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FERRUGEM E OSSO

Posted by Clenio on 02:53 in
Quando um cineasta acerta em cheio com uma obra, que deslumbra críticos e conquista os fãs de cinema, sempre existe aquele medo silencioso de que o sucesso tenha sido apenas um lapso de genialidade. Certamente era essa dúvida que cercava o francês Jacques Audiard depois do êxito merecido de seu "O profeta" - que levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e chegou a concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. Será que o homem que contou com tanta propriedade a história da formação de um criminoso dentro da cadeia conseguiria se reinventar ou se manteria na zona de conforto, assim como muitos de seus colegas de profissão americanos? Felizmente a primeira opção mostrou-se a correta: "Ferrugem e osso", seu novo filme é, acreditem ou não, uma bela e delicada história de amor que em nada lembra seu filme mais famoso. E melhor ainda, é um filme que acompanha o espectador um bom tempo depois do término da sessão.

Baseado em dois contos do escritor canadense Craig Davidson - cujo protagonista masculino mudou de sexo quando Audiard achou que já tinha homens demais em "O profeta" e quis mudar o foco da trama - "Ferrugem e osso" fala de perdas, de recomeços e da coragem de enfrentar de frente problemas bastante graves sem perder a esperança. O ótimo Matthias Schoenaerts interpreta Ali, que chega à casa de sua irmã acompanhado do filho de cinco anos para recomeçar a vida. Logo que arruma emprego como segurança de uma boate ele conhece a bela Stéphanie (Marion Cottilard, perfeita como sempre), que trabalha como adestradora de baleias em um espetáculo local. Algum tempo depois, eles voltam a se encontrar em circunstâncias bem diferentes: ele está envolvido em lutas de quintal de boxe tailandês para ganhar dinheiro e ela perdeu as duas pernas em um acidente com um dos animais de seu show. Depois de se tornarem amigos eles acabam se envolvendo romanticamente, apesar da resistência dele em assumir compromissos.

Ao contrário dos romances hollywoodianos, onde as personagens enfrentam problemas risíveis ou absolutamente inverossímeis, no filme de Audiard os caminhos que separam e unem Ali e Stéphanie soam reais e dolorosamente próximos da audiência. As cenas de sexo - delicadas e fotografadas com discrição - não buscam excitar o público e sim ilustrar a tristeza e a urgência das personagens e é exemplar o uso da luz solar nos momentos em que Stéphanie consegue sair da escuridão de sua situação para relembrar seus dias de felicidade e plenitude física e a forma como o cineasta conduz a trama sem deixá-la previsível e oca. O terço final do filme - depois que Ali é obrigado mais uma vez a mudar de vida - consegue até mesmo deixar o espectador com o coração na mão, em uma situação apavorante que comprova sem sombra de dúvidas o quanto o roteiro conseguiu driblar as armadilhas propostas pela proposta inicial (que poderia facilmente descambar para o dramalhão) para envolver o público com gente de verdade, com sentimentos muito mais reais do que ele está acostumado a ver no escurinho do cinema. E para isso ele conta também com um elenco formidável.

Se Marion Cottilard mais uma vez dá um banho de coragem e entrega com sua Stéphanie - cuja história trágica jamais busca a compaixão leviana da audiência e que arrancou aplausos entusiasmados no último Festival de Cannes - seu parceiro de cena não fica atrás. Desconhecido no Brasil, Matthias Schoenaerts conquista pela sutileza com que compõe seu Ali, um homem que alterna momentos de extrema ternura com rasgos de uma violência que encontra origem em uma vida difícil e sem maiores espaços para delicadeza. Sempre que os dois contracenam o filme cresce, mostrando o talento de Audiard na direção de atores e sua força em extrair deles atuações gigantescas. É impossível manter-se incólume quando os dois estão juntos e essa talvez seja a maior das várias qualidades de um filme poderoso o bastante para confirmar que um raio pode sim cair duas vezes no mesmo lugar. Jacques Audiard caminha com determinação para tornar-se um dos maiores cineastas franceses de sua geração.

