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MARGIN CALL, O DIA ANTES DO FIM

Posted by Clenio on 09:44 in
Pode até parecer chato, mas não é. "Margin Call, O dia antes do fim". escrito e dirigido por J.C. Chandor, apesar de tratar de um assunto relativamente inacessível à maioria do público - finanças, negociatas e afins - consegue supreendentemente evitar os bocejos que filmes com essa temática normalmente despertam na audiência (vide o aborrecido "Wall Street, o dinheiro nunca dorme", que apesar de Michael Douglas não escapava da chatice). Focalizando sua atenção mais na tensão de uma provável hecatombe monetária do que exatamente em tentar explicar didaticamente suas causas, Chandor marcou um gol de placa logo em seu primeiro filme, levando pra casa os prêmios de melhor diretor estreante tanto pelo National Board of Review quanto pela Associação de Críticos de Nova York. A boa notícia? Ele mereceu.

"Margin Call" se passa em tensas 24 horas que precedem o que promete ser - segundo as personagens, todas especialistas no assunto - uma das mais graves crises financeiras já vistas pelos EUA (e consequentemente pelo mundo todo). Tudo começa com a demissão em massa de inúmeros funcionários de um milionário banco de investimentos nova-iorquino. Entre os infelizes desempregados está Eric Dale (Stanley Tucci, excepcional), que, na hora de sair do prédio, deixa nas mãos de um de seus assistentes, o jovem Peter Sullivan (Zachary Quinto, um dos produtores do filme) um pen-drive com informações aterradoras sobre os negócios da empresa. Assustado com o que descobre, Peter e seu colega mais próximo Seth Bregman (Penn Badgley) entram em contato com seu superior imediato, Will Emerson (Paul Bettany), que também se choca com o que vê. A partir daí, o pânico passa a fazer parte da equação, principalmente quando entram em jogo figuras de um escalão muito maior da firma, como o experiente Sam Rogers (Kevin Spacey em um dos melhores momentos de sua carreira recente), a ambiciosa Sarah Robertson (Demi Moore) e o especialista Jared Cohen (Simon Baker). Juntos, todos eles se reunirão com aquele que irá decidir seus destinos, o poderoso John Tuld (Jeremy Irons, também magnífico).

Apesar de muitas vezes deixar o espectador perdido (em especial por não fazer questão de esclarecer a crise de maneira explícita), o ótimo roteiro de Chandor tem a sorte de contar com um dos mais espetaculares elencos reunidos nos últimos anos. É graças aos trabalhos repletos de silêncios reveladores de Spacey, Tucci, Irons e até mesmo Demi Moore que a trama do filme se sustenta. Se as cenas que se referem a dólares e percentuais passam batidos pela vasta maioria da audiência, os diálogos onde a humanidade de suas personagens se revela dá à obra um tom dramático irresistível (mesmo que exagero de espécie alguma passe pela tela). E são particularmente fascinantes as atuações de Kevin Spacey (relembrando a todos o porquê de ser um dos melhores atores americanos de sua geração) e Stanley Tucci (que bem poderia arrebatar uma indicação ao Oscar de coadjuvante).

É bem provável que "Margin Call" passe despercebido nos cinemas brasileiros (parte por seu tema um tanto específico demais, parte por ser eclipsado pelos prováveis candidatos ao Oscar). Mas aqueles que se arriscarem a dar uma olhada não terão do que reclamar.

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DRIVE

Posted by Clenio on 14:47 in
A atmosfera sombria e melancólica é a mesma, apesar dos cenários distintos (Nova York em um, Los Angeles em outro). O protagonista, solitário e idiossincrático, idem. A violência que explode sangrentamente do nada é idêntica. E até mesmo o título tem uma semelhança direta. É impossível assistir-se à "Drive" - um dos mais fortes candidatos a cult dos últimos anos - sem que as poderosas imagens criadas por Martin Scorsese venham à mente. "Taxi driver", escrito por Paul Schrader e fotografado por Michael Chapman em 1976 está no cerne do filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn que arrancou elogios entusiasmados no último Festival de Cannes. Pro bem e pro mal.

Logicamente, ser comparado com um dos mais importantes filmes da carreira de um dos mais íntegros cineastas em atividade não é nada mal, mas "Drive" vai muito além das comparações. Baseada em um livro de James Sallis recém publicado no Brasil, a obra de Refn é um policial denso e envolvente que mistura o ritmo compassado do cinema europeu com uma violência quase devastadora que somente os mais corajosos diretores americanos ousam experimentar. Pode-se dizer sem medo que "Drive" é um filme de ação SEM ação (ao menos aquele tipo de ação que convencionou-se chamar de "ação" em termos hollywoodianos). E não seria errado afirmar também que é um drama avassalador sobre a solidão e sobre a sensação de deslocamento e impotência. Mas, acima de tudo, "Drive" é cinema de primeira qualidade.

Ryan Gosling (conduzindo sua carreira de maneira exemplar) vive o protagonista com economia de recursos, dando a seus silêncios o peso de um discurso. Seu nome nunca é mencionado, o que aumenta ainda mais o sentimento de desimportância que lhe oprime. Trabalhando de dia como dublê de cenas perigosas e à noite como motorista de bandidos que precisam de um carro, ele passa seus dias sem maiores ambições. Assim como Travis Bickle (que Robert DeNiro eternizou em "Taxi driver"), ele encontra uma razão para viver quando uma mulher entra em sua vida. Irene (Carey Mulligan, doce e emocionante) é uma vizinha de prédio, que cria sozinha o filho pequeno desde que o pai do menino foi preso. É justamente Irene (e o sentimento que ela lhe desperta) que fará com que ele aceite fazer parte de um assalto que o jogará em rota de colisão com gente barra-pesada (inclusive um mafioso que poderá render um Oscar ao veterano Albert Brooks). Para proteger Irene e seu filho, o calado motorista descobrirá, em si mesmo, uma fúria incontrolável.

"Drive" é um grande filme. Visualmente impecável (desde a fotografia distante até o figurino que virou referência) e com uma trilha sonora extremamente adequada (que mescla temas próprios e densos com canções delicadas que acentuam seu tom triste), é também um show à parte para Ryan Gosling. Um dos melhores atores de sua geração, o canadense é nome certo entre os indicados ao próximo Oscar por seu trabalho em "Tudo pelo poder", de George Clooney, mas sua atuação aqui é nada menos do que antológica. Gosling é o corpo e a alma de "Drive". Ao público resta se chocar (com algumas cenas realmente surpreendentes) e aplaudir.

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INQUIETOS

Posted by Clenio on 18:47 in
Ele se chama Enoch Brae e, órfão de pai e mãe por obra de um desastre de automóvel que o deixou em coma por três meses, tem por hábito frequentar funerais de desconhecidos como forma inconsciente de exorcisar sua constante melancolia. Ela é Annabel Cotton, uma jovem inteligente, sensível e etérea que, apesar da pouca idade já tem os dias contados devido a um tumor cerebral incurável. Um belo dia eles se encontram em um velório e tornam-se amigos. Ela não questiona o fato do rapaz conversar com o fantasma de um piloto kamikaze morto em ação e ele aceita pacificamente a ideia de que a vida de sua melhor amiga tem data para acabar. Aos poucos a relação entre os dois ultrapassa os limites da amizade e eles se apaixonam, mesmo sabendo que sua história de amor está fadada à tristeza.

