios unânimes - e apesar de suas chances serem quase nulas, sua indicação já aponta um novo caminho em sua carreira.

SAOIRSE RONAN (Lady Bird - A hora é de voar) - Talvez a jovem Ronan seja a maior pedra no caminho de Frances McDormand na busca pelo Oscar 2018. Como a Academia adora incentivar jovens atrizes (Gwyneth Paltrow, Hilary Swank, Emma Stone) e como Ronan já está em sua terceira indicação ao prêmio - concorreu como coadjuvante por "Desejo e reparação" (2007) e "Brooklin" (2015), esta última na categoria principal - pode ser que os votantes resolvam optar pela juventude ao invés da maturidade. O fato do filme de Greta Gerwig ter arrancado aplausos por onde passou também conta bastante, e sua vitória não seria algo tão inesperado assim - ainda que precoce demais.

MERYL STREEP (The Post: a guerra secreta) - Em sua inacreditável 21ª indicação, Streep busca a terceira vitória por um filme muito esperado mas que acabou decepcionando na temporada de prêmios - não se iludam com sua indicação ao Oscar de melhor filme, imerecida e um tanto quanto bizarra. Figurinha carimbada das festas da Academia (por puro merecimento), ela concorre sem muitas chances, e poderia muito bem ter ficado de fora (Jessica Chastain, por "A grande jogada", ficaria muito bem em seu lugar). Atriz espetacular, Meryl Streep parece estar na lista apenas por força do hábito.

FAVORITA: Frances McDormand
TORCIDA: Sally Hawkins
NO PÁREO: Saoirse Ronan
ZEBRA: Margot Robbie

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OSCAR 2018 - MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Posted by Clenio on 20:57 in ,
Ano passado a sensacional Viola Davis finalmente levou a estatueta que merecia desde "Dúvida", que lhe deu a primeira indicação ao Oscar, em 2009. Merecidamente aplaudida de pé, ela fez um discurso emocionante e tornou-se uma das atrizes negras mais premiadas e admiradas da história de Hollywood. E este ano? Quem terá a honra de subir ao palco e conquistar o almejado prêmio da Academia? Assim como na categoria masculina de coadjuvantes, uma favorita do início da temporada de premiações foi eclipsada por uma rival nos momentos mais importantes da disputa, mas sempre pode acontecer uma surpresa.

MARY J. BLIGE (Mudbound - Lágrimas sobre o Mississippi) - A cantora Mary J. Blidge surpreendeu a todos por sua atuação madura e desprovida de vaidade no pouco visto mas muito elogiado "Mudbound - Lágrimas sobre o Mississippi" - que também lhe deu uma indicação ao Oscar de melhor canção ("Mighty river"). Como uma matriarca forte e determinada que lida com o preconceito e a violência do sul dos EUA na década de 40, Blige chamou a atenção para um filme que, caso contrário, poderia passar despercebido pelo grande público. Suas chances são pequenas, mas sua indicação já é uma conquista e tanto.

ALLISON JANNEY (Eu, Tonya) - Um rosto conhecido por diversos filmes e séries de TV (atualmente está no ar com "Mom"), Janney dá um show como a mãe carrasca da patinadora Tony Harding na comédia de humor negro estrelada por Margot Robbie. Na frente da corrida pela estatueta graças aos prêmios no Golden Globe, SAG Awards e Critics Choice Awards, ela tem tudo para sair com o Oscar nas mãos - uma vitória amplamente merecida.

LESLEY MANVILLE (Trama fantasma) - A maior surpresa entre as indicações da categoria, Manville não havia sido lembrada em nenhuma outra grande premiação da temporada, o que sugere um inesperado carinho da Academia pelo filme de Paul Thomas Anderson. Na pele da onipresente irmã de Daniel Day-Lewis, a atriz constrói um trabalho de poucas palavras mas muita intensidade, não se deixando intimidar pela presença sempre forte de seu colega de cena. Suas chances são uma incógnita, mas é pouco provável que derrube as favoritas Alisson Janney e Laurie Metcalf.

LAURIE METCALF (Lady Bird - A hora é de voar) - Assim como aconteceu com Willem Dafoe, o trabalho de Metcalf como a mãe difícil de Saoirse Ronan encantou os críticos no começo da temporada de premiações, com reconhecimento dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review. A partir do Golden Globe, porém, parece que suas chances foram diminuindo a cada dia, com Alisson Janney tomando a dianteira na disputa. Como o filme de Greta Gerwig tem uma visibilidade maior junto aos membros da Academia, porém, uma reviravolta não é impossível, e Matcalf ainda está no páreo. É pagar para ver.

OCTAVIA SPENCER (A forma da água) - Única veterana em Oscar da categoria, Spencer já saiu vitoriosa por "Histórias cruzadas" (2011) e voltou a concorrer ano passado por "Estrelas além do tempo". Sua nomeação por "A forma da água", no entanto, acontece mais pela força do filme do que por seu desempenho em si, que repete trejeitos e situações de trabalhos anteriores. Spencer é uma boa atriz, simpática e carismática, mas suas chances esse ano são quase nulas. Sua vitória seria um choque.

FAVORITA: Alisson Janney
TORCIDA: Alisson Janney
NO PÁREO: Laurie Metcalf, Lesley Manville
ZEBRA: Octavia Spencer

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OSCAR 2018 - MELHOR ATOR COADJUVANTE

Posted by Clenio on 19:42 in ,
Uma semana para o Oscar e todo mundo que é apaixonado por cinema já está com as apostas feitas, torcidas organizadas e o estoque de pipoca garantido. A partir de hoje, vamos analisar as principais categorias (as mais populares, digamos assim) e tentar adivinhar o pensamento dos eleitores da Academia. É um exercício que vem ficando a cada ano menos complicado, uma vez que outras cerimônias de premiação dão pistas mais do que suficientes para rastrear o pensamento comum da indústria - e acabam por deixar o Oscar, por mais glamouroso que seja, com um certo gostinho de anti-clímax, já que a essa altura do campeonato todas as entregas de prêmio soam extremamente parecidas, com uma ou outra surpresa para não ser totalmente previsível.

Este ano vamos começar com a categoria Melhor Ator Coadjuvante - que deixou de lado alguns nomes elogiados e esperados, como a dupla de "Me chame pelo seu nome", Armie Hammer e Michael Stuhlbarg. Ano passado, Mahershala Ali saiu vitorioso por "Moonlight: sob a luz do luar" - depois de ter sido eleito o melhor em praticamente todas as associações de críticos, além de ter levado o Golden Globe para casa. Este ano parece que a disputa está meio ganha, mas será realmente que dá para apostar tudo em Sam Rockwell?

WILLEM DAFOE (Projeto Flórida) - No começo da temporada de premiações, parecia que finalmente o veterano Willem Dafoe estava no caminho certo para ganhar seu primeiro Oscar, depois de outras indicações infrutíferas - por "Platoon" (86) e "A sombra do vampiro" (2000). Na pele do zelador de um hotel que serve como testemunha das aventuras de uma mãe solteira e sua filha pequena no drama independente "Projeto Flórida", Dafoe conquistou os críticos de Los Angeles e Nova York, além dos eleitores do National Board of Review, um tradicional círculo de críticos de cinema. A partir do Golden Globe, porém, suas chances foram diminuindo consideravelmente, e hoje só mesmo uma reviravolta pode lhe devolver o favoritismo. Como a Academia gosta de homenagear atores por suas carreiras e não apenas por um trabalho específico, Dafoe ainda pode sonhar com a estatueta - mas seria uma pequena zebra no caminho de Sam Rockwell.