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GONZAGA, DE PAI PRA FILHO

Posted by Clenio on 18:45 in
Primeiro foi "2 filhos de Francisco", em que contava a história de Zezé di Camargo & Luciano. Depois foi a vez de "À beira do caminho", onde utilizava o cancioneiro de Roberto Carlos para ilustrar a trajetória de um caminhoneiro em busca de seu passado. Agora o cineasta Breno Silveira apresenta ao público brasileiro mais um candidato a sucesso afetivo: "Gonzaga, de pai pra filho" ilustra a compliada relação entre o Luiz Gonzaga e seu filho mais velho, o cantor e compositor Gonzaguinha. Mesmo que nos dias de hoje o nome do Rei do Baião não chegue perto da popularidade da dupla sertaneja que protagonizou o primeiro filme de Silveira - o que talvez atrapalhe seus planos de levar multidões às salas de exibição - o tom emotivo impresso pelo diretor, a história humana e brasileira e o impressionante trabalho do ator gaúcho Julio Andrade na pele de Gonzaguinha são motivos mais do que suficientes para uma conferida.

Tudo bem que em diversas ocasiões o roteiro de Patricia Andrade soe como um especial de tv, e que a divisão dos protagonistas em vários atores (três para cada um) acabe sublinhando a irregularidade das interpretações (e justamente o mais fraco de todos, Chambinho do Acordeon é quem fica mais tempo em cena, na pele de Luiz Gonzaga adulto), mas no final das contas o resultado final é de uma felicidade ímpar. Lindamente fotografado pelo argentino Adrian Tejido - que eleva o Nordeste brasileiro como uma personagem de grande importância para a narrativa - e editado de forma a mesclar imagens de arquivo com as cenas do filme, "Gonzaga" mostra mais uma vez que, em termos técnicos, não há motivos para vergonha no cinema nacional. Soma-se a essa qualidade de importância vital uma história emocionalmente forte, personagens carismáticos que estão no imaginário popular desde sempre e uma fórmula testada e aprovada previamente e pronto: mais um belo e comovente trabalho de um cineasta que, se não ousa em temática e estilo, ao menos vem mostrando uma constância e uma coerência admiráveis.

O filme de Breno começa em 1981, quando o cantor Gonzaguinha (já interpretado de forma quase mediúnica por Julio Andrade) está no auge de sua popularidade, sendo capa de revistas nacionalmente conhecidas. Sabendo das dificuldades que seu pai vem passando, ele vai até ele, na pequena cidade de Exu (sertão do Pernambuco) e o encontra negando seus problemas financeiros e de saúde. Depois de algumas discussões a respeito de seus problemas de relacionamento, pai e filho finalmente começam a se entender quando o veterano músico passa a contar a sua história de vida, voltando ao ano de 1929, quando abandonou sua cidade natal depois de se ver impedido de consumar sua paixão pela bela Nazinha (Cecília Dassi), filha de um coronel da região (Domingos Montagner). A partir daí, sua trajetória é contada de forma linear pelo roteiro - voltando ocasionalmente para o "presente". Ao contar uma história que atravessa mais de cinco décadas, é notável a reconstituição de época e o cuidado com o visual e até mesmo com as caracterizações. O que realmente atrapalha um pouco é, conforme afirmado antes, a irregularidade do elenco.

Protagonizado por atores desconhecidos do grande público - e até por músicos sem experiência anterior em cinema - "Gonzaga, de pai pra filho" esbarra inevitavelmente nessa pedra no meio do caminho. Se Julio Andrade entrega uma atuação quase mediúnica de Gonzaguinha, o mesmo não pode ser dito, por exemplo, do novato Chambinho do Acordeon, que tem a maior responsabilidade de todas ao encarar Gonzagão pela maior parte do filme - e passar por sentimentos díspares como amor, tristeza, solidão e entusiasmo. Adélio Lima, que assume a reta final da personagem se sai melhor, talvez por ter um desafio um tanto menor. E o elenco coadjuvante salva o espetáculo de forma magistral. Silvia Buarque e Luciano Quirino estão ótimos como os pais adotivos de Gonzaguinha (e melhores amigos de Luiz em sua chegada ao Rio). Roberta Gualda brilha como Helena (a segunda mulher do pai de "Asa Branca"). E Claudio Jaborandy e Cyria Coentro dão um baile como seus pais, em cenas emocionantes na medida certa. Uma pena que Nanda Costa exagere nas caras e bocas na pele de Odaleia, justamente a mais importante personagem feminina da trama...