Se o breve resumo da sinopse do novo filme do outrora transgressor Gus Van Sant - que depois de empolgar a crítica com seus "Drugstore Cowboy" e "Garotos de Programa" foi engolido pela máquina hollywoodiana a ponto de concorrer duas vezes ao Oscar - lhe fez descartá-lo, pense mais um pouco. Apesar da premissa um tanto deprê, "Inquietos" é um sensível e delicado drama romântico que não apela para o chororô melodramático. Contado de forma suave e poética, é, talvez, a melhor e mais singela história de amor contada pelo cinema neste ano de 2011, dotada de uma pureza juvenil cada vez mais rara nesse cínico século XXI.

Embalado pela doce trilha sonora de Danny Elfman, "Inquietos" não é apenas a trágica história de dois jovens que lidam com a morte de maneira estoica (cada um a seu jeito): é principalmente uma ode à vida, uma homenagem aos pequenos momentos, a cada sorriso, a cada toque, a cada pingo de chuva. Apesar de estarem em um momento crucial e devastador de suas vidas, Enoch e Annabel não encontram tempo para lamentos e lágrimas. Jovens e quase pueris em sua paixão, eles preferem utilizar o tempo que lhes resta juntos da maneira mais positiva possível (e nem mesmo planejar seu funeral tira o bom humor da garota, vivida com uma encantadora sutileza por Mia Wasikowska). O romance entre os dois não soa artificial nem urgente, surgindo passo a passo, de maneira gradual e verdadeira e conquista a audiência principalmente por sua inocência, representada de maneira apaixonante por sua dupla central.

Se Mia Wasikowska já tem um currículo respeitável apesar da pouca idade - já foi vista em "Alice no País das Maravilhas" e "Minhas Mães e Meu Pai", só para citar os mais conhecidos - o novato Henry Hopper (filho do saudoso Dennis) faz uma auspiciosa estreia na pele do inseguro, tímido e desconfortável Enoch. Dono de traços delicados, o jovem Hopper transmite com facilidade as nuances de sua personagem, ainda que esteja longe de ser um ator admirável (o que ele pode se tornar com o tempo, como demonstra aqui). A química entre os dois é formidável e é difícil não se deixar emocionar com algumas de suas cenas, principalmente devido à naturalidade de suas atuações e a seu final arrebatador (que felizmente abdica das lágrimas fáceis).

"Inquietos" pode até não ser criativo e ousado como os primeiros filmes de Gus Van Sant, mas é um alívio perceber que seus tempos de "Encontrando Forrester" parecem ter ficado definitivamente para trás.

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AS CANÇÕES

Posted by Clenio on 08:37 in
Se não houvesse músicas, como as pessoas se lembrariam de partes de sua vida? Essa é a questão levantada por Queimado, um dos participantes do belo documentário "As canções", dirigido pelo experiente Eduardo Coutinho e de certa forma é uma razão para que o filme tenha sido feito: com seu talento incomum de arrancar de seus entrevistados depoimentos emocionantes e verdadeiramente humanos, Coutinho apresenta ao público 18 histórias comoventes sobre amor, tendo como elo de ligação o fato de todas terem uma canção-tema. São pessoas desconhecidas, simples e muitas vezes sem maiores instruções que dão um show de sinceridade e até bom-humor em certos casos. Mais uma vez o cineasta veterano de "Cabra marcado para morrer" acerta em cheio.

A estrutura de "As canções" lembra um pouco a de "Jogo de cena", brilhante documentário que contou com Andrea Beltrão, Marília Pêra e Fernanda Torres, entre outras: o entrevistado entra em um cenário escuro, sem nada mais do que uma cadeira e conta sua história, intercalando-a com a música que a marcou. Desfilam pela tela histórias trágicas e felizes, entre maridos e esposas, entre pai e filho, entre amantes... Em todas elas existe o elemento da paixão, do arrependimento, do amor quase irracional. Em todas elas a audiência se reconhece (se não ao todo ao menos em parte). Em todas elas o ser humano (material de supremo interesse do documentarista) é o astro central, dividindo o palco com sua trilha sonora particular. Em todas elas há aquilo que faz da obra de Coutinho tão especial: seu carinho pelo ser humano.

Característica central da filmografia de Eduardo Coutinho, sua paixão pelas pessoas fica patente em "As canções": enquanto suas "personagens" estão em cena é difícil não se envolver, não ser tocado, não compreender cada história, por mais distante que esteja do universo do espectador. Tudo é responsabilidade da capacidade do diretor em despertar a confiança absoluta do interlocutor, que sente-se como em um terapeuta. Lágrimas são constantes nos depoimentos, mas  ninguém parece se incomodar com esse devassar sentimental. Todos estão ali para dividir suas experiências. E esse jogo de compartilhamento de vida é arrebatador. Entre as músicas de Roberto Carlos, Jorge Benjor e Noel Rosa que são trilha sonora de vidas de gente como a gente, fica a certeza de que o amor não escolhe sexo, classe social ou idade para aparecer e fazer seus estragos. E é isso que faz de "As canções" um filme tão especial e caloroso. Imperdível!

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NOITE DE ANO-NOVO

Posted by Clenio on 11:22 in
Aproveitar datas comemorativas como pretexto para realizar filmes - e consequentemente ganhar dinheiro aproveitando o marketing gratuito que isso gera - é uma espécie de tradição em Hollywood. Mas se até recentemente apenas filmes de terror apelavam para o calendário em busca de ideias - vide as séries "Sexta-feira 13" e "Halloween" e o tenebroso "11/11/11" deste ano - ultimamente um outro gênero vem se apropriando do conceito. Aliás, mais precisamente um cineasta: Garry Marshall, que em 1990 deu a Julia Roberts sua grande chance para o estrelato em "Uma linda mulher". Ano passado ele lançou "Idas e vindas do amor", uma comédia romântica que foi execrada quase unanimemente a despeito de seu elenco milionário - que incluía a própria Roberts, assim como Bradley Cooper, Ashton Kutscher, Kathy Bates, Anne Hathaway e Jamie Foxx. No entanto, apesar das críticas negativas, o filme rendeu mais de 200 milhões de dólares mundo afora, o que encorajou o cineasta a partir para uma espécie de segundo capítulo de sua saga "romântico/comemorativa". "Noite de ano-novo" chegou aos cinemas americanos no dia 5 de dezembro e, como era de se esperar, foi novamente massacrado pela crítica.

Utilizando-se do artifício que fez a glória de Robert Altman - contar várias histórias paralelas de personagens aparentemente sem conexão alguma - "Noite de ano-novo" segue rigidamente a fórmula do filme anterior de Marshall, mesclando tramas engraçadinhas, dramáticas e românticas sem dar atenção especial a nenhuma delas (e consequentemente superficializando todas as relações mostradas, inclusive aquelas que poderiam render muito mais). Além disso, o cineasta insiste em tentar atingir públicos de todas as idades, pondo lado a lado atores respeitados e/ou oscarizados (Robert DeNiro, Michelle Pfeiffer, Hale Berry e Hilary Swank) e jovens promessas/ídolos adolescentes (Abrigail Breslin, Zac Efron, Lea Michelle). Para completar o elenco, figurinhas fáceis do gênero, como Katherine Heigl, Sarah Jessica Parker e Josh Duhamel e seu ator-fetiche, Hector Elizondo. Soma-se à receita uma trilha sonora moderna, histórias que não machucam ninguém e uma espécie de lição de moral a respeito de amor e perdão e o bolo está pronto. A questão é: esse bolo tão repleto de ingredientes deu liga?

É lógico que "Noite de ano-novo" está a anos-luz de filmes do mesmo estilo como o delicioso "Simplesmente amor", mas tampouco é algo a ser desprezado totalmente. Apesar de ser dramaticamente falho, consegue ser simpático a maior parte do tempo (inclusive quando obriga a plateia a escutar Jon Bon Jovi) e, mesmo que algumas das relações mostradas na tela não cheguem a convencer a plateia (principalmente pelo pouco tempo disponível para desenvolvê-las) não deixa de ser um alívio perceber que nem só de desenhos animados vive o cinema americano nessa época de festas. "Noite de ano-novo" cumpre o que promete (entreter sem compromisso), mas nunca vai além disso. Pode divertir aos menos exigentes.

