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CAPITÃO PHILLIPS

Posted by Clenio on 22:07 in
Doze anos depois de sua última indicação ao Oscar de melhor ator - pelo filme "Náufrago" - Tom Hanks pode estar a um passo de repetir a sensação de ver seu nome anunciado quando os indicados da Academia forem divulgados. Seu trabalho no filme "Capitão Phillips", dirigido por Paul Greengrass já o garantiu nas listas do Golden Globe e do Screen Actors Guild e somente se houver uma hecatombe essas lembranças não irão se converter em sua 6ª indicação. Melhor que o retorno de Hanks às telas e às cerimônias de premiação em si, porém, é o fato de que todos os elogios que vem recebendo são absolutamente justos. Na pele de um homem preso em uma situação extrema e de grande perigo, o duplamente oscarizado ator apresenta seu melhor desempenho em anos, em um filme dirigido com grande competência - e que também pode ser homenageado com uma indicação ao Oscar.

Uma história real, "Capitão Phillips" se passa em 2009, quando o capitão do título - vivido por um Tom Hanks maduro e tentando deixar de lado sua marcante simpatia - inicia uma viagem com seu Maersk Alabama com o objetivo de levar comida, água e remédios para a população de Mombasa, na Somália. No meio do caminho, porém, o navio é abordado por um grupo de piratas somalianos, que não hesitam em invadir a embarcação para levar dinheiro para seu chefe. Liderados pelo violento Abduwali Muse (Barkhad Abdi), os homens exigem mais do que os marinheiros americanos, o que os leva a um tenso impasse, que resulta na fuga dos criminosos, que levam Phillips como refém.

Dirigido com energia por Greengrass - que tem experiência em filmes de ação, como comprovam os dois últimos capítulos da trilogia Bourne estrelados por Matt Damon e o elogiado "Voo United 93", que lhe deu uma indicação ao Oscar em 2007 - e interpretado com absoluta entrega por um elenco sempre à flor da pele, "Capitão Phillips" surpreendeu nas bilheterias americanas, onde já ultrapassou a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação. Realizado por um modesto orçamento de 55 milhões (levando-se em consideração a presença de Hanks e o detalhismo da produção), o filme também vem colhendo elogios pela atuação de Barkhad Abdi, ator somaliano que, assim como Hanks, também já está no páreo das principais premiações do cinema americano. Estreante, Abdi - que trabalhava como motorista e nunca teve ambições de tornar-se ator - encara Hanks em confrontamentos de grande força dramática e, apesar de demonstrar sua falta de experiência, consegue manter o nível de tensão nas alturas, o que por si já é bastante difícil, principalmente se for levado em conta o fato de que muitas cenas passadas em um bote salva-vidas foram realmente filmadas em uma réplica minúscula.

Quanto à Hanks, pouco precisa ser dito. Um dos mais carismáticos astros do cinema americano em atividade, ele dá a seu Capitão Phillips a medida exata de heroísmo, humanidade e ousadia que fazem com que o papel lhe caiba como uma luva. Em um ano em que também interpreta Walt Disney no ainda inédito "Saving Mr. Banks" - onde atua ao lado de Emma Thompson - ele mostra que fez mais falta do que parecia.

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GRAVIDADE

Posted by Clenio on 19:30 in



Vez ou outra acontece de um filme despertar uma espécie de alucinação coletiva entre crítica e público. Quando isso acontece, filmes comuns - quando não medíocres - são elevados inexplicavelmente à condição de obra-prima sem que tenha armas para isso. Em 2013 esse fenômeno voltou a acontecer com "Gravidade". Primeira ficção científica do cineasta mexicano Alfonso Cuarón, rendeu mais de 100 milhões de dólares somente no mercado americano e vem sendo louvado com um dos melhores filmes do ano, com possibilidades bem reais de estar entre os indicados ao Oscar - haja visto o prêmio da Associação de Críticos de Los Angeles e as generosas indicações ao Golden Globe. O problema é que, a despeito de seus efeitos especiais de última geração e da fotografia extraordinária de Emmanuel Lubezki, "Gravidade" é extremamente chato - cortesia da história rasa e da sempre enfadonha Sandra Bullock.

Bullock -  prejudicada pelo uso de botox e por sua habitual auto-confiança e inexplicavelmente incensada por sua atuação - vive Ryan Stone, uma especialista da NASA que se vê à deriva no espaço, depois que sua nave é destruída pelos resquícios de um satélite russo e ela perde o contato com seus dois colegas, entre eles George Clooney. O filme narra, então, suas tentativas desesperadas de voltar à órbita da Terra, boa parte delas atrapalhada por sua falta de experiência.

