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NAMORADOS PARA SEMPRE

Posted by Clenio on 23:59 in
Michelle Williams foi talvez a indicada ao Oscar de Melhor Atriz deste ano que menos destaque teve na mídia, que concentrou-se na disputa entre Natalie Portman e Annette Bening, no retorno de Nicole Kidman e na revelação de Jennifer Lawrence. Essa espécie de esquecimento, no entanto, é absolutamente injustificada. O trabalho de Williams é precioso, uma pequena obra-prima de delicadeza em um filme independente que merecia melhor sorte nas cerimônias de premiação. "Namorados para sempre" - cujo título original, "Blue Valentine", pra variar, soa bem melhor - é o doloroso retrato do fim de um relacionamento, e como tal, é pungente e sofrido. E Williams encontra em Ryan Gosling o parceiro ideal. Excelente ator, Gosling foi esquecido pelo Oscar, mas merecia ao menos uma indicação, pois é o contraponto perfeito para a interpretação de Michelle. Tanto como rapaz sonhador e talentoso como um homem perdido na mediocridade da própria vida, Gosling dá um show.

O filme do desconhecido Derek Cianfrance machuca o espectador por não poupá-lo da dor pela qual passam os protagonistas, vividos com garra e entrega por Williams e Gosling. Eles interpretam um casal em flagrante crise no relacionamento. Ela, Cynthia, é uma estudante de Medicina esforçada e um tanto desiludida com a vida sem maiores encantos que leva. Ele, Dean, vive de bico em bico, pintando casas de vizinhos e sem maiores ambições na vida a não ser marido e pai. Quando um ex-namorado de Cynthia reaparece em suas vidas - mesmo que efemeramente - eles chegam ao ponto crucial do seu casamento: lembrando de todas as situações que viveu ao lado do marido, Cynthia precisa decidir se leva adiante uma relação notadamente fracassada.

O tom de realismo absoluto imposto pelo roteiro - que incentivou a improvisação dos protagonistas - atinge o nervo sensível de qualquer espectador que já passou por alguma crise no namoro/casamento. Tanto nas belas cenas em que Cynthia e Dean se apaixonam - de uma delicadeza ímpar - quanto nas sequências tensas em que partem para todo tipo de agressão - física, verbal e até mesmo sexual - existe uma verdade rara, dificilmente encontrada em grandes produções comerciais. As cores - e as técnicas de filmagem - com que Ciafrance pinta as idas e vindas do casal também são escolhidas cuidadosamente. O romantismo dos primeiros encontros, onde a vida parecia cor-de-rosa cede espaço à angústia e a dor da percepção inequívoca do fim absoluto através de visuais nitidamente díspares. É importante essa definição clara principalmente porque "Namorados para sempre" é contado alternando as duas épocas - o que, felizmente, funciona aqui às mil maravilhas, explicitando o contraste entre o sonho e a realidade.

"Namorados para sempre" tem cara de filme cult, principalmente por ter tido um orçamento ínfimo - um milhão de dólares - e ter no elenco dois nomes que aparentam ter um futuro brilhante pela frente. Mas mais do que isso, é forte, é triste - é de partir o coração a cena em que Gosling canta para que Williams faça uma apresentação de sapateado nas ruas desertas do Brooklyn - e é uma pequena obra-prima do cinema independente americano. Para ser descoberto e louvado.

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SOBRE MOACYR SCLIAR

Posted by Clenio on 16:30 in ,
Com a morte do escritor Moacyr Scliar, aos 73 anos de idade, o Brasil perdeu um de seus maiores escritores vivos. Ainda que longe da popularidade que sua prosa simples - mas jamais simplória - merecia, o autor de obras fundamentais para a literatura nacional, como "O exército de um homem só", "Mês de cães danados" e mais recentemente "A mulher que escreveu a Bíblia" deixou uma marca indelével junto aos fãs de textos inteligentes e sem falsos eruditismos. Cronista do dia-a-dia, Scliar deixará õrfãos as centenas de leitores de sua coluna no jornal "Zero Hora", onde discutia cinema, literatura e medicina com propriedade e nunca pedantismo ou arrogância. Não lembro, pessoalmente, de ter lido uma linha sequer escrita por ele que fosse desagradável ou deselegante. Era um homem preocupado apenas com coisas realmente pertinentes. E isso é uma qualidade rara nesse mundo tão receptivo a bobagens efêmeras.