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O GAROTO DA BICICLETA

Posted by Clenio on 20:45 in
Dá até medo de pensar o que um cineasta-padrão de Hollywood poderia fazer com um filme com esta premissa: menino abandonado pelo pai é deixado em um orfanato e é resgatado por uma cabeleireira solteira que tenta dar a ele um lar e carinho, mas que percebe que o senso de auto-destruição do garoto pode impedí-los de manter uma relação saudável. Nas mãos de um diretor qualquer, mais preocupado com o dinheiro e os Oscar que tal filme poderia render, nasceria mais um intragável dramalhão lacrimoso e piegas. Porém, para sorte de todo mundo, "O garoto da bicicleta" não é americano e sim um belo filme belga dirigido pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, que tem em mãos uma Palma de Ouro do Festival de Cannes graças a seu "A criança", de 2005.

No Festival de Cannes deste ano "O garoto da bicicleta" também não saiu de mãos vazias, tendo levado o Grande Prêmio do Júri, o que apenas reitera a qualidade do cinema dos dois irmãos que, de maneira sensível e discreta, contam histórias humanas e que revestem de delicadeza temas complicados e espinhosos como gravidez na adolescência e a delinquência juvenil. Suas personagens são complexas, com atitudes nem sempre louváveis mas frequentemente perdoáveis, o que as aproxima da plateia de maneira sutil mas definitiva. Não é a intenção de sua filmografia dar soluções e justificativas e sim emocionar e tocar o público naquilo que ele tem de mais honesto: os sentimentos.

É nítido, em "O garoto da bicicleta", que o olhar dos cineastas/roteiristas é apenas isso, um olhar. Sem julgamento de espécie alguma, eles apenas mostram ao espectador um momento crucial na vida do menino Cyrill Catoul (o ótimo Thomas Doret), que, rejeitado abertamente pelo pai e órfão de mãe, tem problemas para lidar com a violência que tem dentro de si. Carente e infeliz, ele tem a chance de encontrar amor e um lar confortável quando Samantha (Cécile De France), dona de um salão de beleza, tem a ideia de ficar com ele nos finais de semana, proporcionando-lhe tranquilidade e paz. No entanto, Cyrill não sabe lidar com carinho desinteressado e se envolve com um jovem traficante de drogas, o que pode lhe afastar de vez de uma vida distante das ruas e de um futuro trágico.

É admirável a forma com que Jean-Pierre e Luc Dardenne fogem das inúmeras armadilhas nas quais poderiam cair em seu filme. "O garoto da bicicleta" não tem intenção de passar lições de moral nem tampouco o objetivo de emocionar com golpes baixos. A relação entre Cyrill e Samantha é mostrada com naturalidade e os caminhos que ela segue jamais penetram no perigoso terreno do sentimentalismo barato, ainda que em determinados momentos seja difícil não se comover com a dificuldade do protagonista mirim em se deixar entregar ao amor oferecido. Esse compromisso com a realidade é o maior trunfo da obra, uma pequena pérola de simplicidade e calor humano cujo final refrescante não deixa de ser um alívio e uma esperança.

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UM DIA

Posted by Clenio on 23:45 in
Parafraseando Nelson Rodrigues, "envergonha-me estar aqui proclamando o óbvio", mas, ao assistir-se à adaptação para o cinema de um livro querido é preciso estar perfeitamente ciente de que é virtualmente impossível ficar totalmente satisfeito. Isso acontece com uma raridade impressionante. Aconteceu com "As horas", magistral transição do romance de Michael Cunninhgam por Stephen Daldry em 2002. Aconteceu de novo em 2007 com "Desejo e reparação", que Joe Wright dirigiu com base no espetacular drama literário de Ian McEwan. Mas infelizmente não aconteceu com "Um dia", que a dinamarquesa Lone Scherfig assina depois do êxito de seu "Educação", que ano passado chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Filme. Tudo bem, o livro de David Nicholls não é uma obra-prima como os citados trabalhos de Cunningham e McEwan, mas é uma leitura deliciosa, ágil, comovente,engraçada e inteligente como poucas conseguem ser. E sua versão em celulóide pode até não ser um filme que vá ganhar estatuetas a granel, mas tem uma honestidade e uma simpatia tão grandes que é difícil não relevar seus pecadilhos.

Ao acompanhar vinte anos na vida de um casal de amigos que se conhece na formatura da faculdade - e que nunca deixam de se falar, escondendo até deles mesmos a paixão que sentem um pelo outro - o roteiro de David Nicholls falha ao fazer um inventário de sonhos despedaçados, relacionamentos frustrados e outras tantas decepções pelas quais todos passamos. Enquanto no livro tudo é emocionante e frequentemente hilariante devido à prosa esperta do autor, no filme as coisas acontecem com uma velocidade tão grande que muitas vezes os protagonistas não conseguem atingir o grau de realismo e densidade necessários. Logicamente é preciso muito malabarismo para condensar duas décadas em pouco mais de cem minutos de projeção, mas a pressa com que o roteiro passa por momentos cruciais das personagens - em especial quando eles finalmente começam a amadurecer - acaba prejudicando sua complexidade, deixando-os quase como duas personagens clichê de comédias românticas, o que - e quem leu o livro sabe disso - não pode estar mais longe da verdade.

Dexter Mayhew (vivido com graça e carisma por Jim Sturgess) e Emma Morley (interpretada pela linda e talentosa Anne Hathaway) são apaixonantes. Ele é sedutor, imaturo, no limite do egocentrismo. Ela é inteligente, ambiciosa e idealista. Eles passam a noite juntos no dia 15 de julho de 1988 e prometem ser amigos. Ele torna-se apresentador de um programa ruim de TV, envolve-se com drogas, mulheres e um certo tipo nocivo de fama. Ela vira garçonete, inicia um relacionamento com um aspirante a humorista mas jamais desiste de ser uma escritora. Eles nunca deixam de se falar. Mas são incapazes de perceber que se amam (ou pelo menos escondem esse sentimento tão fundo que desenterrá-lo pode trazer mais dor do que felicidade). Até que um dia...

Os românticos irão se deliciar com "Um dia". É um filme lindamente fotografado, com uma bela trilha sonora de Rachel Portman, dirigido com sensibilidade e leveza e repleto de um clima de delicadeza que se torna patente quando o roteiro permite que Sturgess brilhe com seu perdido Dexter (em especial em suas cenas com o ótimo Ken Stott, que interpreta seu pai) ou com sua química com Hathaway (ainda que ela esteja aquém das possibilidades mostradas em filmes como "O casamento de Rachel" ou até mesmo em "Amor e outras drogas"). É uma história de amor que emociona por tratar de pessoas de verdade e por fugir (dentro de suas possibilidades) de um final previsível. Quem leu o livro vai dizer (com razão) que poderia ser melhor. Mas ainda assim é um belo programa para os fãs do gênero e tem tudo para tornar-se cult com o passar dos anos.