WOODY HARRELSON (Três anúncios para um crime) - Também indicado pela terceira vez - as anteriores foram como melhor ator em "O povo contra Larry Flynt" (96) e coadjuvante em "O mensageiro" (2009) - o polêmico Harrelson volta à disputa competindo com o colega de elenco Sam Rockwell. Sua indicação é justa e merecida, mas suas chances são pequenas em comparação com as de seu parceiro. Sua presença na lista de indicados, no entanto, pode atrapalhar os planos de Rockwell se os eleitores resolverem dividir os votos entre os dois atores e abrir espaço para um terceiro nome: é pouco provável, mas pode acontecer. Ainda assim, Harrelson se mantém como um nome ativo e respeitado pela Academia - e pode ser reconhecido em breve com uma estatueta.

RICHARD JENKINS (A forma da água) - Jenkins também já conhece o gostinho de uma indicação ao Oscar - concorreu como melhor ator por "O visitante" (2008). Conhecido como o patriarca morto da série "A sete palmos", ele surge como o azarão da categoria: no filme de Guillermo Del Toro, ele interpreta o vizinho homossexual da protagonista Sally Hawking, que embarca no ousado plano da amiga como forma de lutar contra o preconceito. É um belo desempenho, mas deve ficar apenas na indicação.

CHRISTOPHER PLUMMER (Todo o dinheiro do mundo) - Premiado na mesma categoria em 2012, pelo filme "Toda forma de amor", o veteraníssimo Plummer surpreendeu a todos quando refez, em um prazo exíguo de filmagens, todo o trabalho que Kevin Spacey havia feito no filme de Ridley Scott. Spacey, caído em desgraça em Hollywood por acusações de estupro e assédio, poderia estar na lista de indicados deste ano, mas é seu substituto quem acabou abocanhando a vaga - muito por sua capacidade de embarcar em um desafio a essa altura da carreira. Sua vitória seria um tiro de misericórdia em Spacey, mas é improvável que isso vá acontecer, em especial depois da polêmica envolvendo a diferença gritante dos salários de seus colegas de elenco Mark Wahlberg e Michelle Williams.

SAM ROCKWELL (Três anúncios para um crime) - O grande favorito da categoria. Ator excepcional e pouco reconhecido, Rockwell trabalha novamente sob a batuta do diretor Martin McDonaugh (com quem fez o pouco visto "Sete psicopatas e um shi-tzu") e dessa vez finalmente chamou a atenção da Academia e dos críticos. Premiado com o Golden Globe, o Critics Choice Awards e o SAG Award (do sindicato dos atores dos EUA), Rockwell chega ao Oscar com uma confortável margem de favoritismo. Se não houver uma grande mudança de vento no pensamento dos votantes, sairá da festa com uma merecida estatueta nas mãos.

TORCIDA: Sam Rockwell
FAVORITO: Sam Rockwell
NA DISPUTA: Willem Dafoe e Woody Harrelson
AZARÃO: Richard Jenkins

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OSCAR 2017 - MELHOR ATOR

Posted by Clenio on 20:33 in
O ator, diretor e roteirista Ben Affleck bem pode ser mais conhecido que seu irmão caçula, Casey, mas se depender das probabilidades, o mais jovem da família poderá sair da cerimônia do próximo dia 26 de fevereiro com algo com que Ben - duramente criticado por suas limitações dramáticas - jamais poderia sonhar: um Oscar de melhor ator. Ok, ele já tem duas estatuetas em casa (roteiro original, por "Gênio indomável" e melhor filme, por "Argo"), mas se uma zebra não atravessar o tapete vermelho, será Casey o único do clã a ostentar a honra de estar ao lado de grandes nomes do cinema mundial (e outros nem tanto, vide Roberto Benigni e seu sofrível "A vida é bela"). Mas será que ele é tão favorito assim? Ou uma surpresa pode acontecer?

CASEY AFFLECK - Na pele de um zelador com um passado dramático que se vê obrigado a lidar com a possibilidade de cuidar do sobrinho adolescente depois da morte do irmão, Casey Affleck tornou-se o favorito ao Oscar deste ano. Seu trabalho minimalista (talvez em excesso) foi homenageado pelo National Board of Review, pelos críticos de Nova York, pela National Society of Film Critics e pelos eleitores do Golden Globe e do BAFTA (o Oscar britânico). Apenas seus colegas atores discordaram, dando o prêmio do Sindicato a Denzel Washington. A grande questão do momento é se as acusações de assédio sexual contra Casey - que já foi indicado anteriormente, como coadjuvante de "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford" (2007) - irão pesar o bastante para lhe tirar o ouro do Oscar por "Manchester à beira-mar". É pouco provável, mas o fator surpresa sempre ronda a cerimônia de premiação.

ANDREW GARFIELD - Este ano o ator inglês - conhecido por seu trabalho em "A rede social" e pelos dois filmes do Homem-aranha que estrelou ao lado da ex-namorada Emma Stone - esteve presente em dois filmes de visibilidade considerável. Mas se "Silêncio", de Martin Scorsese, passou pelas telas e pelos tapetes vermelhos sem fazer barulho algum, "Até o último homem", de Mel Gibson, agradou em cheio público, crítica e a Academia, que resolveu lhe dar sua primeira - e merecida - indicação ao Oscar. Na pele de um soldado (real) que participou da II Guerra Mundial sem ter disparado um único tiro e que salvou a vida de seu pelotão, Garfield demonstra uma maturidade e um talento que ainda pode render várias outras lembranças da Academia, em um futuro bem próximo.

RYAN GOSLING - Em 2007 o canadense Ryan Gosling foi indicado por "Half Nelson: encurralados", um filme que ninguém viu e que nem de longe é lembrado como um de seus melhores trabalhos. Este ano a coisa é diferente: na pele de um jovem pianista que sonha em ter sua própria casa de jazz, em "La La Land: cantando estações", ele marca um gol de placa, explorando seu talento para a atuação (dramática e cômica), o canto e a dança. Vencedor do Golden Globe, ele tem chances reduzidas de levar a estatueta, mas pode beneficiar-se do efeito arrastão que o filme promete deflagrar. Não seria uma premiação injusta, uma vez que Gosling tem na carreira atuações brilhantes que foram esnobadas pela Academia ("Namorados para sempre", "Drive", "Tudo pelo poder"). E se Emma Stone é uma das favoritas, por que ele também não pode ser?

VIGGO MORTENSEN - Uma pena que o excelente "Capitão Fantástico" tenha sido lembrado somente na categoria de melhor ator. A bela história do pai de família que cria seus filhos em um ambiente alternativo, longe da chamada civilização, é inteligente, bem-humorada, sensível e questionadora, mas foi praticamente ignorada pela Academia. Menos mal que seu protagonista, Viggo Mortensen, marcou presença na lista dos indicados, ainda que com chances quase nulas. É sua segunda indicação - a primeira aconteceu em 2008, por "Senhores do crime" - e um dos melhores trabalhos de atuação do ano. Se bobear, é infinitamente superior à atuação de Casey Affleck, o favorito.

