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BIUTIFUL

Posted by Clenio on 01:20 in
Quem gosta de ir ao cinema e sair da sala de exibição depois de duas horas e meia se sentindo como se tivesse levado uma tijolada não deve perder "Biutiful", novo filme do mexicano Alejandro González Iñarritu. Porém, o público que foge como o diabo da cruz de produções mais densas - mesmo que elas sejam infinitamente melhores do que as bobagens comerciais que infestam os multiplexes da vida - deve passar ao largo do pesado drama do diretor de "Amores brutos", "21 gramas" e "Babel". Indicado em duas categorias do Oscar deste ano - melhor filme estrangeiro e melhor ator - "Biutiful" não é apenas triste e melancólico. É, acima de tudo, um filme que esfrega na cara da audiência um mundo sujo, desesperançado e trágico, mas filmado de maneira tão avassaladora que se torna impossível ignorar.

Centrado principalmente na figura de Javier Bardem em mais uma atuação magistral - que lhe deu o prêmio de melhor ator em Cannes e sua terceira indicação ao Oscar - "Biutiful" mostra uma Espanha caótica, opressiva e feia, distante anos-luz dos cartões postais. O protagonista, Uxbal, não tem absolutamente nada de herói: ele vive de explorar negócios ilícitos - pirataria e sub-empregos para imigrantes chineses - e seu dom de conversar com mortos. Diagnosticado com um câncer terminal, ele precisa resolver seus problemas familiares em menos de dois meses, mas para isso terá que lidar com a esposa bipolar (ótima atuação da atriz Maricel Álvarez) e com os dois filhos pequenos, que vivem em um apartamento apertado e claustrofóbico. Enquanto convive com o medo de ser esquecido pelas crianças, ele também é obrigado a consertar alguns de seus erros mais trágicos, encarnados na figura de Ige (Diaryatou Daff), uma africana cujo marido foi deportado devido a um ato involuntário de Uxbal.

"Biutiful" é o primeiro trabalho de Iñarritu sem seu parceiro de longa data, o roteirista Guillermo Arriaga, e, por mais forte que o filme seja, sua ausência faz falta. O padrão e o estilo do cineasta continuam contundentes mas o roteiro de "Biutiful" carece, em certos momentos, de sutileza. Mesmo que todas as histórias paralelas narradas no longa sejam muito interessantes, elas soam um tanto deslocadas da trama central. A trajetória de Uxbal em direção a seu destino - que ecoa belissimamente a primeira cena - seria o suficiente para emocionar a plateia, e o faz magnificamente, mas em vários momentos desvia a atenção do público do essencial, além de estender desnecessariamente a duração do filme. Felizmente muitas outras qualidades brilham no resultado final, o que minimiza muito seus pecadilhos.

A fotografia do sempre competente Rodrigo Prieto não busca nunca o belo, em uma suprema ironia em relação ao título: os ângulos de Iñarritu são estranhos, desagradáveis, sufocantes, até mesmo feios. A trilha sonora de Gustavo Santaolalla - vencedor do Oscar por "Babel" - comenta a ação sem a intenção de tornar-se exaustivamente imponente, e a edição de Stephen Mirrione - também dono de um Oscar, por "Traffic" - é discreta e eficiente, ligando a primeira e a última cena de maneira tocante e jamais piegas. No entanto, nenhuma qualidade é maior, em "Biutiful", do que o trabalho extraordinário de Javier Bardem.

Não é à toa que Bardem é, hoje em dia, um dos atores estrangeiros mais populares de Hollywood, tendo inclusive a possibilidade de ser o vilão do próximo 007: sem sua atuação gigantesca, era bem provável que "Biutiful" não tivesse a mesma força. Uxbal não é uma personagem carismática, mas o olhar expressivo de Bardem, sua voz sempre no tom exato e a maneira com que domina cada milímetro da tela conquistam o público e elevam o filme a um patamar muito acima do convencional. É o fascinante trabalho de Bardem que faz com que o tom pessimista da história não assuste o público e, pelo contrário, o conquiste acima de qualquer dúvida. "Biutiful" não é um filme para qualquer um, mas é impossível não se deixar atingir por sua força dramática.