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A CHAVE DE SARAH

Posted by Clenio on 11:54 in
A princípio, "A chave de Sarah" parece ser só mais um daqueles dramas que exploram o Holocausto judeu e que buscam a simpatia (e os Oscar) da Academia de Hollywood. No entanto, um olhar mais atento percebe que o filme do cineasta francês Gilles Paquet-Brenner tem mais a oferecer do que simplesmente cenas chocantes das crueldades cometidas com a desculpa da guerra - aliás, o filme é bastante discreto em relação a isso, preferindo não detalhar as atrocidades que todo mundo já conhece (e que o cinema não cansa de mostrar). A adaptação para o cinema do livro de Tatiana De Rosnay opta pelo lado emocional da situação, concentrando-se em uma trajetória individual (ou duas, dependendo do ponto de vista) ao invés de uma catarse coletiva. E tem como seu maior trunfo a atuação excelente de Kristin Scott-Thomas, cada vez mais se firmando como uma das maiores atrizes em atividade.

Scott-Thomas interpreta Julia Jarmond, uma jornalista americana que vive em Paris com o marido arquiteto e a filha pré-adolescente. Quando o filme começa, eles estão em vias de mudar-se para o antigo apartamento da família dele, um lugar amplo e bem localizado, mas carente de uma boa reforma. Enquanto a nova moradia não fica pronta, Julia se dedica a uma reportagem a respeito das centenas de judeus franceses expulsos de suas propriedades em julho de 1942 para ficarem presos em um velódromo até serem transferidos para campos de concentração (em um episódio pouco conhecido inclusive pelos franceses até o governo de Jaques Chirac, nos anos 90). Ela então descobre, atônita, que a casa para onde irá se mudar pertenceu a uma dessas famílias. Mesmo contra a vontade do sogro - que conhece toda a trágica história do apartamento - Julia vai atrás daquela que parece ser a única sobrevivente da família, uma mulher chamada Sarah Starzynski.

O roteiro de "A chave de Sarah" se alterna entre as investigações de Julia - tornadas ainda mais interessantes quando ela se descobre grávida sem contar com o apoio do marido - e os acontecimentos da vida da pequena Sarah (vivida pela ótima Mélusine Mayance), desde o momento em que é obrigada a abandonar sua casa juntamente com os pais (uma cena tensa que dá origem a todo o poderoso drama posterior) até seu melancólico desfecho (passando pelo chocante reencontro com o irmão que deixou trancado no armário de casa no momento da invasão). A edição enxuta de Hervé Schneid (que assinou o cultuado "O fabuloso destino de Amélie Poulain") também traduz o desejo do cineasta em manter um tom sóbrio, neutro e o mais distante possível de sentimentalismos forçados. A confiança do diretor em seu material é tanta que ele nem mesmo perde tempo (aplausos a ele) em mostrar cenas explícitas de violência física a não ser quando se faz estritamente necessário - e mesmo assim de maneira discreta mas eficaz. É na delicadeza de sua direção e nos olhares de suas atrizes centrais que se encontra toda a grandeza do filme.

Mesmo que não seja o melhor filme do gênero - e o final um tantinho clichê nem chega a incomodar - "A chave de Sarah" é um belo drama adulto, sério e realizado longe dos estúdios de Hollywood (o que já lhe dá uma certa confiabilidade artística um pouco maior). É emocionante sem ser piegas, é realista sem ser chocante e ainda por cima dá mais uma chance ao talento de Kristin Scott-Thomas e traz de volta às telas o sumido e ainda bom ator Aidan Quinn (na pele do filho de Sarah). Merece ser conferido!

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MEDIANERAS

Posted by Clenio on 20:53 in
Em um conto do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu cujo nome não me recordo agora, duas personagens que não se conhecem mas que são nitidamente almas gêmeas cruzam uma pela outra em uma rua qualquer e não se reconhecem, não trocando nem ao menos duas palavras. Pois foi esse conto genial de Caio que me veio à cabeça enquanto assistia à "Medianeras", mais um excelente exemplo do cinema argentino a aportar no Brasil.  A diferença entre o conto e o filme é que, enquanto nas páginas poéticas de Abreu a solidão acaba saindo vencedora, nas imagens do roteirista e cineasta Gustavo Taretto o amor e a esperança é que são vitoriosos.

Os dois protagonistas de "Medianeras" são bastante solitários e um tanto quanto complicados. Martin (Javier Drolas) é um criador de websites que vive isolado em um apartamento minúsculo de Buenos Aires, tendo a companhia apenas da cachorrinha que herdou de um namoro interrompido. Hipocondríaco e praticamente um misantropo, ele baseia suas relações praticamente através da Internet. Já Mariana (Pilar López de Ayala) acaba de sair de um relacionamento frustrante de quatro anos e não se sente pronta para recomeçar a vida, preferindo a companhia dos manequins plásticos que fazem parte de seu trabalho como vitrinista (uma vez que a carreira de arquiteta ficou apenas no diploma). Tanto um quanto o outro sentem que a solidão não é exatamente um caminho saudável a seguir, mas também são incapazes de lidar com o mundo a seu redor. Ele só compra, ouve música, vê filmes e se relaciona através do computador. Ela se sente perdida no mundo, procurando algo que nem mesmo sabe o que é, em um interessante paralelo com os livros infantis "Onde está Wally?" ("se não encontro nem mesmo alguém que eu sei exatamente quem é, como poderei encontrar alguém que eu nem conheço?", ela se pergunta, frustrada). O que eles não sabem, porém, é que são vizinhos, que moram na mesma rua, e que várias vezes se cruzaram pelas calçadas, sem perceber um ao outro.

"Medianeras" é um estudo sobre solidão, sobre as benesses e os problemas de tecnologia (que afasta as pessoas enquanto deveria uní-las), sobre o crescimento desenfreado das grandes cidades, sobre as dificuldades humanas em se comunicar. Mas, ao contrário do que pode parecer, não é um drama pesado e denso, capaz de estragar o humor do espectador. Taretto cria, em seu roteiro, uma sucessão de cenas agradáveis, equilibrando alguns momentos de graças sutil com outros da mais pura e honesta melancolia. Sua forma criativa de contar a história de amor entre Martin e Mariana ainda encontra espaço para digressões filosóficas pertinentes e jamais aborrecidas, que questiona principalmente a vida nos grandes centros - que isola e oprime seus cidadãos - e a aparente impossibilidade de uma felicidade real.

Mas, acima de tudo, "Medianeras" é um belo filme sobre a esperança e sobre como a felicidade pode estar ao alcance dos olhos quando se presta atenção a seu redor. E além do mais, é impossível não se encantar com um filme que homenageia explicitamente "Manhattan", um Woody Allen dos melhores. É de sair do cinema com um largo sorriso estampado no rosto.

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NÃO SEI COMO ELA CONSEGUE

Posted by Clenio on 18:35 in
Desde que tornou-se um nome quente na indústria do entretenimento graças à série "Sex and the city", a atriz Sarah Jessica Parker não tem tido muita sorte em suas incursões cinematográficas, acumulando um fracasso de bilheteria atrás do outro (com exceção das adaptações para a tela grande das aventuras de Carrie Bradshaw e companhia, que, apesar de não serem os filmes favoritos da crítica arrecadaram uma pequena fortuna mundo afora). Infelizmente seu novo filme, "Não sei como ela consegue" é da mesma estirpe de coisas como "Cadê os Morgan?" e "Armações do amor", mas consegue ser ainda pior.

Comédia romântica metida a feminista, o filme dirigido por Douglas McGrath - que dirigiu Gwyneth Paltrow na adaptação de "Emma", de Jane Austen ainda na década de 90 - é uma sucessão de erros. O roteiro é esquizofrênico, nunca se decidindo entre o humor (na forma de depoimentos para a câmera, artifício que não funciona mais como deveria há algum tempo) ou o drama familiar (nas tentativas pífias de criar, para sua protagonista, dilemas éticos sem fundamento algum). A direção de McGrath é frouxa e apática, preferindo sempre a solução mais fácil para cada cena (explorando pouco o talento do canastrão mais simpático do cinema americano, Greg Kinnear e permitindo a Sarah Jessica repetir ad nauseum todas as caras e bocas que lhe deram fama no seriado da HBO). E além de tudo, a coisa fica ainda pior quando a história ameaça mudar de rumo (e tornar-se um romance sem sentido) e não o faz: a impressão que fica é a de que a autora da história (no caso a escritora do livro que deu origem ao filme, Allison Pearson) não teve coragem o bastante para fazer com que sua protagonista perdesse o único elo com a plateia: o amor que nutre pela família.

