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A MAGNIFÍCIA "COLEÇÃO" DE MARISA MONTE

Posted by Clenio on 00:25 in


E lá se vão quase trinta anos desde que a voz suave e ligeiramente rouca da carioca Marisa Monte chegou pela primeira vez ao grande público, graças à inclusão, na trilha sonora da novela “O salvador da pátria”, da bela canção “Bem que se quis”. Descoberta por Nelson Motta enquanto cantava em bares da Itália, Marisa conquistou crítica e ouvintes logo de cara, com um disco onde mostrava toda a extensão de seu talento vocal em regravações que iam de Titãs e Mutantes até Luiz Gonzaga, Candeia e, sofisticação das sofisticações, George e Ira Gershwin. Quase uma dúzia de álbuns depois e consagrada como uma das cantoras mais íntegras do país, com uma inteligente sobriedade na escolha do repertório e um invejável controle da própria carreira (que a previne de lançar coletâneas ou fazer as bisonhas visitas aos programas de televisão nacionais), Marisa presenteou os fãs com um novo trabalho. Apesar do título e da proposta de reunir no mesmo cd gravações que fazem um apanhado de suas características musicais, “Coleção” soa como um álbum novo em folha. E o que é melhor: é uma delícia do início ao fim.

A ideia de “Coleção” é fabulosa, principalmente para os fãs: juntar em um mesmo pacote treze músicas inéditas na discografia da cantora mas já presentes em discos variados. Nem tudo é tão inédito assim (“Alta noite” já consta de “Cor de rosa e carvão”, mas aparece por ser uma versão em parceria com Arnaldo Antunes, seu colega no projeto Tribalistas, e “A primeira pedra”, em que ela divide o vocal com o oscarizado Gustavo Santaolalla, faz parte de “Infinito particular”), mas, entre duetos brilhantes, regravações fascinantes e faixas oriundas de trilhas sonoras de cinema, Marisa desfila sua voz irretocável nos mais variados ritmos. Uma prova de seu ecletismo – a principal característica apontada pela crítica na ocasião de seu surgimento, em 1988 – é misturar, sem prejuízo algum, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Caetano Veloso e a Velha Guarda da Portela com composições próprias, ao lado do já citado Arnaldo Antunes e de Carlinhos Brown. 

A delicadeza de “Coleção” – que já é perceptível no belo projeto gráfico – começa com “Nu com minha música”, de Caetano Veloso, que Marisa canta com Marcelo Amarante (Los Hermanos) e Devendra Banhart e que faz parte do beneficente “Red Hot + Rio 2”. Da primeira edição do programa também foi resgatada uma inusitada versão de “Águas de março” com o norte-americano David Byrne. A partir daí o público é brindado com participações especiais de Julieta Venegas (“Ilusão”), Paulinho da Viola (“Carinhoso”), da portuguesa Cesaria Evora (“É doce morrer no mar”) e da Velha Guarda da Portela (“Volta, meu amor”).

Sem medo de parecer brega, Marisa surpreende com a regravação de “Esqueça” – feita para a trilha sonora do filme “A taça do mundo é nossa!”, do Casseta e Planeta – e arrisca um tango com “Fumando espero”, com o grupo Café de Los Maestros, uma das melhores faixas do disco. É de destacar também “Cama”, do filme “Era uma vez”, em que Marisa brilha em um samba-canção que nada deve aos clássicos do gênero – que, aliás, ela ajudou a revitalizar com um inestimável trabalho de pesquisa que resultou em um documentário e inspirou o sensacional “Universo ao meu redor”, recheado de belos exemplares da categoria. Inteligente e dona de uma técnica excepcional, Marisa comprova, com “Coleção”, que até mesmo quando lança um disco de, digamos assim, “sobras”, ainda é uma das vozes essenciais da música popular brasileira, tão assombrada por subcelebridades cujo talento parece residir somente na sua capacidade de auto-promoção.