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AMOR E OUTRAS DROGAS

Posted by Clenio on 23:26 in
Sexy, engraçado e belamente romântico. Essas talvez sejam as melhores definições para "Amor e outras drogas", que reúne a dupla Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway depois do sofrido "O segredo de Brokeback Mountain". Ambos merecidamente indicados ao Golden Globe deste ano, eles são o principal motivo para que se assista a essa adaptação livre do livro "Hard sell: the evolution of a Viagra salesman", de Jamie Reidy. Belos e talentosos, eles dão vida e humanidade a personagens complexos e convencem plenamente tanto nas cenas mais leves quanto nas (bastante) dramáticas. E, apesar de tratar de um assunto um tanto pesado, o romance de Zwick é agradável o bastante para conquistar qualquer tipo de plateia.

Tendo como pano de fundo a evolução da indústria farmacêutica através de seus representantes de venda, "Amor e outras drogas" começa em 1996, quando o jovem e sedutor Jamie Randall (Gyllenhaal, extremamente à vontade em um papel diferente dos que está acostumado a interpretar) passa a vender remédios para uma grande empresa de medicamentos, tentando convencer médicos a receitar seus produtos. Utilizando de seu grande poder de sedução, ele conquista e descarta as mulheres com a mesma facilidade, até que conhece a bela Maggie Murdock (Hathaway, linda e cada vez melhor atriz). Os dois iniciam uma relação sem compromisso algum, baseada unicamente em sexo caloroso, porque ela também não é chegada a vínculos afetivos, ainda que por uma razão bastante diversa: diagnosticada com o Mal de Parkinson, ela receia depender de outras pessoas ou apaixonar-se. Como ninguém manda no coração, os dois caem de amores um pelo outro e precisam lidar com a ameaça da doença.

Edward Zwick consegue, em "Amor e outras drogas" equilibrar cenas muito divertidas - cortesia de Josh Gad na pele do irmão nerd de Jamie - com outras de partir o coração (e nessas Anne Hathaway demonstra o quão boa ela ainda pode vir a ser). Mas são as cenas quentes entre os dois protagonistas que mais chamam a atenção: desinibidos, Jake e Anne protagonizam algumas das sequências mais excitantes do cinema americano dos últimos anos, ainda que jamais ultrapassem os limites do bom gosto. Tendo plena consciência de que não estava dirigindo um filme erótico, Zwick utiliza tais momentos para deixar claro o que move as personagens em seus primeiros encontros - e quando eles passam a um nível mais emocionalmente intenso de seu relacionamento o próprio filme parece também amadurecer. O belo roteiro não apressa ou forja situações desnecessárias, se deixando levar pelo talento e pelo carisma de seus atores centrais.

Quem gosta de comédias românticas ou aprecia dramas amorosos não pode perder "Amor e outras drogas". É um belo exemplo de cinema moderno sem ser "modernoso" e romântico sem ser "meloso". Uma pequena pérola a ser descoberta e cultuada.

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O TURISTA

Posted by Clenio on 21:36 in
A julgar pelos nomes envolvidos, "O turista" tinha tudo para ser um dos mais memoráveis filmes de ação dos últimos anos. Seu diretor, o alemão Florian Henckel von Donnersmarck tem em casa um Oscar de melhor filme estrangeiro pelo elogiado "A vida dos outros". Seus dois co-roteiristas também tem Oscars em casa - Christopher McQuarrie pelo inesquecível "Os suspeitos" e Julian Fellowes pelo cultuado "Assassinato em Gosford Park". Seus protagonistas, Angelina Jolie e Johnny Depp são dois dos mais respeitados atores do momento e Veneza... bem, Veneza é Veneza e tenho dito. Então, por toda essa conjunção de fatores, era esperado que, além de uma bilheteria polpuda, a refilmagem do francês "Anthony Zimmer, a caçada" fosse também um produto bem acima da média do gênero. Quando se assiste o resultado final, entende-se a frustração de todos. Mesmo que não seja o lixo que muita gente vem apregoando, "O turista" fica muito aquém das expectativas. É divertido, mas longe de ser inesquecível.

A premissa do filme é um tanto duvidosa, mas no final das contas, isso pouco importa no final das contas. Tudo começa em Paris, quando a britânica Elise Clifton-Ward (Angelina Jolie desfilando pelas telas sua beleza deslumbrante e sua classe inegável) recebe uma mensagem por escrito de seu amante, o misterioso Alexander Pearce, lhe dando instruções de como despistar a Scotland Yard (que o está caçando). Seguindo à risca o combinado, ela se aproxima do americano Frank Tupelo (Johnny Depp) no trem que os está levando à Veneza: sua intenção é confundir seus perseguidores, que o querem preso pelo roubo de quase 800 milhões de libras. Sem saber o que está acontecendo, Frank se vê sendo perseguido, ameaçado de morte e, pior ainda, apaixonado pela bela estranha.