Sim, o filme é a favor da família, da moral e dos bons costumes, como manda a cartilha do politicamente correto (sono!!!). Parker interpreta Kate Reddy, executiva de um banco que vê a grande chance de sua carreira ameaçar seriamente seus deveres como mãe e esposa. Casada com o arquiteto Richard (Greg Kinnear) e feliz com o casamento e a família (dois filhos pequenos e amáveis), ela precisa dividir seu tempo entre os afazeres domésticos sempre urgentes e viagens a trabalho - onde encontra o charmoso Jack Abelhammer (Pierce Brosnan), que cai de amores por ela. Logicamente ela passa, aos poucos, a perceber qual setor de sua vida é mais importante e ao público só resta torcer para que os longo 89 minutos de projeção terminem logo.

Falho no humor, no drama e na construção das personagens, "Não sei como ela consegue" perde a chance de discutir com leveza um tema bastante pertinente na sociedade atual, onde homens e mulheres são obrigados a dividir as obrigações familiares. Como está, é mais um filme que deve fazer a glória de futuras sessões da tarde. E , se não quiser ser lembrada pro resto da vida como atriz de um papel só, é bom Sarah Jessica Parker mudar urgentemente de agente.

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AMORES IMAGINÁRIOS

Posted by Clenio on 22:05 in
"Amores imaginários" é o filme que todo fã de cinema independente que curte comprar em brechós, que ouve Yelle, que encontra no cigarro a válvula de escape para seus males e que pretensamente despreza o cinema comercial americano sempre pediu a Deus. Escrita e dirigida pelo jovem (meros 22 anos) Xavier Dolan, essa comédia romântica foi exibida na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2010 e finalmente chega ao circuito comercial brasileiro, cercada de polêmica: para cada crítica azeda a seu respeito pipocam fãs encantados com o estilo modernoso do cineasta - autor também do cultuado "Eu matei minha mãe", grande sucesso no Festival de Cannes de 2009. É justo, portanto, encontrar um ponto de equilíbrio nesta controvérsia toda. "Amores imaginários" nem é espetacular como fazem crer os convertidos nem tão oco quanto querem provar seus detratores. É um filme leve e quase superficial, sim, que privilegia o visual ao conteúdo. Mas é também delicioso como um croissant quentinho.

A ideia de um triângulo amoroso moderno não é novidade no cinema - que o digam François Truffaut ("Jules e Jim, uma mulher para dois") e Bernardo Bertolucci ("Os sonhadores"), só para citar os mais célebres diretores que investigaram essa modalidade de relacionamento. Em seu filme, o canadense Dolan não faz questão de soar revolucionário ou ousado, preferindo o caminho da sutileza e da delicadeza, deixando ao espectador o prazer de descobrir aos poucos o rumo de sua trama. O próprio cineasta interpreta um dos protagonistas, o jovem homossexual Francis, que se apaixona perdidamente pelo belo, inteligente, sexy e liberal Nicolas (Niels Schneider). O problema é que sua melhor amiga Marie (Monia Chokri) também cai de amores pelo rapaz, e nenhum dos dois sabe exatamente para quais dos dois ele está inclinado a dar seu amor (e SE está interessado nisso): Nicolas os trata com igual atenção e carinho, embaralhando cada vez mais as pistas que levam a seu coração - e à sua cama.

Se peca em não aprofundar a contento a psicologia de suas personagens, Dolan acerta em cheio em tratar seu filme como uma espécie de inventário visual de sua época. É perceptível o cuidado do diretor com cada detalhe de sua mise-en-scène, desde os objetos de cena até o figurino absurdamente antenado com sua ambientação, assim como a bela fotografia e alguns enquadramentos belíssimos que nem mesmo o quase exagero em sequências em câmera lenta conseguem atrapalhar. O olho de Dolan para as pequenas coisas e reações é admirável, assim como seu talento em explorar ao máximo a potencialidade de cada tomada. Não há, em "Amores imaginários", nenhuma cena que não seja minuciosamente preparada por sua visão esteticamente apurada. E foi justamente essa atenção talvez exagerada ao visual  - em detrimento de um desenvolvimento maior dos protagonistas - que incomodou tanta gente.

O que talvez muitos dos críticos não tenham percebido em "Amores imaginários" é a sua absoluta falta de compromisso com o realismo. Dolan trata sua história como uma espécie de sátira a seu próprio universo, onde as pessoas querem se parecer com James Dean e idolatram Audrey Hepburn, frequentam cafés e festas com gente bonita e descolada e transitam em cenários coloridos e absurdamente fotogênicos. A beleza exterior é equilibrada apenas pelas histórias dolorosas/engraçadas/patéticas contadas por outras personagens diretamente para a câmera (um artifício que funcionou em "Harry & Sally, feitos um para o outro" e que volta a ser bastante interessante aqui): são essas personagens sem nome que dão suporte ao roteiro, mostrando ao espectador que amar dói, sim, mas não mata ninguém.

"Amores imaginários" não é, definitivamente, um filme feito para aqueles que consideram o cinema como a arte da reflexão séria e densa. Pode soar raso, sim, e talvez até o seja. Mas todos aqueles que já se apaixonaram entendem perfeitamente as situações pelas quais Francis e Marie passam. E essa empatia, essa compreensão pela dor dos outros - ainda que coberta por um sutil senso de humor - não é qualquer filme que desperta.

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REFÉNS

Posted by Clenio on 13:22 in
Quando Nicole Kidman foi indicada ao Oscar deste ano por seu sensível desempenho em "Reencontrando a felicidade" seus fãs respiraram aliviados. Parecia que finalmente a bela e talentosa australiana estava voltando a encontrar seu caminho em direção a trabalhos mais honestos do que coisas como "A feiticeira", "Invasores" e até mesmo o decepcionante "Austrália". Porém, basta alguns minutos de "Reféns" para que todas as esperanças caiam por terra. É simplesmente inexplicável a presença de uma atriz do porte de Kidman em um filme tão banal e derivativo quanto este.

Dirigido por Joel Schumacher, que não dá uma dentro há quase uma década - seu último trabalho digno de nota foi o pouco visto "O custo da coragem", com Cate Blanchett, de 2003 - "Reféns" foi praticamente escorraçado das telas de cinema americanas, tendo ficado em cartaz por meros dez dias e com uma vergonhosa arrecadação de menos de trinta mil dólares. Tal fracasso pode soar estranho haja visto que, além de Nicole o cartaz também estampa com destaque o nome de Nicolas Cage (também vencedor do Oscar, mas que, apesar dos horrendos filmes que vem cometendo, parece ter um público cativo), mas é simplesmente impossível gostar de tamanho erro. Com cara de Supercine, o suspense escrito por Karl Gajdusek - autor de episódios da série "Dead like me" - não passa de uma sucessão de clichês mal ajambrados que não surpreendem nem ao mais distraído espectador. Nem as supostas reviravoltas da trama conseguem despertar mais do que sono (ou raiva) na plateia.