DENZEL WASHINGTON - Sempre um candidato forte, Denzel Washington chega à sua sétima indicação com "Um limite entre nós", densa adaptação da peça teatral de August Wilson que também é dirigida por ele. Explorando ao máximo um papel que lhe dá todas as oportunidades para demonstrar seu imenso talento, Washington arrebatou o prêmio do Sindicato de Atores e chega à cerimônia do dia 26 com moral suficiente para abalar as certezas de Casey Affleck. Se ganhar, será o ator negro mais premiado da história da Academia, já que tem duas estatuetas em casa - ator coadjuvante por "Tempo de glória" (89) e ator por "Dia de treinamento" (2000). Alguém conhece outro que mereça mais tamanho prestígio?

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OSCAR 2017 - MELHOR ATRIZ

Posted by Clenio on 19:36 in ,
Já faz muitos anos que o Oscar de Melhor Atriz deixou de surpreender o público. Talvez desde que Marion Cottilard arrebatou a estatueta por "Piaf: um hino ao amor", na cerimônia de 2008 - e mesmo assim, já tendo ganho o Golden Globe, foi uma surpresa meio esperada. Este ano a disputa parece feia, ainda que, assim como aconteceu em 1999, quando Gwyneth Paltrow saiu vencedora por "Shakespeare apaixonado", em detrimento de nomes como Meryl Streep, Cate Blanchett e Fernanda Montenegro, a bela Emma Stone tenha alguns corpos de vantagem sobre as rivais, graças a seu carisma, juventude e a simpatia de seu filme. Stone está ótima em "La La Land" - mas será que seu trabalho realmente é o melhor dos cinco candidatos? Como estamos falando de Oscar (ou, em outras palavras, da indústria hollywoodiana de entretenimento), talvez não seja, mas isso é o que menos importa.

ISABELLE HUPPERT - A mais grata surpresa do Oscar 2017 é a indicação de Huppert, a cara do cinema francês no momento - assim como o foram Isabelle Adjani nos anos 80 e Juliette Binoche na década de 90. Menos popular que as duas e mais conhecida dos cinéfilos com tendências mais intelectuais e ratos de cinemateca, Huppert é uma atriz de primeira grandeza, rica em nuances e capaz de mergulhar sem medo em trabalhos densos - como "A professora de piano", de Michael Haneke - ou produções mais solares, como "O que está por vir", que este ano, foi o filme responsável de colocá-la no radar das premiações. Por causa dele - e por "Elle", do holandês Paul Verhoeven (de "Robocop", "Instinto selvagem" e do infame "Showgirls" - Huppert foi homenageada pelos críticos de Los Angeles e Nova York, além da Associação Nacional de Críticos. O inesperado Golden Globe e a indicação ao Oscar vieram apenas por "Elle" - onde interpreta uma mulher vítima de violência sexual que se recusa a deixar-se abater pelo acontecimento - mas apenas porque o papel é bem mais "típico" de Oscar. Sua vitória seria um tanto inesperada, mas muito comemorada por quem gosta de cinema mais autoral e menos comercial.

RUTH NEGGA - A única indicação do belo "Loving", de Jeff Nichols, sublinha uma de suas maiores qualidades. Em uma interpretação discreta mas avassaladoramente expressiva, Ruth Negga (mulher do ator Dominic Cooper) agarra com unhas e dentes a oportunidade de transformar-se em estrela. Quem assistiu ao filme sabe do que ela é capaz mesmo em silêncio, mas suas chances de vitória são bem pequenas frente às demais indicadas. Mas é um belo empurrão para uma carreira que promete.

NATALIE PORTMAN - Em sua terceira indicação ao Oscar, a bela Natalie Portman - vencedora em 2011 pelo perturbador "Cisne negro" - tenta o bicampeonato por seu retrato da primeira-dama mais famosa dos EUA. Em "Jackie", do chileno Pablo Larraín, ela constrói uma Jacqueline Kennedy equilibrada entre a imagem que desejava passar ao público e a mulher que tentava lidar com a perda do marido, do poder e da vida de glamour. Prejudicada pelo estilo semi-documental do filme, que foge das tradicionais cinebiografias, Portman escapou imune das críticas e conquistou uma merecida indicação - mas suas chances vem diminuindo a cada dia. Uma pena, já que seu trabalho é ótimo.

EMMA STONE - Indicada há dois anos como coadjuvante - por "Birdman" - a jovem Stone tem tudo a seu favor: é bonita sem ser ameaçadora, é simpática, é talentosa, é popular e está no elenco do filme com o maior número de indicações do ano. Além disso, em "La La Land" ela atua, canta e dança, mostrando uma versatilidade que comprova o talento com que acenava na comédia adolescente "A mentira" (2010), que lhe rendeu sua primeira indicação ao Golden Globe. No filme que pode lhe render um Oscar um tanto precoce, ela interpreta uma aspirante a atriz que descobre, da pior maneira possível, que profissão e amor nem sempre conseguem andar de mãos dadas, e o faz com graça e bom-humor. Uma interpretação que já lhe deu um Golden Globe, um prêmio do Sindicato de Atores e um BAFTA (o Oscar britânico). O Oscar já está quase aumentando esta lista.

MERYL STREEP - Em sua vigésima indicação, a atriz mais respeitada de Hollywood não apenas é aplaudida por seu imenso talento em dar vida a personagens de todo tipo, mas também por suas opiniões políticas lúcidas e inteligentes e por sua extrema generosidade. Não é à toa que seu nome já virou sinônimo de Oscar ainda que ela tenha apenas três estatuetas (uma a menos que a recordista Katharine Hepburn, com quatro na categoria principal). Em "Florence: quem é essa mulher?", do inglês Stephen Frears, ela traz à vida uma milionária nova-iorquina que existiu na vida real e que, apaixonada por música, era incapaz de perceber o quão ruins eram suas tentativas de cantar e mesmo assim conquistava a todos por sua simpatia e bom-humor. O filme é apenas agradável, mas, como sempre, Streep o eleva a um patamar acima da média. Mas deve ficar apenas na indicação, mais uma vez.

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OSCAR 2017 - ATRIZ COADJUVANTE

Posted by Clenio on 18:01 in ,
Eis um motivo para se comemorar. Depois do ano passado, quando a Academia recebeu duras críticas a respeito de sua insensibilidade quanto à diversidade racial em suas escolhas para disputar o Oscar, os eleitores parecem ter resolvido por a mão na consciência e dar o devido valor a artistas até então relegados a um injusto segundo plano. Pela primeira vez na história do prêmio, por exemplo, três atrizes negras disputam a estatueta de atriz coadjuvante - e todas elas estão no páreo por mérito próprio, com atuações dignas de vitória. Ainda que nesta categoria exista uma grande favorita, tudo pode acontecer, afinal qual seria a graça da cerimônia sem uma ou outra surpresa?

VIOLA DAVIS - Uma das maiores atrizes em atividade no cinema americano - e na televisão, haja visto o sucesso e os prêmios da série "How to get away with murder" - Viola Davis é praticamente uma certeza , uma vez que já arrebatou as estatuetas do Golden Globe e do Sindicato de Atores por seu desempenho visceral em "Um limite entre nós", em que interpreta a forte e dedicada esposa de Denzel Washington. Indicada pela terceira vez - as anteriores foram por "Dúvida" (2008) e "Histórias cruzadas" (2011), como coadjuvante e protagonista, respectivamente - Davis tem ainda a vantagem de ser uma atriz muito querida pelos colegas, o que sempre ajuda a desequilibrar a balança na hora H.