A trama de "O turista" parece ser mera desculpa para mostrar belas paisagens italianas e o figurino chique de Jolie. Von Donnersmarck não se decide entre realizar um filme europeu, de ritmo elegante e ângulos inteligentes ou uma aventura tipicamente ianque, com reviravoltas não exatamente surpreendentes e uma preocupação inconsistente em fazer um humor bastante sem graça (e Johnny Depp insiste em ser "exótico", dessa vez fumando um cigarro sem fumaça....) que talvez seja responsável por suas indicações ao Golden Globe na categoria comédia. Essa indecisão custou pontos ao filme: as cenas de ação não empolgam e o desenvolvimento das personagens deixa a desejar. Mas mesmo assim, "O turista" tem algumas qualidades que justificam uma conferida.

A fotografia deslumbrante, a beleza de tirar o fôlego de Angelina Jolie e a qualidade da produção como um todo dão o selo de qualidade necessário para fazer de "O turista" uma diversão inofensiva e agradável. Quem não tiver mais nada pra ver e quiser uma horinha e meia sem preocupações maiores - como roteiro e qualidade dramática - pode encarar com tranquilidade e sair satisfeito. Principalmente se for fã de miss Jolie e Johnny Depp.

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SO UNSEXY

Posted by Clenio on 18:54 in , ,
Perdoem-me os que não são como eu e são felizes mesmo assim, mas eu sou uma pessoa sexual. MUITO sexual. Ainda que concorde que sexo não é tudo em um relacionamento - e que pode ser substituído por carinho, companheirismo e amizade desde que haja a concordância de ambas as partes - sou obrigado a reconhecer que sexo é um fator primordial na minha vida. E quando eu digo sexo não falo necessariamente em penetração, gemidos, suor e a prostração pós-coito (ainda que isso tudo seja algo divino): falo de sexo como elemento de atração entre dois seres, e essa atração pode vir nos momentos mais inoportunos e inesperados. Talvez eu seja uma exceção à regra, mas ainda que logicamente um corpo bonito me desperte lúbricos desejos impróprios para menores de 18 anos o que me excita mais do que tudo é, parafraseando o Pequeno Príncipe, invisível aos olhos. Pra mim, alguém com personalidade própria pode ter barriguinha saliente, ser aparentemente sem graça e até não se encaixar definitivamente nos padrões de beleza que eu relevo. Pra mim, ser sexy é muito mais do que exalar hormônios rua afora.

Pra mim, ser sexy é ser inteligente. É ter um senso de humor refinado. É ter interesse em aprender sempre. É enrubescer ao ouvir um elogio. É sorrir de verdade, não apenas com a boca, mas com o coração. Ser sexy é saber respeitar opiniões contrárias e tentar realmente compreendê-las. É ter educação. É ser agradável mesmo em silêncio. É ter prazer na minha companhia. Pra mim, não há nada mais sexy do que ver a pessoa desejada lendo um bom livro...

É sexy dançar. É sexy comer (dependendo da comida, evidentemente). É sexy tomar banho. É sexy pegar na mão no escurinho do cinema. É sexy dormir de conchinha. É sexy lavar a louça juntos. É sexy ver TV abraçadinho. É sexy até mesmo ouvir uma palestra sem entender nada, se quem está falando é o nada obscuro objeto do desejo. É sexy fantasiar situações. É sexy transar com carinho e romantismo, assim como é absolutamente sexy uma noite de fogo extremo. É sexy ouvir palavras de amor sussurradas e é quente ouvir coisas de chocar Marquês de Sade, quando ditas na hora certa. É sexy um telefonema inesperado no meio do dia, e é sexy um presente dado por nenhum motivo específico. É sexy ser romântico.

Também tenho minhas preferências físicas, não sou um anormal. Acho sexy usar óculos (eu pelo menos fico excitado quando vejo alguém que me interessa usando um par de óculos DECENTE!!!!), mesmo porque acho que as pessoas taxadas como "sem graça" são muito mais interessantes. Considero sexy ter estilo próprio de vestir-se, se isso não chocar o senso estético comum. Eu acho sexy um piercing discreto no lugar certo. Uma tatuagem bem feita. Covinhas. Mãos bem tratadas (mas sem base nas unhas, por favor....) Pernas grossas. Bunda durinha e redondinha. Um pescoço com perfume. Uma voz quente (se tiver sotaque, então, eu subo às nuvens...) E mais sexy do que sexo em si é um beijo bem dado. Uma boa química na hora do beijo já pode dispensar o resto, digam o que quiserem.