Para quem não viu o trailer (que conta quase tudo), Cage e Kidman vivem um casal de milionários, pais de uma filha adolescente rebelde (a péssima Liana Liberato, que estava bem melhor em "Confiar", de David Schwimmer) que vê sua mansão invadida por um quarteto que procura milhares de dólares em diamantes. Enquanto tenta sobreviver ao ataque, o casal precisa lidar também com a fragilidade de seu casamento e com uma série de mentiras que surgem no decorrer da noite - inclusive ligado a um dos criminosos, o jovem Jonah (Cam Gigandet, da série "Crepúsculo").

Joel Schumacher, quando quer, consegue ser um bom diretor de suspense - quem viu "Por um fio", com Colin Farrell, sabe do que estou falando. Mas pelo jeito há muito tempo anda no piloto automático. "Reféns" é um dos maiores passos em falso de sua carreira - e isso que estamos falando do homem que quase aniquilou a franquia "Batman" no final dos anos 90. Só serve mesmo pra quem é fã incondicional da bela Nicole ou do canastrão Cage (aqui exercitando a fundo sua veia exagerada). E isso que nem citamos o poster doloroso!!!

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CONTÁGIO

Posted by Clenio on 12:27 in
O elenco é estelar, repleto de nomes vencedores do Oscar. O diretor também já papou sua estatueta - por "Traffic", que já brincava com o estilo Robert Altman de fazer cinema. E a trama por si só já é palpitante o bastante em um mundo tão suscetível a epidemias - e tão facilmente manipulável pela mídia. Portanto, "Contágio", novo trabalho de Steven Soderbergh, é um filme cujos fãs de cinema não podem perder. Além dos créditos recheados de estrelas, da direção segura e do tema interessante, é também uma pequena aula de como contar uma história quase aterrorizante sem precisar assustar ninguém com truques baixos.

"Contágio" não é um filme de suspense, mas não deixa de ser apavorante. Tudo começa quando a bela Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow em participação rápida e crucial) volta de uma viagem a Hong Kong para os braços do marido, Mitch (Matt Damon) e do filho. Junto com ela, porém, veio um vírus mortal, capaz de matar em poucos dias. O vírus, desconhecido pela medicina, começa a fazer uma vítima atrás da outra em várias partes do mundo, o que leva o planeta a um pânico generalizado. Para manter o povo informado, o blogueiro Alan Krumwiede (Jude Law) torna-se persona non grata da indústria farmacêutica e da cena médica, enquanto uma equipe de doutores (Laurence Fishburne, Marion Cottilard, Kate Winslet e Jennifer Ehle) busca maiores detalhes sobre o vírus, com o objetivo de impedir sua disseminação.

A trama de "Contágio" se divide em vários campos, como o cineasta já fez em seu premiado "Traffic", mas dessa vez não existe a preocupação de alertar o público sobre um problema premente, como acontecia com o filme estrelado por Benicio Del Toro e Michael Douglas. Aqui, Soderbergh se concentra em mostrar, de forma quase didática, a evolução de uma tragédia de grandes proporções que pode começar de maneira inocente (como fica claro na sequência final). Para isso, ele conta com rostos conhecidos do grande público em papéis importantes mas relativamente pequenos - e ainda encontra tempo para cenas de grande delicadeza, como o primeiro baile da filha da personagem de Matt Damon, já no final da projeção. São momentos assim que humanizam a história, aproximando a audiência do que é mostrado na tela - sem, no entanto, desvalorizar o aspecto técnico da situação.

No final das contas "Contágio" é um bom filme de um cineasta extremamente competente, mas que não chega a empolgar como poderia. Ainda assim, vale uma conferida, ao menos para prestigiar o elenco extraordinário reunido por Soderbergh.

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A CASA DOS SONHOS

Posted by Clenio on 15:15 in

A primeira pergunta que vem à cabeça dos fãs de cinema no final da projeção de "A casa dos sonhos" é a seguinte: por que diabos Jim Sheridan assinou este filme tão absurdamente distante de seu estilo (e o que é pior, tão assustadoramente aquém de seu talento)? Tudo bem que ele brigou com o estúdio (Morgan Creek) antes do lançamento do filme, assim como os astros Daniel Craig e Rachel Weisz - por discordar da edição final - mas ainda assim a dúvida permanece. Indicado duas vezes ao Oscar - pelos ótimos "Meu pé esquerdo" e "Em nome do pai" - o irlandês Sheridan parece ter cedido de vez às pressões do cinemão comercial hollywoodiano, em um filme que, apesar da premissa interessante (ainda que não exatamente original), não a desenvolve a contento, apresentando, além de tudo, um desfecho derivativo e anticlimático.

Daniel Craig está bastante bem no papel principal, um homem que abandona a editora onde trabalhava para dedicar-se a um livro que pretende escrever (escritores que querem se dedicar à arte são clichê no gênero desde, no mínimo, "O iluminado") e à família, formada pela bela esposa Libby (Rachel Weisz) e por duas adoráveis filhas pequenas. Como sempre acontece em filmes de suspense, porém, a casa que acabaram de comprar tem um passado sangrento: o pai matou a mulher e as filhas a tiros, e a vizinhança parece saber bem mais a respeito do crime do que confessa. Para tranquilizar-se (e a todo o núcleo familiar), o escritor resolve investigar mais a fundo a história e descobre que nem mesmo a vizinha, Ann Patterson (Naomi Watts, perdida no papel) foi totalmente verdadeira em suas declarações a ele.

Contar muito a respeito de "A casa dos sonhos" é tirar dele um de seus poucos trunfos, que é o elemento-surpresa do roteiro (mesmo que o trailer já entregue o ouro descaradamente). Apesar de beber na fonte de outros filmes (que não convém citar pelo mesmo motivo acima), tudo poderia ter sido melhor se Sheridan tivesse conseguido sobressair-se aos executivos do estúdio e mantido o tom inicial da obra, que causa sustos, mas de forma austera e elegante (cortesia também da bela fotografia do veterano Caleb Deschanel). Em sua segunda metade, porém, tudo desanda de forma grotesca, com soluções de roteiro pouco criativas e quase preguiçosas.O final, então - que se pretendia apoteótico - não passa de um amontoado de efeitos pirotécnicos que nada acrescentam à trama.

"A casa dos sonhos" pode até agradar a eventuais frequentadores de cinema que não procuram obras-primas. Mas para os cinéfilos é triste constatar que Jim Sheridan não é mais o mesmo!

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O PALHAÇO

Posted by Clenio on 12:32 in
Em 2008, o ator Selton Mello lançou seu primeiro longa-metragem como diretor, o denso "Feliz natal" (ver crítica aqui: http://blogdofrid.blogspot.com/2008/12/feliz-natalquase-um-trauma-de-infncia.html). Quem achava que o sucesso crítico do filme era apenas sorte de principiante deve ter ficado de boca aberta com esta sua segunda incursão para trás das câmeras: "O palhaço" revela em Selton um cineasta seguro, honesto e principalmente sensível às relações humanas. É simplesmente impossível não encantar-se com essa pequena pérola do cinema nacional.

O jovem Benjamin (vivido pelo próprio Mello) está passando por uma grave crise de identidade. Apresentando-se pelo interior do Brasil (em especial Minas Gerais, terra do ator e diretor) com o circo Esperança - na pele do palhaço Pangaré, ao lado do pai, Puro Sangue (Paulo José, fantástico) e de um trupe de personagens felinnianos - ele sente que não está mais feliz ("quem vai me fazer rir?", ele pergunta melancólico a uma fã com segundas intenções). Sem carteira de identidade, nem CPF e muito menos comprovante de residência, ele sente-se solitário, perdido e desprovido de qualquer real motivação para manter-se na vida artística. Enquanto tenta encontrar um caminho - e sua paixão por ventiladores tanto pode significar a eterna busca circular pelos sonhos, como disse o cineasta, como a ideia da necessidade de um pouco de ar - Benjamin acompanha seus colegas por cidadezinhas tristes, modorrentas e áridas, que remetem ao país retratado na poesia brutal de "Central do Brasil".