Mesmo que não dê a devida importância à obra e música de Gonzaguinha tanto quanto dá a de seu pai - afinal, segundo o diretor o enfoque é a relação paternal entre eles - "Gonzaga, de pai para filho" cumpre boa parte de suas promessas e comove a audiência, proporcionando a ela uma viagem sentimental e musical como pouco se faz no Brasil. Um filme que merece ser visto e apreciado!

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LADY GAGA EM PORTO ALEGRE... EU FUI. E ADOREI!

Posted by Clenio on 17:25 in
"Sou ambiciosa, mas se não fosse tão talentosa como sou ambiciosa, eu seria uma monstruosidade atroz." Essa afirmação, feita para a revista Time de 1985 é de Madonna, certamente a mais bem-sucedida estrela da música pop de todos os tempos. Mas também cai como uma luva em um outro ídolo da música norte-americana que, sintomaticamente, começou a ainda curta carreira bebendo na fonte da Material Girl. Em pouco mais de quatro anos, a nova-iorquina Stefani Joanne Angelina Germanotta pulou do anonimato para a fama absoluta, inundando as pistas de dança com seus hits contagiantes e causando estranheza com seu figurino bizarro, suas polêmicas visuais e - para sorte dos fãs de boa música pop - seu enorme talento musical. Confirmando o que disse Madonna, se junto com todo o festival de bizarrices não viesse também um descomunal talento, hoje em dia Lady Gaga seria apenas um apêndice de pé de página nos compêndios musicais - limbo onde se encontram hoje em dia dezenas de wannabes que não resistiram à potencial efemeridade do sucesso imediato.

Mas o assunto desse post não é fazer um inventário sobre a carreira e a música de Lady Gaga - mesmo porque falta-me conhecimento de causa para isso. Esse texto é apenas para registrar a excelência do show apresentado por Gaga em Porto Alegre, diante de um público relativamente pequeno - apenas 16 mil pessoas. A baixa vendagem dos ingressos pode ser creditada a vários fatores - o show foi divulgado em cima da hora, os ingressos não eram tão baratos assim e o público-alvo já tinha gastado bastante com o show de Madonna (olha ela aí de novo), no próximo dia 09 de dezembro. Mas nada como um bom "cala-te boca". A essa altura os detratores devem estar roendo o cotovelo: não há quem tenha saído do espetáculo - sim, espetáculo é a palavra que melhor define o que foi apresentado - sem estar apaixonado pela Monster.

A superprodução de "Born This Way Ball" é simplesmente impecável. Os bailarinos, as coreografias, o setlist e o clima teatral são absurdamente competentes. Gaga não é apenas uma estrela excêntrica e sim uma cantora de extrema qualidade e carisma. É atenciosa, carinhosa, bem-humorada e gentil - coisas que Madonna, por mais fã que eu seja, não é. Demonstra ser mais humana do que seus vídeos assustadores afirmam. E não deixou nenhum - NENHUM - sucesso de fora do show. Difícil não ficar abismado com a quantidade de hits que a cantora já coleciona em tão pouco tempo de estrada - assim como é emocionante perceber como o discurso de autoaceitação que ela proclama desde sempre acaba sendo o seu diferencial junto a uma parcela do público que nem sempre tem essa mesma autoestima - afirmação essa que encontra respaldo em seu carinho para com os fãs que tem a sorte de subir ao palco e conhecer o camarim da estrela. Mais do que roupas de carne ou polêmicas religiosas/sexuais (que em pouco tempo entram para um museu de grandes novidades), é a forma com que Gaga encara as diferenças - e a devolve transformada em boa música - que faz dela a grande estrela na qual ela vem se transformando. Como ela mesma declara no show, música é feita para falar de paz. E é isso que - a despeito de algumas vozes dissonantes que a encaram como emissária de Satã, para dizer o mínimo (preguiça dessa gente) - ela fez na noite fria de terça-feira em Porto Alegre. Seu show foi divertido, empolgante, visualmente arrebatador e artisticamente inspirador. Madonna é estrela absoluta. Mas o mundo tem - e precisa - de um lugar de honra para Lady Gaga.