NAOMIE HARRIS - Depois de ter participado de dois filmes de James Bond - "Skyfall" (2012) e "Spectre" (2015) - e de ter sido a esposa do líder sul-africano Nelson Mandela no filme estrelado por Idris Elba em 2013, Naomie Harris mostrou um lado bem mais intenso de seu talento na pele de uma mãe viciada em drogas no poderoso "Moonlight", que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar da carreira. Premiada pelo National Board of Review, Harris é um dos destaques do filme de Barry Jenkins, e sua dobradinha com Mahershala Ali (favorito ao Oscar de ator coadjuvante) é explosiva em cena. Sua vitória não seria nada injusta, mas é pouco provável.

NICOLE KIDMAN - Indicada pela quarta vez ao Oscar - e vitoriosa na categoria principal por "As horas" (2002) - a bela Kidman está irreconhecível mais uma vez em "Lion: uma jornada para casa". Na pele da mãe adotiva do protagonista, um menino indiano afastado da família, Kidman demonstra força e fragilidade em doses equilibradas, sendo a base de algumas das mais emocionantes sequências do filme de Garth Davis. Às vésperas de completar 50 anos e dividindo sua carreira em produções elogiadas e algumas bombas assumidas, ela poderia dar um novo gás à sua trajetória com uma nova vitória, mas suas chances são bem pequenas.

OCTAVIA SPENCER - Vencedora do Oscar de coadjuvante por seu desempenho um tanto caricato em "Histórias cruzadas" (2011), Spencer conquista sua segunda indicação graças à força do elenco de "Estrelas além do tempo", onde interpreta uma das mulheres negras responsáveis pelos avanços dos EUA na corrida espacial dos anos 60. Ironicamente, ela é a menos brilhante das três atrizes principais do filme - Taraji P. Henson e a cantora Janelle Monáe estão bem melhores em cena - mas conquistou a atenção dos eleitores desde que foi indicada ao Golden Globe, na mesma categoria. Uma nova vitória é uma possibilidade bem pequena.

MICHELLE WILLIAMS - Uma das atrizes mais consistentes de sua geração, a ex-estrela da série adolescente "Dawson's Creek" chega à sua quarta tentativa de levar o Oscar, aos 37 anos de idade. Depois de viver a esposa de Heath Ledger em "O segredo de Brokeback Mountain" (2005), uma mãe de família oprimida em "Namorados para sempre" (2010) e um dos maiores símbolos sexuais do cinema, em "Sete dias com Marilyn" (2011), Michelle Williams chama a atenção em "Manchester à beira-mar", mesmo com pouco tempo em cena. Como a traumatizada ex-mulher do protagonista Casey Affleck, ela arranca lágrimas da plateia com uma interpretação altamente emotiva que contrasta com o minimalismo quase aflitivo de seu colega de trabalho. Se Viola Davis tiver de ser preterida, que seja em favor de Michelle, sempre brilhante em seus desempenhos.

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OSCAR 2017 - ATOR COADJUVANTE

Posted by Clenio on 20:44 in ,
Aqueles que esperavam que o Golden Globe desse uma luz e ajudasse a apontar um favorito para o Oscar de ator coadjuvante deste ano ficaram desapontados. O escolhido pela crítica estrangeira nos EUA elegeu Aaron Taylor-Johnson por seu desempenho em "Animais notunos", mas o jovem revelado em "O garoto de Liverpool" - onde interpretou um John Lennon pré-Beatles - nem chegou a ser indicado pela Academia, sendo substituído por seu colega de elenco Michael Shannon. Tal surpresa embaralhou ainda mais as cartas da disputa, em um ano bastante competitivo, mas que, a julgar por alguns dos outros prêmios distribuídos na temporada, tem um discreto favorito.

MAHERSHALA ALI - Poucos lembram dele como o interesse romântico da mãe adotiva de Brad Pitt em "O curioso caso de Benjamin Button", mas o diretor do filme, David Fincher, gostou tanto do seu trabalho que o escalou para um papel fixo na série "House of Cards". Hoje, Mahershala Ali, cujo nome de batismo é impronunciável, está no elenco de dois dos concorrentes a melhor filme do ano - "Moonlight" e "Estrelas além do tempo" - e conquistou sua primeira indicação ao Oscar pelo primeiro, no qual vive um traficante de drogas de bom coração, que ajuda o protagonista a atravessar as dificuldades da infância em um ambiente hostil. Premiado pelos críticos de Los Angeles e Nova York, além da National Society of Film Critics e do Sindicato de Atores, Ali desponta como o favorito. Não seria uma vitória injusta: em poucos minutos de tela, ele conquista a plateia mesmo com um personagem cujas intenções parecem dúbias desde o primeiro momento.

JEFF BRIDGES - O veterano do ano, Bridges está no páreo pela sétima vez. Já vencedor na categoria principal, por "Coração louco" (2009), dessa vez ele batalha como coadjuvante, roubando descaradamente a cena em "A qualquer custo", na pele de um xerife ranzinza que persegue uma dupla de irmãos que vem cometendo uma série de assaltos a banco no interior do Texas. Um rasgo de humor em um equilibrado misto de policial e western, Bridges foi eleito o melhor do ano pelo prestigiado National Board of Review. Sua vitória seria uma surpresa, mas bastante merecida.

LUCAS HEDGES - Com apenas 19 anos de idade, Hedges conquistou um dos papéis mais celebrados da temporada, como o adolescente que precisa lidar com a morte prematura do pai e as dúvidas do tio em aceitar seu tutor, em "Manchester à beira-mar". Em uma atuação discreta mas eficiente, o rapaz tirou de letra o desafio e, mesmo que esteja longe de ser um favorito, pode utilizar esse grande incentivo como catapulta para uma carreira bastante promissora.

DEV PATEL - Conhecido do público por seu trabalho como protagonista no multioscarizado "Quem quer ser um milionário?" (2008), Patel, por incrível que pareça, não é indiano, e sim inglês. Nascido em Londres em 1990, filho de pais quenianos, ele aproveitou o sucesso do premiado filme de Danny Boyle para construir uma carreira com alguns sucessos (os dois exemplares de "O Exótico Hotel Marigold"), alguns fracassos ("O último mestre do ar", de M. Night Shyamalan) e o subestimado "Chappie" (2015), de Neill Blomkamp, diretor de "Distrito 9". Em "Lion: uma jornada para casa", ele interpreta (mais uma vez) um rapaz indiano, mas dessa vez seu objetivo não é vencer um game-show televisivo, mas sim reencontrar a família da qual se perdeu na infância, antes de ser adotado por um casal australiano. Patel surpreendeu ao levar pra casa o BAFTA (o Oscar britânico) e pode também surgir como uma opção para os eleitores que gostaram do filme de Garth Davis a ponto de lhe colocarem também na disputa pelo prêmio principal.