Conheci pessoalmente Moacyr Scliar no final da década de 90, quando trabalhava em uma locadora de vídeo. Cliente frequente - e um tanto exigente - ele gostava de filmes europeus, inteligentes, que fugissem da mesmice da indústria hollywoodiana e não raro nos pegávamos em longas conversas sobre bom cinema. Foi ele, lembro-me bem, que me recomendou o sensacional "Spider", de David Cronenberg, segundo ele uma das melhores representações da esquizofrenia realizada no cinema. Em pouco tempo, ele confiava cegamente nas minhas recomendações e chegou a me apelidar de "meu guru"... Não é de ter orgulho ser chamado de guru por um imortal????

A morte de Scliar é um fato triste, que acinzenta um domingo quente. Mas todo mundo que leu "O centauro no jardim" e admirou sua trama fantástica que metaforizava a tolerância perante as diferenças sabe que sua obra - diferentemente de seu corpo físico - será verdadeiramente imortal.

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O DISCURSO DO REI

Posted by Clenio on 22:30 in
Alguns trailers enganam muito e conseguem despertar interesse em um filme ruim. Às vezes, no entanto, um trailer consegue passar exatamente a essência de uma obra. Um exemplo dessa afirmação? "O discurso do rei", grande favorito ao Oscar deste ano. O trailer dá a noção precisa do que é o filme estrelado por Colin Firth: um produto sem criatividade, visualmente feio, repleto de clichês e muito chato. Só mesmo o fato de tratar-se de uma história verdadeira sobre a família real inglesa e com um protagonista com problemas de saúde - elementos sempre caros à Academia - para justificar a chuva de indicações (doze!!!!) e o favoritismo contra filmes muito mais originais e empolgantes, como "A origem" e "Cisne negro".

"O discurso do rei" é um típico filme feito para ganhar Oscar. Tudo nele é absolutamente de acordo com as regras não escritas mas sempre seguidas à risca pelos eleitores da estatueta mais cobiçada do cinema. Estão presentes a história de superação, a reconstituição de época bem cuidada, a trilha sonora grandiloquente, atores respeitados em papéis alegadamente bem escritos e o que é mais importante - e mais desanimador para os fãs de cinema de verdade - uma absoluta falta de ousadia. Tom Hooper, seu diretor, concorre ao Oscar mais pela vontade da Academia de premiar o filme do que por real talento: sua direção é burocrática, quadrada e destituída de ritmo. Talvez o pior defeito de seu trabalho não seja o visual insosso nem a quantidade quase insuportável de clichês de seu roteiro, mas sim a chatice de seus personagens. Por melhores atores que Colin Firth e Geoffrey Rush sejam - e eles o são, sem sombra de dúvida - eles não conseguem salvar o filme de ser um maçante produto pré-fabricado e previsível.

Para quem não sabe, "O discurso do rei" conta a história do Rei George VI (Colin Firth), que assume o trono da Inglaterra no final da década de 30, justamente quando o país está em vias de entrar na II Guerra. Além dos problemas políticos - tratados com quase indiferença pelo roteiro - ele precisa lidar principalmente com sua gagueira crônica, que lhe tira toda e qualquer auto-confiança. Para isso, sua esposa Elizabeth (Helena Bonham-Carter) contrata os serviços de Lionel Logue (Geoffrey Rush), que, através de métodos pouco ortodoxos, irá conduzir o monarca em direção a uma saudável relação consigo mesmo. Obviamente, os dois homens tornam-se grandes amigos. Mais clichê que isso é impossível, e pensar que o roteiro de David Seidler pode tirar a estatueta de "A Origem" é de preocupar qualquer zen-budista.