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SELVAGENS

Posted by Clenio on 03:16 in
Ausente das telas de cinema desde a recepção polêmica a seu "Wall Street, o dinheiro nunca dorme", de 2010, o cineasta Oliver Stone surpreendeu o público com seu novo projeto. Bem menos ambicioso - mas nem por isso menos controverso - "Selvagens", adaptado de um romance de Don Winslow, mostra um Stone ainda extremamente no domínio da técnica cinematográfica, mas mais preocupado em contar uma história do que exibir seus dotes de polemista. Se isso talvez decepcione os fãs de seu estilo exaltado de comprovar seus pontos de vista radicais por outro lado pode lhe dar créditos junto àqueles que esperam de uma sessão apenas um competente entretenimento. E, falem bem ou mal, é inegável que o vencedor de 2 Oscar - pelos contundentes "Platoon" e "Nascido em 4 de julho"- sabe muito bem como contar uma história.

Aqueles que reclamam da forma como Stone editou seu alucinante "Assassinos por natureza", por exemplo, podem ficar tranquilos: em "Selvagens", o cineasta não exagera no ritmo, preferindo um estilo um tanto menos lisérgico, ainda que, devido a seu tema e seus protagonistas, tal escolha não fosse necessariamente equivocada. Os tais protagonistas são Ben (Aaron Johnson) e Chon (Taylor Kitsch), dois jovens amigos que ganham (muito bem) a vida distribuindo a maconha cuja semente o segundo contrabandeou do Afeganistão e o primeiro desenvolve em laboratório. Bonitos, sarados e ricos, eles também dividem, sem frescura ou ciúmes pequeno-burgueses, o corpo e o amor da bela patricinha O (Blake Lively, da série "Gossip Girl"). Seu idílio na paradisíaca Laguna Beach começa a transformar-se em inferno quando os dois espertinhos resolvem passar a perna na temida Elena (Salma Hayek), chefona do cartel de tráfico de drogas mexicano, que lhes havia oferecido um negócio aparentemente irrecusável. Com sua namorada sequestrada, resta aos rapazes partir pro ataque, mesmo sabendo do perigo que é enfrentar Lado (Benicio Del Toro), braço-direito da traficante.

Deixando de lado sua tendência ao exagero estilístico, Oliver Stone realiza, em "Selvagens", um filme de ação perfeitamente equilibrado entre cenas de grande impacto visual - e de uma violência crua e por vezes bastante cruel - e uma história quase banal. O roteiro - bem acima da média, mas muito aquém do material com que o cineasta costuma trabalhar - assume sem medo sua vocação pop, o que a fotografia colorida e a edição ágil confirmam com ênfase, além do elenco central, fotogênico mas não exatamente genial. Aaron Johnson - que já foi John Lennon em "O garoto de Liverpool" - e Taylor Kitsch - protagonista do hypado "John Carter, entre dois mundos" - convencem como garotões de praia, mas em poucos momentos saem de sua zona de conforto, nem mesmo quando suas personagens enfrentam situações apavorantes. Mas se sua falta de ousadia não chega a incomodar, o mesmo não pode ser dito a respeito de Salma Hayek. Dona do papel crucial da letal Elena, a atriz mexicana mostra toda sua fragilidade dramática ao enfraquecer um papel que, em mãos mais capazes, poderia tornar-se uma vilã antológica. Sua deficiência fica ainda mais patente quando ela atua ao lado de Benicio Del Toro - assustador e sempre brilhante - e na impressionante sequência em que ordena a morte de um suposto traidor (uma cena extremamente violenta e talvez a melhor do filme).