MICHAEL SHANNON - Talvez o azarão da disputa, Shannon concorre à estatueta pela segunda vez na carreira. A primeira foi na cerimônia de 2009, quando foi indicado por "Foi apenas um sonho". Em "Animais noturnos", dirigido pelo estilista Tom Ford, ele vive um policial condenado por um câncer terminal que ajuda o protagonista interpretado por Jake Gyllenhaal a vingar-se dos homens que destruíram sua família. Ator de grandes recursos, Shannon pode ser prejudicado pela esnobada generalizada que a Academia deu ao filme de Ford - enquanto outras premiações foram bem mais generosas. Se for o vencedor será uma das maiores surpresas deste ano.

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CAVIAR É UMA OVA

Posted by Clenio on 21:55 in
Gregório Duvivier é uma peça rara dentre as novas vozes pensantes da literatura (ou da imprensa, ou do humor, escolha a área de sua preferência). Desagrada a direita - na figura de políticos metidos a estrelas e conservadores teleguiados pela mídia - e volta e meia é apedrejado até mesmo pelos mais radicais defensores da democracia - que não perdoam, entre outras coisas, o fato de ele clamar aos quatro ventos suas opiniões políticas de esquerda enquanto escreve para a Folha de São Paulo, um ícone do conservadorismo mais torpe do país. Quando se põe contra o machismo, encontra detratoras entre as feministas que o acusam de procurar o protagonismo na luta que é delas. Quando escreveu uma crônica de amor relacionada à ex-mulher, não foram poucas as leitoras que o acusaram de constranger o objeto de tal declaração. Se fala de religião, ofende. Se fala de política, causa controvérsia. Polêmico mesmo quando não quer, Duvivier tem, felizmente, um grande senso de humor. E é justamente essa sua característica que faz com que "Caviar é uma ova" (Cia das Letras), compilação de algumas de suas crônicas para a Folha, seja uma leitura quase obrigatória como antídoto ao mau-humor e à burrice galopante que vem tomando conta dos meios de comunicação.

Falando de assuntos tão prosaicos quanto o acordo ortográfico, lembranças da infância, política, família, amizade e mesclando textos doces e francamente engraçados, Duvivier conquista o leitor sem precisar apelar para malabarismos estilísticos ou tentativas patéticas de transmitir erudição. De linguagem direta e simples, ele faz rir ao imaginar trechos apócrifos da Bíblia e demonstra coragem ao peitar pastores gananciosos e o próprio jornal para o qual escreve - assim como para alguns de seus colegas cronistas que divergem radicalmente de seus pontos de vista. Transitando confortavelmente entre a leveza de temas corriqueiros e a melancolia de algumas palavras dedicadas a uma certa dose de nostalgia, o autor também não tem o menor sinal de medo ao declarar sua familiaridade com drogas e desafiar o conservadorismo de uma ruidosa parte da sociedade. Não faltam farpas ao Rio de Janeiro e sua política, aos frequentadores de redes sociais, à dita elite brasileira, a seus críticos frequentes e até a si mesmo. Herdeiro de um estilo de prosa que fez a fama e a glória de gente como Luiz Fernando Veríssimo - com uma ótica muito especial a respeito do mundo - Gregório é o tipo de autor que aproxima o leitor de suas palavras sem parecer fazer muito esforço. Admirado por gente como Wagner Moura e Chico Buarque - cujas palavras enfeitam a contra-capa da edição nacional - Duvivier é um dos porta-vozes de uma parcela inteligente e lúcida de uma geração que está pagando o alto preço de um golpe branco. Uma leitura divertida e essencial para quem não se deixa enganar pela velha mídia tradicional.

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A MAGNIFÍCIA "COLEÇÃO" DE MARISA MONTE

Posted by Clenio on 00:25 in


E lá se vão quase trinta anos desde que a voz suave e ligeiramente rouca da carioca Marisa Monte chegou pela primeira vez ao grande público, graças à inclusão, na trilha sonora da novela “O salvador da pátria”, da bela canção “Bem que se quis”. Descoberta por Nelson Motta enquanto cantava em bares da Itália, Marisa conquistou crítica e ouvintes logo de cara, com um disco onde mostrava toda a extensão de seu talento vocal em regravações que iam de Titãs e Mutantes até Luiz Gonzaga, Candeia e, sofisticação das sofisticações, George e Ira Gershwin. Quase uma dúzia de álbuns depois e consagrada como uma das cantoras mais íntegras do país, com uma inteligente sobriedade na escolha do repertório e um invejável controle da própria carreira (que a previne de lançar coletâneas ou fazer as bisonhas visitas aos programas de televisão nacionais), Marisa presenteou os fãs com um novo trabalho. Apesar do título e da proposta de reunir no mesmo cd gravações que fazem um apanhado de suas características musicais, “Coleção” soa como um álbum novo em folha. E o que é melhor: é uma delícia do início ao fim.

A ideia de “Coleção” é fabulosa, principalmente para os fãs: juntar em um mesmo pacote treze músicas inéditas na discografia da cantora mas já presentes em discos variados. Nem tudo é tão inédito assim (“Alta noite” já consta de “Cor de rosa e carvão”, mas aparece por ser uma versão em parceria com Arnaldo Antunes, seu colega no projeto Tribalistas, e “A primeira pedra”, em que ela divide o vocal com o oscarizado Gustavo Santaolalla, faz parte de “Infinito particular”), mas, entre duetos brilhantes, regravações fascinantes e faixas oriundas de trilhas sonoras de cinema, Marisa desfila sua voz irretocável nos mais variados ritmos. Uma prova de seu ecletismo – a principal característica apontada pela crítica na ocasião de seu surgimento, em 1988 – é misturar, sem prejuízo algum, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Caetano Veloso e a Velha Guarda da Portela com composições próprias, ao lado do já citado Arnaldo Antunes e de Carlinhos Brown. 

A delicadeza de “Coleção” – que já é perceptível no belo projeto gráfico – começa com “Nu com minha música”, de Caetano Veloso, que Marisa canta com Marcelo Amarante (Los Hermanos) e Devendra Banhart e que faz parte do beneficente “Red Hot + Rio 2”. Da primeira edição do programa também foi resgatada uma inusitada versão de “Águas de março” com o norte-americano David Byrne. A partir daí o público é brindado com participações especiais de Julieta Venegas (“Ilusão”), Paulinho da Viola (“Carinhoso”), da portuguesa Cesaria Evora (“É doce morrer no mar”) e da Velha Guarda da Portela (“Volta, meu amor”).

Sem medo de parecer brega, Marisa surpreende com a regravação de “Esqueça” – feita para a trilha sonora do filme “A taça do mundo é nossa!”, do Casseta e Planeta – e arrisca um tango com “Fumando espero”, com o grupo Café de Los Maestros, uma das melhores faixas do disco. É de destacar também “Cama”, do filme “Era uma vez”, em que Marisa brilha em um samba-canção que nada deve aos clássicos do gênero – que, aliás, ela ajudou a revitalizar com um inestimável trabalho de pesquisa que resultou em um documentário e inspirou o sensacional “Universo ao meu redor”, recheado de belos exemplares da categoria. Inteligente e dona de uma técnica excepcional, Marisa comprova, com “Coleção”, que até mesmo quando lança um disco de, digamos assim, “sobras”, ainda é uma das vozes essenciais da música popular brasileira, tão assombrada por subcelebridades cujo talento parece residir somente na sua capacidade de auto-promoção.