O problema de "Gravidade" nem é a sua dependência de se gostar ou não de Sandra Bullock como atriz, ainda que, estando ela em cena 100% do tempo e quase sempre sozinha, seja mandatório que se tenha ao mínimo simpatia por ela. O que atrapalha ao filme de Cuarón é seu roteiro superficial, que não é capaz de aprofundar nem ao menos sua protagonista. De Ryan, por exemplo, sabe-se apenas que perdeu uma filha de quatro anos e não é exatamente uma pessoa feliz. E essa falha torna-se imensa quando se procura algo mais no filme do que belos efeitos visuais, ainda que muita gente tenha tentado encontrar em sua trama frágil metáforas para praticamente qualquer coisa - desde a insignificância do homem diante do universo até implicações políticas que somente uma mente muito criativa consegue explicar.

A questão que fica, portanto, é uma só: vale a pena assistir? Depende. Se você é fã de ficção científica, Sandra Bullock ou efeitos especiais caprichados a resposta é sim: dentro do gênero, o filme de Cuarón é coerente e realista, Bullock oferece tudo aquilo que se espera dela e o visual é deslumbrante. Caso contrário, a única coisa que "Gravidade" irá lhe causar é sono e a sensação de tempo perdido.

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QUEDA LIVRE

Posted by Clenio on 18:57 in
"Queda livre" já chegou ao Brasil com a pecha de "Brokeback Mountain alemão". O que poderia ser uma boa propaganda - afinal o premiado filme de Ang Lee é respeitado e admirado por qualquer bom fã de cinema, independente de sua sexualidade - acaba sendo, no final das contas, um peso. Por que o público iria às salas exibidoras assistir a um filme com uma história já conhecida, afinal? No entanto, à parte esse deslize de marketing - e as inúmeras semelhanças que tem com o filme estrelado por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal - o trabalho do cineasta Stephan Lacant tem suas próprias qualidades e, embora não acrescente muito ao cinema de temática gay, serve para, mais uma vez, levantar questões importantes em um mundo perigosamente à beira de uma hecatombe religiosa.

Enquanto "Brokeback Mountain" tinha como sua maior ousadia localizar seus protagonistas em um mundo notoriamente viril e masculino, "Queda livre" encontra seus personagens também em um ambiente claramente hostil a manifestações homoafetivas: o corpo policial. Marc Borgmann (Hanno Koffler) é um policial com um futuro promissor e que está em vias de tornar-se pai. Morando com a esposa Bettina (Katharina Schuttler) e os pais, ele se surpreende com a força de sua atração por um colega de treinamento, Kay Engel (Max Riemelt), com quem se envolve numa relação passional e romântica. Dividido entre suas duas vidas, ele ainda testemunha o preconceito que circunda os homossexuais em seu meio, sentindo-se incapaz tanto de assumir sua nova condição - e logicamente ter de enfrentar as consequências disso - quanto de levar uma vida normal com a família.

Não há maiores surpresas ou inovações na maneira com que Lacant conta sua história. Assim como acontece nos filmes do gênero, a ligação entre Marc e Kay vai tornando-se cada vez forte, forçando os personagens ao encontro de seus destinos mesmo contra sua vontade. Como normalmente ocorre, é Kay, o bem-resolvido, o catalisador de todas as mudanças e, como de praxe, não existe crescimento sem dor. O roteiro é, ao menos, esperto em fugir do previsível em seu terço final, buscando resolver as situações propostas de maneira realista - ainda que talvez suas escolhas não agradem a todo mundo.

Fotografado com grande competência - em especial nas cenas de amor entre os protagonistas, que prescindem do vulgar mas não do calor - e interpretado com vigor por dois atores entregues sem medo a seus papéis, "Queda livre" não é uma obra-prima do gênero, mas está muitos degraus acima de muitos produtos feitos apenas para chocar.

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SAUDADES

Posted by Clenio on 14:35 in
Saudade. Saudade de tudo. Saudade de mim mesmo. Saudade de dar gargalhadas ao ar livre, enchendo a cara de cerveja ao lado dos meus amigos. Saudade do cheiro das salas de cinema e dos trailers antes de começar o filme. Saudade de sair pra dançar. Saudade de dormir na minha cama, na minha casa, com as minhas coisas me rodeando. Saudade de poder acordar sem gente gritando por perto. Saudade de acordar sem ter que perceber que NADA à minha volta é o que eu quero pra mim. Saudade de não ter que odiar diariamente a quem eu deveria no mínimo respeitar.

Saudade de gostar das coisas. Saudade de ter prazer ao ler um bom livro, ao ouvir uma música nova, ao assistir a um filme. Saudade de sentir coisas. Sentir coisas que não sejam ódio, revolta, tristeza e angústia. Saudade de acordar pensando que as coisas poderiam dar certo. Saudade de dormir porque estou com sono e não porque é a única forma que tenho de fugir de uma vida que eu odeio. Saudade do tempo em que eu acreditava em mim mesmo e achava que conseguiria ser feliz um dia. Um dia. Nunca chegou.