Surpreendentemente normal - em comparação com outras obras geniais de Stone - "Selvagens" ousa ao eleger como seus protagonistas um trio de personagens à margem da sociedade sem nunca tratá-los com condescendência ou julgamentos morais e fazer com que a audiência torça por eles. Também não tem medo de mostrar cenas de sexo bastante quentes (onde os corpos masculinos estão bem mais em evidência do que o feminino) e de dar a John Travolta um de seus melhores papéis em anos (o policial corupto que ajuda os protagonistas). Mesmo que seu final deixe um pouco a desejar - acabasse cinco minutos antes e seria esplêndido - é um filme que dificilmente irá decepcionar aos fãs de entretenimento de qualidade.

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RUBY SPARKS, A NAMORADA PERFEITA

Posted by Clenio on 18:27 in
O que se faz depois que seu filme de estreia faz um estrondoso e inesperado sucesso, conquista público e crítica e sai com dois Oscar debaixo do braço mesmo tendo custado míseros 8 milhões de dólares (o que não paga nem o cabeleireiro de Julia Roberts)? Se seu nome for Jonathan Dayton ou Valerie Faris a resposta é uma só: se espera seis anos por um novo projeto, novamente independente e torce para que a mágica se repita. Diretores do cultuado "Pequena Miss Sunshine" - que em 2006 papou as estatuetas de roteiro original e ator coadjuvante (Alan Arkin)  e rendeu mais de 100 milhões de verdinhas mundo afora - Dayton e Faris, casados e pais de três filhos, demoraram mais de meia década para voltar às telas de cinema. Só que, ao contrário de seu filme anterior, "Ruby Sparks, a namorada perfeita", apesar de bastante interessante, carece do que "Miss Sunshine" tinha de sobra: personagens carismáticas e um ritmo agradável.

O protagonista da trama é Calvin Weir-Fields (Paul Dano), um jovem escritor que, depois do estrondoso sucesso de seu primeiro romance, passou a sofrer de um grave bloqueio criativo. Abandonado pela namorada e pressionado pelo irmão (o ótimo Chris Messina) e o terapeuta (Elliot Gould) a encontrar um novo amor - e por consequência uma nova inspiração - ele cria em um texto fictício uma namorada ideal, a quem dá o nome de Ruby Sparks. Para sua surpresa, essa personagem inexistente se materializa (na pele da roteirista Zoe Kasdan) e os dois iniciam um idílico relacionamento.

Nem sempre é cabível julgar um filme comparando-o com seu antecessor, mas "Ruby Sparks" tem a mesma vibe indie de "Miss Sunshine", ainda que seu objetivo dramático e suas intenções temáticas sejam bem diferentes. Enquanto as idiossincrasias da família Hoover serviam como uma espécie de microcosmo de qualquer núcleo familiar e versavam - de forma irônica, engraçada e carinhosa - sobre a obsessão dos americanos (e por que não dos ocidentais como um todo?) pela perfeição e pelo sucesso, a história de Calvin e Ruby serve para ilustrar temas como a falta de autoestima e a busca incessante (e inglória) pelo amor perfeito. O roteiro de Kazan, no entanto - e vale lembrar que ela é neta do cineasta Elia e filha do roteirista Nicholas - é falho em muitos pontos, não explorando a contento todas as suas possibilidades. A mãe de Calvin, por exemplo, e seu novo marido - atuações simpáticas de Annette Benning e Antonio Banderas - não tem praticamente nenhuma função na trama, dando a impressão de estar ali apenas para passar o tempo. E a própria Zoe Kazan não tem carisma e beleza suficientes para justificar que um homem a crie em sua imaginação, o que enfraquece bastante a premissa central.

Não é que "Ruby Sparks, a namorada perfeita" seja ruim, muito pelo contrário. É uma variação inteligente de "Mais estranho que a ficção" - em que Will Ferrel descobre ser personagem de um livro - misturada com "A rosa púrpura do Cairo" - obra-prima de Woody Allen em que Mia Farrow vê a personagem central de seu filme preferido sair da tela para ficar com ela - e como tal não faz feio. Mas lhe falta uma consistência maior e um roteiro mais forte. Ainda assim, tem qualidades em número suficiente para agradar a quem procura um divertimento menos pesado.

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