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OSCAR 2016 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Posted by Clenio on 22:26 in
E então, como não poderia deixar de ser, a 88ª cerimônia de entrega do Oscar não primou pela imprevisibilidade. Como qualquer um poderia imaginar, o alucinante "Mad Max: estrada da fúria" saiu da festa abarrotado de estatuetas (seis ao todo, fazendo um arrastão na área técnica), Leonardo DiCaprio finalmente quebrou sua maldição pessoal e foi eleito o melhor ator, Brie Larson e Alicia Vikander também confirmaram as expectativas e Alejandro G. Iñárritu tornou-se apenas o terceiro cineasta a levar 2 Oscar consecutivos na história da Academia - para informação, os anteriores foram John Ford (por "As vinhas da ira" e "Como era verde meu vale", em 40/41) e Joseph L. Mankiewicz (por "Quem é o infiel?" e "A malvada", em 49/50). Além disso, vale lembrar que é a terceira vez na sequência que um mexicano leva o prêmio da categoria, já que Alfonso Cuarón garantiu o seu na festa de 2014, com "Gravidade" - e por falar em tricampeonato é admirável o feito do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, o primeiro da história a conquistar tal distinção (Donald Trump deve ter arrancado a peruca...).

Em uma cerimônia marcada pela polêmica da exclusão de atores negros entre os candidatos - tema que foi explorado em diversos trechos do discurso do apresentador Chris Rock e em alguns segmentos com níveis variados de erros e acertos (mostrar através de entrevistas com espectadores negros que a distância entre o discurso e a realidade sobre a igualdade racial nas telas e nas bilheterias ainda é imensa foi muito inteligente) - não houve grandes momentos, o que torna ainda mais intensa a apresentação de Lady Gaga (que cantou sua "Till it happens to you" e levou ao palco várias vítimas de estupro, tema do documentário "The hitting ground"). Aliás, é o segundo ano em que Gaga se destaca na festa, e o fato de ter perdido o Oscar para o chatíssimo tema de "007 contra Spectre" ainda deu vazão a um discurso equivocado do vencedor Sam Smith - que, coitado, se achava o primeiro gay a ganhar um Oscar e se viu soterrado de manifestações contrárias às suas pretensões, inclusive do roteirista Dustin Lance Black (de "Milk, a voz da igualdade").

O documentário "Amy", sobre a cantora Amy Winehouse, foi outro vencedor bastante popular, assim como a animação "Divertida Mente" - que ganhou do brasileiro "O menino e o mundo" - e o mais do que merecido prêmio para o veterano Ennio Morricone, finalmente ganhando, aos 87 anos, sua primeira estatueta, pelo violentíssimo "Os oito odiados", de Quentin Tarantino, um dos filmes subestimados do ano, assim como o belo "Carol" - que não converteu nenhuma de suas seis indicações, ainda que a atuação de Cate Blanchett ponha a da vitoriosa Brie Larson no bolso sem fazer muito esforço. É de se pensar se Larson vai conseguir escapar da maldição do Oscar que já vitimou Hale Berry e Hilary Swank - a julgar por seu próximo trabalho, "Kong: Skull Island", é pouco provável.

Já Leonardo DiCaprio não precisa provar nada pra ninguém há muito tempo, e seu Oscar apenas confirma um talento que ele demonstra desde a adolescência e uma coragem em encarar projetos desafiadores. Seu desempenho em "O regresso" é digno da estatueta, sim, ao contrário dos que dizem o contrário, e foi um dos acertos dos eleitores em um ano cujas injustiças já começaram na hora da divulgação dos indicados - cadê Idris Elba por "Beasts of no nation"? Cadê Todd Haynes como diretor e "Carol" como melhor filme? Cadê Charlize Theron por "Mad Max"? Por que Jennifer Lawrence de novo, e por um filme terrível como "Joy"?. Outro acerto em cheio foi a escolha de Mark Rylance como ator coadjuvante: todos esperavam que Sylvester Stallone sairia com um Oscar nas mãos (mais por sua história do que por seu talento como intérprete, sejamos honestos), mas na última hora prevaleceu o bom senso e o grande Rylance, um dos maiores destaques do excelente "Ponte dos espiões", de Steven Spielberg, lhe passou a perna e fez a alegria dos fãs de cinema de qualidade.

Quanto à vitória (quase) inesperada de "Spotlight, segredos revelados" na categoria principal, vale lembrar que "Crash, no limite" fez quase o mesmo na festa de 2006, roubando de "O segredo de Brokeback Mountain" a estatueta principal mesmo o filme de Ang Lee sendo o favorito (e superior) e tendo já levado os prêmios de roteiro adaptado e diretor. A obra de Tom McCarthy já havia sido premiada por várias associações de críticos e era considerada uma das maiores ameaças a "O regresso", assim como "Mad Max" e "A grande aposta", portanto não chegou a ser uma zebra total e absoluta - ganhou também a láurea de roteiro original e, mesmo sendo apenas o segundo filme da história a ser o grande vencedor mesmo com apenas dois carecas dourados no currículo (o outro é "O maior espetáculo da Terra", de 1956, que ficou com os mesmos dois prêmios), foi um gol de placa da Academia: é um filme forte, elegante, adulto e relevante, além de bem escrito, bem dirigido e com um elenco impecável.

Ainda é cedo para sabermos o que virá para o próximo Oscar - será que a Academia vai tentar reverter a polêmica desse ano? Será que vai abrir a festa para mais blockbusters? Será que John Williams vai arrebatar uma 51ª indicação? Será que Meryl Streep voltará à lista dos candidatos? - mas é certo que daqui a um ano os fãs de cinema estarão de novo discutindo, elocubrando, resmungando e comemorando as vitórias de seus preferidos. É um ritual tão querido quanto desprezado, mas que jamais passa despercebido.

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OSCAR 2016: MELHOR ATOR

Posted by Clenio on 18:21 in
A não ser que aconteça uma hecatombe, Leonardo DiCaprio vai mesmo sair da cerimônia do Oscar 2016, no próximo domingo, com sua batalhada estatueta de melhor ator. Desde que concorreu pela primeira vez, em 1994 - ainda adolescente, como coadjuvante por seu trabalho em "Gilbert Grape, aprendiz de sonhador", ao lado de Johnny Depp - o ídolo juvenil cresceu, encarou desafios constantes como ator, atuou sob os auspícios de cineastas consagrados (Clint Eastwood, Steven Spielberg, Sam Mendes, James Cameron, Christopher Nolan e principalmente Martin Scorsese, com quem travou uma parceria bastante frutífera) e construiu uma carreira sólida e admirável. Foi indicado outras vezes ao Oscar - desta vez como protagonista - por "O aviador" (04), "Diamante de sangue" (06) e "O lobo de Wall Street" (13), mas nunca foi tão favorito como este ano, quando já ganhou o Golden Globe, o prêmio do Sindicato dos Atores (SAG), o Critics Choice Awards e o BAFTA (o Oscar britânico). Seu desempenho em "O regresso", de Alejandro G. Iñárritu (que também é um dos favoritos ao prêmio máximo do ano) é visceral física e psicologicamente, e DiCaprio tem tudo para acabar com sua maldição particular e finalmente sair-se vitorioso na disputa - mesmo porque, a despeito de suas ótimas atuações, os demais candidatos não tem um endosso tão grande por parte das cerimônias de premiação até agora.