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OSCAR 2016 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Posted by Clenio on 22:26 in
E então, como não poderia deixar de ser, a 88ª cerimônia de entrega do Oscar não primou pela imprevisibilidade. Como qualquer um poderia imaginar, o alucinante "Mad Max: estrada da fúria" saiu da festa abarrotado de estatuetas (seis ao todo, fazendo um arrastão na área técnica), Leonardo DiCaprio finalmente quebrou sua maldição pessoal e foi eleito o melhor ator, Brie Larson e Alicia Vikander também confirmaram as expectativas e Alejandro G. Iñárritu tornou-se apenas o terceiro cineasta a levar 2 Oscar consecutivos na história da Academia - para informação, os anteriores foram John Ford (por "As vinhas da ira" e "Como era verde meu vale", em 40/41) e Joseph L. Mankiewicz (por "Quem é o infiel?" e "A malvada", em 49/50). Além disso, vale lembrar que é a terceira vez na sequência que um mexicano leva o prêmio da categoria, já que Alfonso Cuarón garantiu o seu na festa de 2014, com "Gravidade" - e por falar em tricampeonato é admirável o feito do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, o primeiro da história a conquistar tal distinção (Donald Trump deve ter arrancado a peruca...).

Em uma cerimônia marcada pela polêmica da exclusão de atores negros entre os candidatos - tema que foi explorado em diversos trechos do discurso do apresentador Chris Rock e em alguns segmentos com níveis variados de erros e acertos (mostrar através de entrevistas com espectadores negros que a distância entre o discurso e a realidade sobre a igualdade racial nas telas e nas bilheterias ainda é imensa foi muito inteligente) - não houve grandes momentos, o que torna ainda mais intensa a apresentação de Lady Gaga (que cantou sua "Till it happens to you" e levou ao palco várias vítimas de estupro, tema do documentário "The hitting ground"). Aliás, é o segundo ano em que Gaga se destaca na festa, e o fato de ter perdido o Oscar para o chatíssimo tema de "007 contra Spectre" ainda deu vazão a um discurso equivocado do vencedor Sam Smith - que, coitado, se achava o primeiro gay a ganhar um Oscar e se viu soterrado de manifestações contrárias às suas pretensões, inclusive do roteirista Dustin Lance Black (de "Milk, a voz da igualdade").

O documentário "Amy", sobre a cantora Amy Winehouse, foi outro vencedor bastante popular, assim como a animação "Divertida Mente" - que ganhou do brasileiro "O menino e o mundo" - e o mais do que merecido prêmio para o veterano Ennio Morricone, finalmente ganhando, aos 87 anos, sua primeira estatueta, pelo violentíssimo "Os oito odiados", de Quentin Tarantino, um dos filmes subestimados do ano, assim como o belo "Carol" - que não converteu nenhuma de suas seis indicações, ainda que a atuação de Cate Blanchett ponha a da vitoriosa Brie Larson no bolso sem fazer muito esforço. É de se pensar se Larson vai conseguir escapar da maldição do Oscar que já vitimou Hale Berry e Hilary Swank - a julgar por seu próximo trabalho, "Kong: Skull Island", é pouco provável.

Já Leonardo DiCaprio não precisa provar nada pra ninguém há muito tempo, e seu Oscar apenas confirma um talento que ele demonstra desde a adolescência e uma coragem em encarar projetos desafiadores. Seu desempenho em "O regresso" é digno da estatueta, sim, ao contrário dos que dizem o contrário, e foi um dos acertos dos eleitores em um ano cujas injustiças já começaram na hora da divulgação dos indicados - cadê Idris Elba por "Beasts of no nation"? Cadê Todd Haynes como diretor e "Carol" como melhor filme? Cadê Charlize Theron por "Mad Max"? Por que Jennifer Lawrence de novo, e por um filme terrível como "Joy"?. Outro acerto em cheio foi a escolha de Mark Rylance como ator coadjuvante: todos esperavam que Sylvester Stallone sairia com um Oscar nas mãos (mais por sua história do que por seu talento como intérprete, sejamos honestos), mas na última hora prevaleceu o bom senso e o grande Rylance, um dos maiores destaques do excelente "Ponte dos espiões", de Steven Spielberg, lhe passou a perna e fez a alegria dos fãs de cinema de qualidade.

Quanto à vitória (quase) inesperada de "Spotlight, segredos revelados" na categoria principal, vale lembrar que "Crash, no limite" fez quase o mesmo na festa de 2006, roubando de "O segredo de Brokeback Mountain" a estatueta principal mesmo o filme de Ang Lee sendo o favorito (e superior) e tendo já levado os prêmios de roteiro adaptado e diretor. A obra de Tom McCarthy já havia sido premiada por várias associações de críticos e era considerada uma das maiores ameaças a "O regresso", assim como "Mad Max" e "A grande aposta", portanto não chegou a ser uma zebra total e absoluta - ganhou também a láurea de roteiro original e, mesmo sendo apenas o segundo filme da história a ser o grande vencedor mesmo com apenas dois carecas dourados no currículo (o outro é "O maior espetáculo da Terra", de 1956, que ficou com os mesmos dois prêmios), foi um gol de placa da Academia: é um filme forte, elegante, adulto e relevante, além de bem escrito, bem dirigido e com um elenco impecável.