Saudade de gostar do horário de verão. Saudade de me preparar pra balada. Saudade de chegar na balada. Saudade de me divertir. Saudade de ter alegria nas pequenas coisas. Saudade de falar besteira e dar risada - nem me lembro a última vez em que achei graça de alguma piada. Saudade de me empolgar. Saudade de fazer minha própria e comê-la na hora em que me der na telha. Saudade de dormir às seis da manhã e não ficar com sentimento de culpa. Saudade de não ter sentimento de culpa.

Saudade dos meus ensaios de teatro. Saudade de IR ao teatro. Saudade de comprar um livro. Saudade de tomar um sorvete no shopping, sem pensar em mais nada. Saudade de poder ligar pros meus amigos e marcar um encontro pra daqui a duas horas. Saudade de olhar pela janela e ver a minha cidade, e não um inferno desértico e atrasado. Saudade de ter saudades da minha mãe e meus sobrinhos. Saudade de gostar das pessoas e não achar que quase todas são inúteis, medíocres e indubitavelmente chatas.

Saudade de ter esperanças. Saudade de achar que eu era bom em alguma coisa. Saudade do melhor de mim, que está soterrado em algum lugar e sem forças pra se salvar. Saudades daquela parte de mim que achava que o futuro traria luz e felicidade. Não trouxe. Pelo contrário, só trouxe tristeza, decepção, frustração e dor. Saudade de dormir sem a dor de cabeça lancinante que as lágrimas trazem. Saudade de ter vontade de chegar em casa quando estou na rua. Saudade de TER VONTADE de sair pra rua.

Saudade de ser feliz, mesmo sem a consciência da felicidade. Saudade de acreditar em mim. Saudades de proporcionar aos outros um pouco de alegria, ao invés de tanta amargura e fel. Saudades de me encantar. Saudades, saudades, saudades.

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BLING RING, A GANGUE DE HOLLYWOOD

Posted by Clenio on 22:35 in
Em sua ainda curta mas interessante filmografia, a cineasta Sofia Coppola sempre voltou seu interesse mais às pessoas do que aos acontecimentos à sua volta - até mesmo quando elegeu como protagonista a rainha da França Maria Antonieta. Em seu novo trabalho, "Bling ring, a gangue de Hollywood" ela surpreendeu ao optar pelo caminho inverso: o que importa a ela não são os jovens que se tornaram famosos por seu hábito nada saudável de invadir as mansões das celebridades californianas e roubar objetos de luxo. Seu interesse é retratar uma juventude fútil e desprovida de valores, sem deter-se em elocubrações psicológicas para justificar suas ações. A neutralidade de Sofia, que a muitos desagradou e soou como defeito de roteiro, casa com perfeição, porém, em seu desejo de fazer de seu filme não um julgamento moral, mas uma versão em celuloide de um exercício de superficialidade juvenil.

Os protagonistas de "Bling ring" - jovens de classe média alta, sem problemas domésticos e sem maiores ambições senão frequentar baladas caras, usar roupas de grife e postar fotos provocantes em redes sociais - não tem, sob a visão de Coppola, nada que os separe da grande maioria daqueles de sua idade. Nenhum deles é particularmente inteligente e talentoso, ou especialmente belo, e justamente devido a essa mediocridade os objetos furtados das mansões de Paris Hilton e Lindsay Lohan - entre outros menos cotados - são como troféus, mais do que qualquer outra coisa. São as invasões noturnas que fazem deles especiais para os outros e principalmente para eles mesmos. E mesmo que o roteiro não tente investigar a fundo quaisquer razões que os protagonistas possam ter, o filme atinge seu objetivo de - com um visual semidocumental reiterado por entrevistas de suas personagens após o desfecho de suas incursões criminosas - documentar um grupo específico de jovens tão ou mais impactante do que aqueles retratados por Larry Clark em seu "Kids", que nos anos 90 deu o que falar dentro da indústria de cinema e nas rodas de sociológos mundo afora.

Filmado com elegância e frescor, "Bling ring" ainda conta com um elenco dos mais acertados, no qual se destacam a bela Emma Watson (abandonando de vez sua Hermione, da série "Harry Potter") e Israel Broussard, uma revelação que ainda vai muito longe. Pode não ser um filme marcante ou capaz de arrancar prêmios - como a obra-prima da diretora, "Encontros e desencontros" - mas, visto pelo que ele deseja ser e não pelo que o público espera, é mais um belo trabalho de Sofia Coppola.

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