O mais interessante dos rivais de DiCaprio é Michael Fassbender - que concorreu há dois anos, como coadjuvante, por "12 anos de escravidão". Indicado por seu desempenho irretocável no papel-título de "Steve Jobs", o ator preferido do cineasta Steve McQueen (que nessa temporada também entregou uma admirável atuação em "Macbeth", ao lado de Marion Cottilard) foi premiado pelos críticos de Los Angeles, mas tem contra si o fato de o filme ter fracassado nas bilheterias e ter dividido opiniões. Mesmo assim, é uma interpretação fascinante, minimalista e dotada de grande força dramática, que merecia melhor sorte - sem falar que Fassbender merecia um Oscar no mínimo desde sua avassaladora aparição em "Fome" (08), que foi ignorada pela Academia. Fato é que Fassbender mais cedo ou mais tarde irá abocanhar uma estatueta - seu talento é grande demais para passar despercebido.

Outro que também já tem prêmios em casa graças a seu trabalho nessa temporada é Matt Damon. Carismático, talentoso e querido por público e crítica, Damon já tem um Oscar em casa - de roteiro, por "Gênio indomável", que ele dividiu com o amigo Ben Affleck - e outras duas indicações anteriores - ator pelo mesmo "Gênio indomável" (97) e coadjuvante por "Invictus" (09). Em "Perdido em Marte" ele se vê abandonado por engano no Planeta Vermelho e é obrigado a manter-se vivo e saudável até que o erro seja percebido pelos colegas da Terra e eles se decidam a socorrê-lo. Damon carrega o filme nas costas, equilibrando sua atuação entre o desespero e o bom-humor - o que justificou sua vitória no Golden Globe como melhor ator em comédia/musical.  O National Board of Review também se encantou com seu desempenho e o elegeu como o melhor do ano. Com essas duas vitórias no currículo, Damon enfrenta DiCaprio sem muitas chances, mas a indicação é mais do que merecida.

Já Eddie Redmayne tem suas chances de vitória diminuídas pelo fato de já ter sido oscarizado ano passado por seu Stephen Hawking em "A teoria de tudo". Em "A garota dinamarquesa" ele está ainda melhor, mais sutil e menos óbvio, mas é pouquíssimo provável que a Academia vá transformá-lo em um novo Tom Hanks, lhe dando duas estatuetas consecutivas. Sua lembrança entre os candidatos é justíssima, mas, além de enfrentar o franco-favoritismo de DiCaprio, ele precisa também lidar com a situação de não ter sido lembrado por nenhum grupo de críticos na temporada pré-Oscar (o que é um forte indicativo de que sua indicação deve ser o máximo a que ele irá chegar este ano).

E, completando a lista dos indicados deste ano, Bryan Cranston arrebata sua primeira indicação em seu primeiro grande papel no cinema, depois do sucesso incontestável na série "Breaking bad". Em "Trumbo: lista negra", ele interpreta o roteirista Dalton Trumbo, que entre as décadas de 40 e 60, se viu impedido de trabalhar em Hollywood graças à sua simpatia pelo comunismo - visto, na época, como alta traição aos EUA. O filme também não chegou a ser um sucesso de bilheteria, e a lembrança de Cranston entre os candidatos é uma merecida homenagem ao personagem (premiado duas vezes com o Oscar mesmo sem poder assinar suas obras) e à interpretação inspirada do ator, normalmente relegado a papéis coadjuvantes e agora, ao que parece, promovido à primeira divisão de Hollywood.

FAVORITO - Leonardo DiCaprio ("O regresso")
TORCIDA - Michael Fassbender ("Steve Jobs")

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TRUMBO: LISTA NEGRA

Posted by Clenio on 20:55 in
Na noite de 24 de março de 1954, a deliciosa comédia romântica "A princesa e o plebeu", estrelada por Audrey Hepburn e Gregory Peck saiu da cerimônia de entrega do Oscar com três estatuetas: figurino em preto-e-branco para a experiente Edith Head, atriz para a novata Hepburn e roteiro original para Ian McLellan Hunter. Nada de excepcional, em um ano em que o drama de guerra "A um passo da eternidade", de Fred Zinnemann foi o grande vencedor em oito categorias. O que ninguém desconfiava - nem o público que assistia ao show pela televisão, nem os profissionais de cinema e nem muito menos o comitê do FBI encarregado de investigar casos de comunismo dentro da indústria do entretenimento americano - era que, na verdade, Hunter não era o verdadeiro autor do roteiro de "A princesa e o plebeu". O real criador daqueles encantadores personagens se chamava Dalton Trumbo, e naquele momento, ele estava proibido de exercer sua profissão por ser considerado uma ameaça ao país - uma proibição que se estendia a outros nove profissionais do cinema e que o fez cumprir também uma pena de dez meses de prisão. Pois é esse personagem - fundamental para entender um dos períodos mais negros de Hollywood - o protagonista de "Trumbo: lista negra", que chegou à lista dos indicados ao Oscar 2016 em uma categoria nada desprezível: melhor ator.

Interpretado por Bryan Cranston - elevado à categoria de astro depois do sucesso inegável da série "Breaking Bad" - Dalton Trumbo chega às telas sob a direção de Jay Roach, um cineasta que equilibra sua carreira entre bobagens divertidas - "Austin Powers" e "Entrando numa fria" - e produções sérias para a televisão americana - "Recontagem" (08)  e "Virada no jogo" (12), que mostram um surpreendente viés político em sua obra. Correto mas pouco criativo, Roach comanda "Trumbo" com discrição quase excessiva, deixando que a história e os personagens falem por si. Não seria uma opção equivocada se o roteiro também não seguisse a mesma linha, quase didática e um tanto fria em relação a seus heróis. Com uma atuação contida e mais cerebral que emocional, Cranston reflete o tom da narrativa, que prende o espectador mas não chega a encantar. É inegável, no entanto, o extremo cuidado com a requintada produção e a escolha certeira de elenco - que inclui Diane Lane, John Goodman e a sempre excelente Helen Mirren, injustamente esnobada pela Academia mesmo depois de ter sido indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante por seu brilhante desempenho como a colunista de fofocas Hedda Hopper - figura conhecidíssima e influente no meio cinematográfico da época e uma das principais responsáveis pela queda do protagonista rumo a seu inferno pessoal.

Mergulhando nos bastidores da Hollywood das décadas de 40 e 50, "Trumbo" aproveita para mostrar também como alguns dos maiores ídolos da época reagiram ao surgimento do Comitê criado pelo Senador Joseph McCarthy com a desculpa de proteger os EUA da ameaça comunista. Diante dos olhos do espectador, John Wayne (David James Elliott) se mostra pouco admirável, Edward G. Robinson (Michael Stuhlbarg) um homem mais afeito aos interesses pessoais do que aos amigos, Louis B. Mayer (Richard Portnow) um covarde suscetível a chantagens e Hedda Hopper uma mulher venenosa e cruel, mais destrutiva com suas colunas nos jornais e nas telas de cinema do que muitos agentes do FBI. Por outro lado, o filme mostra também a coragem de gente como Kirk Douglas (Dean O'Gorman) e Otto Preminger (Christian Berkel) em desafiar as arbitrariedades de uma lei fascista que impedia os grandes talentos de trabalharem e serem reconhecidos por isso - uma situação já mostrada também em "Culpado por suspeita", de Irwin Winkler (estrelado por Robert DeNiro em 1991) e "Boa noite, e boa sorte" (dirigido por George Clooney em 2005) - com quem divide um discurso final de grande inteligência e importância em tempos tão conservadores.