Ainda é cedo para sabermos o que virá para o próximo Oscar - será que a Academia vai tentar reverter a polêmica desse ano? Será que vai abrir a festa para mais blockbusters? Será que John Williams vai arrebatar uma 51ª indicação? Será que Meryl Streep voltará à lista dos candidatos? - mas é certo que daqui a um ano os fãs de cinema estarão de novo discutindo, elocubrando, resmungando e comemorando as vitórias de seus preferidos. É um ritual tão querido quanto desprezado, mas que jamais passa despercebido.

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OSCAR 2016: MELHOR ATOR

Posted by Clenio on 18:21 in
A não ser que aconteça uma hecatombe, Leonardo DiCaprio vai mesmo sair da cerimônia do Oscar 2016, no próximo domingo, com sua batalhada estatueta de melhor ator. Desde que concorreu pela primeira vez, em 1994 - ainda adolescente, como coadjuvante por seu trabalho em "Gilbert Grape, aprendiz de sonhador", ao lado de Johnny Depp - o ídolo juvenil cresceu, encarou desafios constantes como ator, atuou sob os auspícios de cineastas consagrados (Clint Eastwood, Steven Spielberg, Sam Mendes, James Cameron, Christopher Nolan e principalmente Martin Scorsese, com quem travou uma parceria bastante frutífera) e construiu uma carreira sólida e admirável. Foi indicado outras vezes ao Oscar - desta vez como protagonista - por "O aviador" (04), "Diamante de sangue" (06) e "O lobo de Wall Street" (13), mas nunca foi tão favorito como este ano, quando já ganhou o Golden Globe, o prêmio do Sindicato dos Atores (SAG), o Critics Choice Awards e o BAFTA (o Oscar britânico). Seu desempenho em "O regresso", de Alejandro G. Iñárritu (que também é um dos favoritos ao prêmio máximo do ano) é visceral física e psicologicamente, e DiCaprio tem tudo para acabar com sua maldição particular e finalmente sair-se vitorioso na disputa - mesmo porque, a despeito de suas ótimas atuações, os demais candidatos não tem um endosso tão grande por parte das cerimônias de premiação até agora.

O mais interessante dos rivais de DiCaprio é Michael Fassbender - que concorreu há dois anos, como coadjuvante, por "12 anos de escravidão". Indicado por seu desempenho irretocável no papel-título de "Steve Jobs", o ator preferido do cineasta Steve McQueen (que nessa temporada também entregou uma admirável atuação em "Macbeth", ao lado de Marion Cottilard) foi premiado pelos críticos de Los Angeles, mas tem contra si o fato de o filme ter fracassado nas bilheterias e ter dividido opiniões. Mesmo assim, é uma interpretação fascinante, minimalista e dotada de grande força dramática, que merecia melhor sorte - sem falar que Fassbender merecia um Oscar no mínimo desde sua avassaladora aparição em "Fome" (08), que foi ignorada pela Academia. Fato é que Fassbender mais cedo ou mais tarde irá abocanhar uma estatueta - seu talento é grande demais para passar despercebido.

Outro que também já tem prêmios em casa graças a seu trabalho nessa temporada é Matt Damon. Carismático, talentoso e querido por público e crítica, Damon já tem um Oscar em casa - de roteiro, por "Gênio indomável", que ele dividiu com o amigo Ben Affleck - e outras duas indicações anteriores - ator pelo mesmo "Gênio indomável" (97) e coadjuvante por "Invictus" (09). Em "Perdido em Marte" ele se vê abandonado por engano no Planeta Vermelho e é obrigado a manter-se vivo e saudável até que o erro seja percebido pelos colegas da Terra e eles se decidam a socorrê-lo. Damon carrega o filme nas costas, equilibrando sua atuação entre o desespero e o bom-humor - o que justificou sua vitória no Golden Globe como melhor ator em comédia/musical.  O National Board of Review também se encantou com seu desempenho e o elegeu como o melhor do ano. Com essas duas vitórias no currículo, Damon enfrenta DiCaprio sem muitas chances, mas a indicação é mais do que merecida.