E também tenho minha lista de coisas totalmente "não-sexies". Homem ou mulher de croque, homem com base nas unhas, mulher com barriga saliente e piercing no umbigo, estilo exagerado na hora de se vestir, pochete, androginia e cigarro são algumas das características exteriores que me revoltam o estômago. Internamente, burrice, arrogância, cinismo e egoísmo me remetem ao contrário de "ser sexy": gostar de si mesmo é muito sensual, mas achar-se superior a todo mundo é desprezível e frequentemente equivocado. Ser independente, bem resolvido e ter a coragem de lutar pela própria felicidade é ser sexy. And let's do it, let's fall in love...

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O PRIMEIRO QUE DISSE

Posted by Clenio on 23:12 in
O cineasta Ferzan Ozpetek - que nasceu na Turquia mas foi morar na Itália em 1976 para cursar história da arte - tem uma grande simpatia pelo universo homossexual. Depois de seu realista/romântico/carinhoso "Um amor quase perfeito", de 2001 ele surge com mais um filme mais do que simpatizante. Comédia dramática realizada com delicadeza e bom-humor, "O primeiro que disse" é uma pérola que merece ser descoberta por qualquer tipo de público que aprecia uma história bem contada, com personagens interessantes e que não apela, em momento algum, para o vulgar ou piadas forçadas.

A trama concentra-se em Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio), um jovem que retorna à pequena cidade da Itália onde sua família mantém uma fábrica de massas com a intenção de revelar a todos seus três maiores segredos: ele estudou Letras e não Administração de Empresas, sonha em tornar-se escritor e principalmente, é gay e mantém um relacionamento estável com o médico Marco (Carmine Recano). Antes que ele saia do armário, no entanto, seu irmão Antonio (Alessandro Preziosi) toma a iniciativa e assume a sua própria homossexualidade, causando uma crise de saúde em seu pai (Ennio Fantastichini) e uma revolução na família - que inclui uma tia solteirona, uma irmã casada e mãe de duas meninas obesas e uma avó que jamais esquece um romance do passado. Obrigando a manter seu segredo por mais tempo, Tommaso assume os negócios, inicia uma amizade com a bela Alba (Nicole Grimaudo) e tenta manter as aparências que todos esperam que ele mantenha.

É impressionante como as distribuidoras brasileiras adoram destruir os títulos dos filmes de Ozpetek: "A fada ignorante" virou "Um amor quase perfeito" e "A bala perdida" virou esse "O primeiro que disse", um nome absolutamente patético, capaz de assustar o público desavisado. Assim como no filme mais famoso do cineasta, a sutileza do título original se perde em uma "tradução" preguiçosa, que nem de longe atinge todo o alcance do roteiro, que é inteligente, engraçado e sensível. Escapando com maestria do previsível - mesmo quer em determinados momentos seja praticamente impossível de o fazê-lo - Ozpetek criou uma galeria de personagens coadjuvantes que interessam tanto quanto o protagonista, como é de seu feitio. E enquanto fala de assuntos sérios - como a hipocrisia da sociedade - ele o faz com uma fina ironia e cenas muito, muito engraçadas.

O humor de "O primeiro que disse" é irresistível. Quando entram em cena os amigos de Tommaso - que resolvem visitá-lo sem aviso prévio - o filme atinge um senso de comédia extremamente bem-vindo, que contrasta com o tom quase melancólico de algumas das sequências da primeira metade. Mesmo quando brinca com o universo gay, porém, o cineasta o faz com propriedade, nunca ofendendo ninguém e fazendo rir ao mostrar as diferenças entre alternativas formas de vida.  O final, feliz na medida certa satisfaz a audiência sem fazê-la de boba, podendo até mesmo comover os mais sensíveis. E é impossível deixar de elogiar a fluência dos diálogos e o talento dos atores envolvidos.

"O primeiro que disse" merece ser descoberto. É um filme delicioso, leve e alto astral que reitera o talento de Ozpetek como um realizador dos mais importantes dentro de seu estilo.

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