Mesmo que seja um típico caso de história maior do que o filme, "Trumbo: lista negra" é um trabalho extremamente eficiente em retratar sua época e revelar ao grande público a trajetória de um dos grandes autores do cinema hollywoodiano clássico. É um filme elegante, discreto e politicamente importante, que perde pontos apenas por ser excessivamente quadrado em sua narrativa. Um defeito pequeno se comparado às suas várias qualidades.

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OSCAR 2016: MELHOR ATRIZ

Posted by Clenio on 19:08 in ,
A ausência mais sentida entre as candidatas ao Oscar 2016 de melhor atriz foi a de Charlize Theron, que tirou de letra o desafio de comandar um dos filmes mais esperados da temporada e que realizou a proeza de arrecadar horrores pelo mundo inteiro, conquistar a unanimidade da crítica especializada e chegar à seleta lista dos indicados ao prêmio máximo da Academia. "Mad Max: estrada da fúria" deve se contentar com prêmios técnicos, já que nem Theron nem Tom Hardy foram indicados - ok, Hardy está no páreo, mas como coadjuvante, e por outro filme, "O regresso". E os fãs de Theron tiveram que engolir a inclusão de Jennifer Lawrence entre as cinco melhores atrizes do ano segundo a visão dos cada vez mais esquizofrênicos votantes. Conquistando sua quarta indicação em seis anos -  tendo vencido por "O lado bom da vida", em 2013 - Lawrence é uma atriz competente, mas é inegável até mesmo para os fãs mais fiéis que sua atuação em "Joy: o nome do sucesso" não merecia nem o Golden Globe que ela tirou de gente mais competente (Lily Tomlin, Maggie Smith) nem a indicação que ela tirou não só de Theron, mas também de outras atrizes com interpretações bem melhores, como Carey Mulligan ("As sufragistas") e Rooney Mara (que concorre como coadjuvante por "Carol" mas é tão protagonista quanto Cate Blanchett). Mesmo a teoria de que este ano não foi muito favorável a atuações femininas de peso não é suficiente para justificar Lawrence entre as candidatas. É o azarão absoluto da categoria, que, ao que tudo indica, parece mesmo à Brie Larson.

Pouco conhecida do público - fez apenas papéis pequenos em filmes como "Descompensada" (onde vive a irmã da protagonista vivida por Amy Schumer), "Anjos da lei" e "Como não perder essa mulher" (dirigido por Joseph Gordon-Levitt) - Larson já ganhou os prêmios mais significativos da temporada, o que faz de seu caminho ao palco do Oscar muito mais fácil. Eleita a melhor atriz pelos críticos do National Board of Review e vencedora do Golden Globe, do Critics Choice Awards, do BAFTA (o Oscar britânico), e do Screen Actors Guild (o sindicato de atores), ela tem, aos 26 anos, todas as evidências ao seu lado. Seu desempenho como uma jovem sequestrada que tenta criar da melhor maneira possível o filho nascido em seu cativeiro e depois se vê obrigada a reconectar-se com o mundo quando consegue fugir, é emocional e discreto. Competente, sem dúvida, mas o excesso de elogios e prêmios soa como uma espécie de alucinação coletiva que volta e meia toma conta do mundo do cinema. É a favorita absoluta, mas a perenidade de sua atuação só o tempo poderá mostrar.

E se Larson ainda é uma atriz que precisa mostrar se não é apenas a atriz certa na hora certa, o mesmo não pode ser dito de Cate Blanchett. Indicada pela sétima vez - e já vencedora de duas estatuetas, uma como coadjuvante por "O aviador" (04) e outra como protagonista, por "Blue Jasmine" (13) - a australiana de 45 anos desfila charme, beleza e talento pela tela na pele da socialite envolvida em um escandaloso romance lésbico em "Carol", sua segunda colaboração com o cineasta Todd Haynes (a primeira, como Bob Dylan em "Não estou lá", também lhe rendeu uma indicação, como coadjuvante, no mesmo ano em que concorria na categoria principal por "Elizabeth, a era de ouro"). Blanchett é sempre uma atriz riquíssima em nuances e não é diferente na adaptação do romance de Patricia Higshmith, um trabalho nunca aquém de precioso. Infelizmente sua vitória recente por "Blue Jasmine" tira muito suas chances de ganhar de novo - e nem mesmo relegar sua colega de cena Rooney Mara para a categoria de coadjuvante ajuda a mudar o quadro.

A quarta candidata à estatueta de melhor atriz é a veterana Charlotte Rampling, que engrossa a lista das atuações minimalistas que dominaram a categoria este ano. Como uma professora aposentada que passa a questionar seu casamento às vésperas de completar quatro décadas e meia de relação - graças à descoberta de que seu marido ainda não esqueceu seu primeiro amor, cujo corpo desaparecido ressurge como um fantasma - Rampling conquista sua primeira indicação ao Oscar aos 70 anos, e chega respaldada pelos prêmios dos críticos de Los Angeles, Boston, Londres e pela National Society of Film Critics. Não fosse sua declaração de que o boicote ao Oscar devido à ausência de atores negros entre os indicados seria um "racismo aos brancos", a veterana atriz provavelmente teria mais chances de vitória. Depois desse infeliz discurso - já debitado na conta dos tradicionais "fora de contexto" - suas possibilidades de subir ao palco para agradecer o homenzinho dourado estão ainda menores. Uma pena, já que seu desempenho (e sua carreira) são brilhantes.

E finalizando a seleta lista, está uma bela e merecida surpresa: por sua atuação delicada e honesta em "Brooklyn" - onde interpreta uma jovem irlandesa que chega à Nova York depois da II Guerra em busca de uma nova e mais promissora vida - Saoirse Ronan conquistou sua segunda indicação ao Oscar. Em 2008, ela concorreu como coadjuvante pela maldosa Briony Tallis no estupendo "Desejo e reparação" (com apenas 13 anos de idade) e agora mostra que seu talento não era fogo de palha. Com olhos expressivos e a sutileza de uma veterana, Ronan foi eleita a melhor atriz do ano pelos críticos de Nova York e sua vitória seria um alento àqueles que acreditam que o cinema não vive apenas de blockbusters e filmes adotados por grandes estratégias de marketing. Se "Brooklyn" conseguiu uma vaga até mesmo entre os indicados à categoria principal, muito se deve à sua atriz principal, que não precisa de ataques histéricos em cena para mostrar o quão talentosa é.

FAVORITA: Brie Larson, por "O quarto de Jack"
TORCIDA: Cate Blanchett, por "Carol" e Saoirse Ronan, por "Brooklyn"
QUEM NÃO DEVERIA ESTAR AÍ: Jennifer Lawrence, por "Joy: o nome do sucesso"

Quem quiser ler mais sobre os filmes indicados na categoria, é só chegar:

CAROL: http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/01/carol.html
O QUARTO DE JACK: http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/02/o-quarto-de-jack.html
JOY: http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/02/joy-o-nome-do-sucesso.html
45 ANOS:  http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/02/o-quarto-de-jack.html
BROOKLYN:  http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/02/brooklyn.html

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