Já Eddie Redmayne tem suas chances de vitória diminuídas pelo fato de já ter sido oscarizado ano passado por seu Stephen Hawking em "A teoria de tudo". Em "A garota dinamarquesa" ele está ainda melhor, mais sutil e menos óbvio, mas é pouquíssimo provável que a Academia vá transformá-lo em um novo Tom Hanks, lhe dando duas estatuetas consecutivas. Sua lembrança entre os candidatos é justíssima, mas, além de enfrentar o franco-favoritismo de DiCaprio, ele precisa também lidar com a situação de não ter sido lembrado por nenhum grupo de críticos na temporada pré-Oscar (o que é um forte indicativo de que sua indicação deve ser o máximo a que ele irá chegar este ano).

E, completando a lista dos indicados deste ano, Bryan Cranston arrebata sua primeira indicação em seu primeiro grande papel no cinema, depois do sucesso incontestável na série "Breaking bad". Em "Trumbo: lista negra", ele interpreta o roteirista Dalton Trumbo, que entre as décadas de 40 e 60, se viu impedido de trabalhar em Hollywood graças à sua simpatia pelo comunismo - visto, na época, como alta traição aos EUA. O filme também não chegou a ser um sucesso de bilheteria, e a lembrança de Cranston entre os candidatos é uma merecida homenagem ao personagem (premiado duas vezes com o Oscar mesmo sem poder assinar suas obras) e à interpretação inspirada do ator, normalmente relegado a papéis coadjuvantes e agora, ao que parece, promovido à primeira divisão de Hollywood.

FAVORITO - Leonardo DiCaprio ("O regresso")
TORCIDA - Michael Fassbender ("Steve Jobs")

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TRUMBO: LISTA NEGRA

Posted by Clenio on 20:55 in
Na noite de 24 de março de 1954, a deliciosa comédia romântica "A princesa e o plebeu", estrelada por Audrey Hepburn e Gregory Peck saiu da cerimônia de entrega do Oscar com três estatuetas: figurino em preto-e-branco para a experiente Edith Head, atriz para a novata Hepburn e roteiro original para Ian McLellan Hunter. Nada de excepcional, em um ano em que o drama de guerra "A um passo da eternidade", de Fred Zinnemann foi o grande vencedor em oito categorias. O que ninguém desconfiava - nem o público que assistia ao show pela televisão, nem os profissionais de cinema e nem muito menos o comitê do FBI encarregado de investigar casos de comunismo dentro da indústria do entretenimento americano - era que, na verdade, Hunter não era o verdadeiro autor do roteiro de "A princesa e o plebeu". O real criador daqueles encantadores personagens se chamava Dalton Trumbo, e naquele momento, ele estava proibido de exercer sua profissão por ser considerado uma ameaça ao país - uma proibição que se estendia a outros nove profissionais do cinema e que o fez cumprir também uma pena de dez meses de prisão. Pois é esse personagem - fundamental para entender um dos períodos mais negros de Hollywood - o protagonista de "Trumbo: lista negra", que chegou à lista dos indicados ao Oscar 2016 em uma categoria nada desprezível: melhor ator.

Interpretado por Bryan Cranston - elevado à categoria de astro depois do sucesso inegável da série "Breaking Bad" - Dalton Trumbo chega às telas sob a direção de Jay Roach, um cineasta que equilibra sua carreira entre bobagens divertidas - "Austin Powers" e "Entrando numa fria" - e produções sérias para a televisão americana - "Recontagem" (08)  e "Virada no jogo" (12), que mostram um surpreendente viés político em sua obra. Correto mas pouco criativo, Roach comanda "Trumbo" com discrição quase excessiva, deixando que a história e os personagens falem por si. Não seria uma opção equivocada se o roteiro também não seguisse a mesma linha, quase didática e um tanto fria em relação a seus heróis. Com uma atuação contida e mais cerebral que emocional, Cranston reflete o tom da narrativa, que prende o espectador mas não chega a encantar. É inegável, no entanto, o extremo cuidado com a requintada produção e a escolha certeira de elenco - que inclui Diane Lane, John Goodman e a sempre excelente Helen Mirren, injustamente esnobada pela Academia mesmo depois de ter sido indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante por seu brilhante desempenho como a colunista de fofocas Hedda Hopper - figura conhecidíssima e influente no meio cinematográfico da época e uma das principais responsáveis pela queda do protagonista rumo a seu inferno pessoal.