Selton Mello acerta em cheio em não deixar-se contaminar totalmente pela tristeza que a história poderia provocar. Enquanto Benjamin se mantém como um anti-herói tragicômico (com ecos de Carlitos), em sua busca quixotesca por uma loja de auto-peças que pode significar seu rompimento com o passado, o elenco coadjuvante faz a festa em sequências de um humor puro, ingênuo e leve como um bom número de palhaços de circo. Moacyr Franco levou o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulínia por sua atuação antológica como um delegado, mas é injusto não citar as participações de Emilio Orciollo Neto, Jorge Loredo (o Zé Bonitinho em pessoa), Fabiana Karla, o sumido Ferrugem e até mesmo de Danton Mello, irmão de Selton, em uma aparição carinhosa.

Aliás, carinho parece ser a palavra-chave de "O palhaço". Nota-se perfeitamente em cada plano, em cada cena, o carinho de Selton por suas personagens, por sua história, por suas influências e principalmente por seus atores, todos extremamente bem dirigidos. Em tom quase anedótico, "O palhaço" é a prova viva de que, apesar da tradicional afirmação de que todo palhaço é triste - e não deixa de ser irônico que Selton, mais conhecido por seus papéis cômicos seja tão emocional em sua carreira de cineasta - fazer rir é não apenas uma vocação. É destino! Bravo, Selton! Que venha o próximo filme.

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A PELE QUE HABITO

Posted by Clenio on 11:08 in
Deve ser difícil ser Pedro Almodóvar. Um dos cineastas europeus mais celebrados das últimas décadas, o espanhol sempre se vê cercado de enormes expectativas em relação a seus projetos, sendo cobrado a realizar uma obra-prima atrás da outra (e o fez, "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela" que o digam). O problema é que nem só de obras-primas vive um cineasta e quando ele entrega aos fãs (e aos detratores) filmes como "Abraços partidos" (que tem momentos espetaculares, diga-se de passagem) todo mundo acha que é "um filme menor". O que talvez essa gente nem perceba é que até mesmo os filmes "menores" de Almodóvar são sensacionais. Uma prova dessa afirmação? "A pele que habito", seu novo longa, foi recebido com certa frieza no Festival de Cannes, apesar do frisson de promover a reunião do diretor com seu antigo colaborador Antonio Banderas. Mas o filme, baseado em um romance de Thierry Jonquet, é uma bela fábula sobre obsessão e vingança (temas tão caros ao cineasta).

Trabalhando pela segunda vez sobre o material alheio - a primeira foi em "Carne trêmula", em que adaptou livremente um romance policial da americana Ruth Rendell - Almodovar realiza, em "A pele que habito", um filme de gênero, ou seja, segue alguns padrões pré-estabelecidos, mas nunca deixa de lado algumas de suas características mais marcantes (a desinibição de mostrar o sexo como ele é, a imprevisibilidade, a opção por personagens complexas, o gosto pelo melodrama). Apesar de não deixar muito espaço para gargalhadas, a trama ainda consegue permitir a ele que enxerte seu tradicional humor negro, mesmo que ele não ocupe (talvez infelizmente) muito tempo. "A pele que habito" é um conto sombrio e talvez justamente este lado negro de Almodóvar é que tenha assustado parte de seus fãs (que deveriam dar uma revisada em "Matador" para lembrar que o diretor nem sempre foi engraçado....)

Como sempre nos filmes do autor de "Mulheres à beira de um ataque de nervos", é difícil resumir a trama - mesmo porque qualquer coisa que seja dita a mais pode estragar as reviravoltas do roteiro - mas o que se pode ser dito sem prejuízo à história é que o protagonista é Robert Ledgard (um Banderas amadurecido e controlado), um famoso e bem-sucedido cirurgião que está no estágio final de uma experiência de criar uma pele humana nova, imune a queimaduras e picadas de inseto, por exemplo. Sua cobaia no experimento é a bela Vera (Elena Ayala), que vive trancada dentro de sua mansão, sendo vigiada pela copeira Marilia (Marisa Paredes, outra habitual parceira do realizador). Quando o filho de Marilia, o foragido Zeca (Roberto Álamo) reaparece, ele traz de volta um trágico passado envolvendo a esposa e a filha de Robert, assim como o do jovem Vicente (Jan Cornet), que se torna vítima da fúria do médico.

É bom chegar ao cinema sem maiores informações sobre "A pele que habito". Como toda a obra de Pedro Almodóvar, é delicioso, é surpreendente, é sensual, é talvez chocante. Mas é, acima de tudo, grande cinema, como somente ele e poucos outros cineastas em atividade conseguem proporcionar.

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DOIS FILMES COM RYAN GOSLING - ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS/HALF NELSON

Posted by Clenio on 15:16 in
Os filmes menos comerciais do ator canadense Ryan Gosling tem uma má sina no Brasil. Quando são lançados (SE são lançados), sempre é com atraso, como aconteceu com o belo "Namorados para sempre" (que sofreu com o título nacional equivocado) e com "Entre segredos e mentiras" (que estreou nos EUA em dezembro do ano passado e só agora aporta por aqui). Caso pior aconteceu com "Half Nelson", que lhe deu uma indicação ao Oscar em 2006 e nunca passou nas telas brazucas, não tendo sido nem mesmo lançado em DVD. Para assistí-lo, somente com insônia o bastante para cruzar com ele na programação da madrugada da TV a cabo. Um dos atores mais intensos e impressionantes de sua geração, Gosling, às vésperas de completar 31 anos, é provavelmente a melhor promessa com que Hollywood acena aos fãs de cinema desde que Edward Norton surgiu em "As duas faces de um crime", em 1996.


ENTRE SEGREDOS E MENTIRAS - Baseado em um rumoroso caso real ocorrido em Nova York em 1982, o filme de Andrew Jarecki tem nas atuações de Gosling e Kirsten Dunst seu maior trunfo. Ele vive David Marks, filho de um empresário do ramo imobiliário nova-iorquino (Frank Langella) que hesita em seguir os passos do pai. Depois de apaixonar-se e casar-se com a bela Katie (vivida com surpreendente maturidade por Dunst), ele começa a demonstrar traços agressivos e complexos de sua personalidade, chegando até mesmo a agredir a esposa. Quando ela desaparece, ele torna-se o principal suspeito, mas até hoje não há provas de sua culpa. O roteiro explora com sutileza o desequilíbrio do protagonista, permitindo ao ator uma interpretação repleta de nuances - mesmo que, em sua reta final tudo se torne extremamente bizarro e quase inverossímil. A mistura entre drama e suspense pode causar estranheza em um primeiro momento, mas o filme se segura lindamente na dupla central de atores, em dias iluminados. Estreou por aqui sem maiores fanfarras, mas merece uma conferida - é um filme consistente e maduro de um cineasta promissor (Jarecki é o diretor do ótimo documentário "Na captura dos Friedman").

HALF NELSON - ENCURRALADOS - Merece um prêmio a criatura que deu o subtítulo de "Encurralados" a este drama difícil e um tanto quanto deprimente dirigido por Ryan Fleck (o título original se refere a um movimento de luta livre). Aqui, Gosling mereceu uma indicação ao Oscar por seu trabalho como Dan Dunne, um professor de história viciado em drogas que vê seu problema descoberto por uma aluna cujo futuro não parece nada alvissareiro (ela vive em um bairro barra-pesada, cercada por traficantes). Os dois ficam amigos e tentam ajudar um ao outro, mas o roteiro foge do convencional e do dramalhão, preferindo um distanciamento que, ao mesmo tempo em que ajuda a manter o tom quase documental, também atrapalha o envolvimento com o protagonista. Ryan mostra que sabe segurar um protagonista como poucos atores de sua geração, sem os exageros ou tiques que uma personagem assim normalmente exige. É um filme um tanto arrastado, mas que vale por seu trabalho acima da média. A indicação ao Oscar foi justa.