Mergulhando nos bastidores da Hollywood das décadas de 40 e 50, "Trumbo" aproveita para mostrar também como alguns dos maiores ídolos da época reagiram ao surgimento do Comitê criado pelo Senador Joseph McCarthy com a desculpa de proteger os EUA da ameaça comunista. Diante dos olhos do espectador, John Wayne (David James Elliott) se mostra pouco admirável, Edward G. Robinson (Michael Stuhlbarg) um homem mais afeito aos interesses pessoais do que aos amigos, Louis B. Mayer (Richard Portnow) um covarde suscetível a chantagens e Hedda Hopper uma mulher venenosa e cruel, mais destrutiva com suas colunas nos jornais e nas telas de cinema do que muitos agentes do FBI. Por outro lado, o filme mostra também a coragem de gente como Kirk Douglas (Dean O'Gorman) e Otto Preminger (Christian Berkel) em desafiar as arbitrariedades de uma lei fascista que impedia os grandes talentos de trabalharem e serem reconhecidos por isso - uma situação já mostrada também em "Culpado por suspeita", de Irwin Winkler (estrelado por Robert DeNiro em 1991) e "Boa noite, e boa sorte" (dirigido por George Clooney em 2005) - com quem divide um discurso final de grande inteligência e importância em tempos tão conservadores.

Mesmo que seja um típico caso de história maior do que o filme, "Trumbo: lista negra" é um trabalho extremamente eficiente em retratar sua época e revelar ao grande público a trajetória de um dos grandes autores do cinema hollywoodiano clássico. É um filme elegante, discreto e politicamente importante, que perde pontos apenas por ser excessivamente quadrado em sua narrativa. Um defeito pequeno se comparado às suas várias qualidades.

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OSCAR 2016: MELHOR ATRIZ

Posted by Clenio on 19:08 in ,
A ausência mais sentida entre as candidatas ao Oscar 2016 de melhor atriz foi a de Charlize Theron, que tirou de letra o desafio de comandar um dos filmes mais esperados da temporada e que realizou a proeza de arrecadar horrores pelo mundo inteiro, conquistar a unanimidade da crítica especializada e chegar à seleta lista dos indicados ao prêmio máximo da Academia. "Mad Max: estrada da fúria" deve se contentar com prêmios técnicos, já que nem Theron nem Tom Hardy foram indicados - ok, Hardy está no páreo, mas como coadjuvante, e por outro filme, "O regresso". E os fãs de Theron tiveram que engolir a inclusão de Jennifer Lawrence entre as cinco melhores atrizes do ano segundo a visão dos cada vez mais esquizofrênicos votantes. Conquistando sua quarta indicação em seis anos -  tendo vencido por "O lado bom da vida", em 2013 - Lawrence é uma atriz competente, mas é inegável até mesmo para os fãs mais fiéis que sua atuação em "Joy: o nome do sucesso" não merecia nem o Golden Globe que ela tirou de gente mais competente (Lily Tomlin, Maggie Smith) nem a indicação que ela tirou não só de Theron, mas também de outras atrizes com interpretações bem melhores, como Carey Mulligan ("As sufragistas") e Rooney Mara (que concorre como coadjuvante por "Carol" mas é tão protagonista quanto Cate Blanchett). Mesmo a teoria de que este ano não foi muito favorável a atuações femininas de peso não é suficiente para justificar Lawrence entre as candidatas. É o azarão absoluto da categoria, que, ao que tudo indica, parece mesmo à Brie Larson.

Pouco conhecida do público - fez apenas papéis pequenos em filmes como "Descompensada" (onde vive a irmã da protagonista vivida por Amy Schumer), "Anjos da lei" e "Como não perder essa mulher" (dirigido por Joseph Gordon-Levitt) - Larson já ganhou os prêmios mais significativos da temporada, o que faz de seu caminho ao palco do Oscar muito mais fácil. Eleita a melhor atriz pelos críticos do National Board of Review e vencedora do Golden Globe, do Critics Choice Awards, do BAFTA (o Oscar britânico), e do Screen Actors Guild (o sindicato de atores), ela tem, aos 26 anos, todas as evidências ao seu lado. Seu desempenho como uma jovem sequestrada que tenta criar da melhor maneira possível o filho nascido em seu cativeiro e depois se vê obrigada a reconectar-se com o mundo quando consegue fugir, é emocional e discreto. Competente, sem dúvida, mas o excesso de elogios e prêmios soa como uma espécie de alucinação coletiva que volta e meia toma conta do mundo do cinema. É a favorita absoluta, mas a perenidade de sua atuação só o tempo poderá mostrar.

E se Larson ainda é uma atriz que precisa mostrar se não é apenas a atriz certa na hora certa, o mesmo não pode ser dito de Cate Blanchett. Indicada pela sétima vez - e já vencedora de duas estatuetas, uma como coadjuvante por "O aviador" (04) e outra como protagonista, por "Blue Jasmine" (13) - a australiana de 45 anos desfila charme, beleza e talento pela tela na pele da socialite envolvida em um escandaloso romance lésbico em "Carol", sua segunda colaboração com o cineasta Todd Haynes (a primeira, como Bob Dylan em "Não estou lá", também lhe rendeu uma indicação, como coadjuvante, no mesmo ano em que concorria na categoria principal por "Elizabeth, a era de ouro"). Blanchett é sempre uma atriz riquíssima em nuances e não é diferente na adaptação do romance de Patricia Higshmith, um trabalho nunca aquém de precioso. Infelizmente sua vitória recente por "Blue Jasmine" tira muito suas chances de ganhar de novo - e nem mesmo relegar sua colega de cena Rooney Mara para a categoria de coadjuvante ajuda a mudar o quadro.

A quarta candidata à estatueta de melhor atriz é a veterana Charlotte Rampling, que engrossa a lista das atuações minimalistas que dominaram a categoria este ano. Como uma professora aposentada que passa a questionar seu casamento às vésperas de completar quatro décadas e meia de relação - graças à descoberta de que seu marido ainda não esqueceu seu primeiro amor, cujo corpo desaparecido ressurge como um fantasma - Rampling conquista sua primeira indicação ao Oscar aos 70 anos, e chega respaldada pelos prêmios dos críticos de Los Angeles, Boston, Londres e pela National Society of Film Critics. Não fosse sua declaração de que o boicote ao Oscar devido à ausência de atores negros entre os indicados seria um "racismo aos brancos", a veterana atriz provavelmente teria mais chances de vitória. Depois desse infeliz discurso - já debitado na conta dos tradicionais "fora de contexto" - suas possibilidades de subir ao palco para agradecer o homenzinho dourado estão ainda menores. Uma pena, já que seu desempenho (e sua carreira) são brilhantes.

E finalizando a seleta lista, está uma bela e merecida surpresa: por sua atuação delicada e honesta em "Brooklyn" - onde interpreta uma jovem irlandesa que chega à Nova York depois da II Guerra em busca de uma nova e mais promissora vida - Saoirse Ronan conquistou sua segunda indicação ao Oscar. Em 2008, ela concorreu como coadjuvante pela maldosa Briony Tallis no estupendo "Desejo e reparação" (com apenas 13 anos de idade) e agora mostra que seu talento não era fogo de palha. Com olhos expressivos e a sutileza de uma veterana, Ronan foi eleita a melhor atriz do ano pelos críticos de Nova York e sua vitória seria um alento àqueles que acreditam que o cinema não vive apenas de blockbusters e filmes adotados por grandes estratégias de marketing. Se "Brooklyn" conseguiu uma vaga até mesmo entre os indicados à categoria principal, muito se deve à sua atriz principal, que não precisa de ataques histéricos em cena para mostrar o quão talentosa é.

FAVORITA: Brie Larson, por "O quarto de Jack"
TORCIDA: Cate Blanchett, por "Carol" e Saoirse Ronan, por "Brooklyn"
QUEM NÃO DEVERIA ESTAR AÍ: Jennifer Lawrence, por "Joy: o nome do sucesso"

Quem quiser ler mais sobre os filmes indicados na categoria, é só chegar:

CAROL: http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/01/carol.html
O QUARTO DE JACK: http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/02/o-quarto-de-jack.html
JOY: http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/02/joy-o-nome-do-sucesso.html
45 ANOS:  http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/02/o-quarto-de-jack.html
BROOKLYN:  http://lennysmind.blogspot.com.br/2016/02/brooklyn.html

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