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CONTRA O TEMPO

Posted by Clenio on 13:17 in
Duncan Jones é filho do cantor David Bowie. Apesar desse impressionante pedigree, pouca gente além dos fãs de seu famoso progenitor sabia seu nome até 2009, quando ele estreou como cineasta. O filme "Lunar", estrelado por Sam Rockwell, recebeu elogios entusiasmados da crítica e, o que não é nada mal, um BAFTA de melhor diretor britânico estreante. Agora, aos 40 anos, Jones chega ao cinemão hollywoodiano com "Contra o tempo", um filme que, assim como em sua estreia, aposta mais na inteligência do que em um ritmo alucinante. O resultado é mais consistente do que a maioria dos filmes de ação da temporada, mas ainda assim dá a impressão de ter acabado rápido demais.

O filme já começa em plena ação, quando o jovem Colter Stevens (Jake Gylenhaal) acorda, sobressaltado, durante uma viagem de trem. Um tanto perdido, ele estranha o fato de, aparentemente, conhecer a mulher que está à sua frente (Michelle Monaghan), mesmo que não lembre absolutamente nada a seu respeito. As coisas ficam ainda mais confusas quando, ao olhar-se em um espelho, ele vê o reflexo de outro homem e, pior ainda, quando o trem explode. A partir daí, tanto o espectador quanto o protagonista ficam sabendo do que se trata: piloto de helicóptero do exército americano, Stevens foi ferido em combate e escolhido pela força aérea para participar de um projeto chamado "Source Code" - o que significa, basicamente, que ele utilizará o corpo de outro homem para, dentro de um prazo de oito minutos, tentar descobrir quem é o responsável pela explosão do trem. A cada vez que volta à personalidade que é obrigado a assumir, ele descobre mais detalhes sobre a missão.

Contando é confuso. Assistindo, é intrigante. O roteiro de "Contra o tempo" não é exatamente genial, mas a edição vigorosa, o talento de Jones em comandar cenas de ação que escapam do clichê e a atuação de Gylenhaal - alçado ao posto de protagonista depois do morno "O príncipe da Pérsia" - fazem do filme um entretenimento bastante eficaz e a participação dos sempre competentes Vera Farmiga e Jeffrey Wright também colaboram para confirmar o que todo fã de adrenalina no cinema já começam a desconfiar: Duncan Jones é um nome a ser guardado.

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UM CONTO CHINÊS

Posted by Clenio on 11:49 in
Um dos mais prolíficos atores do cinema argentino (e protagonista de alguns de seus maiores sucessos de público e crítica), Ricardo Darín tem uma qualidade rara que o distingue da vasta maioria de seus colegas de profissão: um talento para engrandecer qualquer projeto no qual esteja envolvido. Uma prova dessa afirmação é "Um conto chinês", um drama simpático e leve que tem em sua presença o principal centro de interesse. Felizmente, além do trabalho mais uma vez excelente de Darín, o filme de Sebastián Borensztein apresenta outras qualidades dignas de nota, como um bom humor delicado e um romantismo discreto.

Baseado em inacreditáveis fatos reais, "Um conto chinês" começa com um bizarro acidente, onde o jovem chinês Jun (Ignacio Huang, ótimo) perde a mulher que ama quando uma vaca cai dos céus justamente em cima do barco onde ele está em vias de pedir-lhe em casamento. E é justamente Jun que vai aparecer na vida de Roberto (vivido por um Darín à vontade como sempre), o metódico dono de uma ferragem que herdou do pai e que vive na capital argentina. Sem conseguir compreender nada do que Jun fala, Roberto tenta ajudá-lo a encontrar seu tio, nem sempre contando com a boa-vontade dos órgãos do governo que, em tese, deveriam colaborar com a busca. Dentro do prazo de uma semana estabelecido pelo comerciante para que tudo se resolva, surge entre eles uma inusitada amizade e o sisudo Roberto passa a ver com outros olhos sua relação distante com a apaixonada Mari (Muriel Santa Ana).

O roteiro de "Um conto chinês", co-escrito pelo diretor, não foge muito do clichê - a história do surgimento de uma amizade em situações improváveis não é exatamente original - mas é delicado e honesto, nunca prometendo mais do que pode oferecer, além de alternar o surrealismo da trama central com as histórias inusitadas recortadas dos jornais por Roberto - uma das quais é justamente a tragédia que envolve Jun. Narrados de forma bem-humorada, tais desvios não atrapalham a ação, muito pelo contrário: dão uma leveza ainda maior ao roteiro simples mas não simplório.

"Um conto chinês" é mais uma pequena pérola da cinematografia argentina, que vem se firmando como uma das mais interessantes da América Latina. Vale dar uma espiada.

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MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO

Posted by Clenio on 17:56 in
Primeiro temos que levar em consideração que, se um filme tem como principal atrativo ser uma versão feminina de "Se beber, não case" já não pode ser grande coisa. Depois, basta dar uma olhada no trailer de "Missão madrinha de casamento" para se perceber que esperar demais de uma comédia que apela para o humor grosseiro disfarçado de feminista é uma utopia desesperada. O filme de Paul Feig - que tem no currículo episódios das séries "The office", "30 rock", "Weeds", "Mad men" e "Nurse Jackie" - já rendeu mais de 280 milhões de dólares mundo afora, o que comprova das duas uma: ou o público realmente perdeu o nível de exigência ou está muito carente de filmes menos violentos e menos recheados de efeitos visuais. "Missão madrinha de casamento" não é exatamente ruim, mas é chato e, apesar de negar, bastante apelativo.

A protagonista do filme, Kristen Wiig, é considerada uma das revelações do humor feminino americano, mas se julgarmos por aqui é bom começarmos a rezar fervorosamente. Sem a sutileza de uma Tina Fey, por exemplo - talvez a mais talentosa roteirista de humor em atividade nos EUA - Wiig é simplesmente sem graça e sem muito carisma. Sua personagem, Annie, é uma fracassada absoluta (seu negócio faliu, seus relacionamentos são uma piada e ela divide o apartamento com um casal de irmãos pra lá de bizarros) que recebe a missão de ser a dama de honra do casamento de sua melhor amiga, Lilian (Maya Rudolph). Porém, para ser bem-sucedida, ela precisa rivalizar com uma outra dama-de-honra, a perfeitinha Helen (Rose Byrne). Logicamente, o duelo entre as duas acaba por envolver as demais convidadsas para o altar, que passam por poucas e boas até o dia da festa.

"Missão madrinha de casamento" parece levar a sério sua alcunha de versão feminina de "Se beber, não case": não falta piadas escatológicas, nem humor de baixo nível e nem mesmo uma tentativa pálida de celebrar a amizade entre as mulheres. O problema é que o roteiro não se decide entre ser uma comédia pastelão ou seguir o caminho do romance, quando une Annie ao policial Rhodes (Chris O'Dowd). Esse pé na esquizofrenia atrapalha bem mais do que ajuda, porque tira o foco do principal assunto e não é particularmente interessante - isso sem falar em várias tramas paralelas que começam e não são desenvolvidas a contento.

Dá pra se contar um ou outro momento um pouco mais inspirado em "Missão madrinha de casamento", mas é pouco para tanto barulho. Para quem gosta de humor feminino, "Sex and the city" ainda é- disparado! - a melhor pedida.

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