É inegável que o trabalho de Colin Firth é excepcional - e seus silêncios demonstram mais isso do que as tentativas de sua personagem em falar sem gaguejar. Geoffrey Rush também dá seu costumeiro show particular - ainda que não apresente nenhuma novidade em relação a suas atuações anteriores. Mas o fato mais inexplicável de todos é a indicação de Helena Bonham-Carter ao Oscar de atriz coadjuvante: apesar de ter um talento inquestionável, a sra. Tim Burton não faz nada em cena que justifique sua lembrança pelos membros da Academia.

Enfim, premiar "O discurso do rei" com sua láurea máxima será um retrocesso fenomenal da Academia e a afastará ainda mais a plateia sedenta por filmes mais fortes e marcantes. É um filme que tem tudo para agradar a gerações mais conservadoras mas que não é destinado a fazer história como alguns de seus concorrentes na briga pelo Oscar. "Cisne negro" e "A origem" tem poucas chances, mas "A rede social" ainda pode salvar a noite...

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INVERNO DA ALMA

Posted by Clenio on 18:56 in
Para parecer antenada e consciente de tudo que acontece longe de seus domínios mais comerciais, todo ano a Academia de Hollywood escolhe uma produção independente para adotar e cumular de indicações ao Oscar. O escolhido deste ano é "Inverno da alma", que ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Sundance e foi aplaudido entusiasticamente pela vasta maioria da crítica. Porém, indicado a quatro importantes estatuetas deste ano - filme, atriz, ator coadjuvante e roteiro adaptado - toda essa paixão exarcebada parece um tanto com uma alucinação coletiva. Ainda que tenha algumas qualidades inegáveis, o filme da desconhecida Debra Granik está muito longe de ser a obra-prima que andam apregoando aos quatro ventos.

O maior mérito de "Inverno da alma" - e isso qualquer espectador há de concordar - é seu elenco. Liderados por uma juvenil Jennifer Lawrence, que concorre ao Oscar com poucas chances, os atores escolhidos por Granik são o que há de melhor em um filme de ritmo e desenvolvimento lentos e uma história que, apesar do início promissor, não apresenta maiores surpresas. Lawrence interpreta Ree Dolly, uma adolescente de 17 anos que leva uma vida nada agradável em uma área rural do interior americano: por sua mãe ter sérios problemas de depressão, é ela quem cuida dos irmãos pequenos, dando-lhes a pouca comida que consegue com a ajuda dos vizinhos e amigos. Um dia, ela é procurada pelo xerife da cidade, que lhe dá a péssima notícia: seu pai, um homem sempre às voltas com problemas com a polícia, deu a propriedade onde mora a família como garantia de sua condicional. Desaparecido, ele precisa dar as caras no prazo estabelecido, sob pena de tanto Ree quanto sua mãe e irmãos irem ficar sem um lar. Determinada a encontrar seu progenitor, a garota embarca em uma viagem onde encontra tipos perigosos - quase todos com relações de sangue - e corre sério risco de morrer.

Durante o processo de Ree em direção à verdade sobre o desaparecimento de seu pai, é impossível não lembrar das teias de intrigas e mentiras criadas por David Lynch em sua série televisiva "Twin Peaks", onde nada era o que parecia e as personagens eram bem mais complexas do que davam a entender em uma primeira visão. No filme de Granik, o caminho de Ree é pontuado por mulheres violentas, policiais corruptos, pessoas que tem muito a esconder. Sintomaticamente, uma envelhecida Sheryl Lee (a Laura Palmer em pessoa) dá o ar da graça em uma cena curta mas importante. Desprovida de qualquer glamour - o que combina à perfeição com todo o visual gélido e cinzento do filme - Lee também remete à obra de Lynch, ainda que sem seus elementos bizarros. Aliás, é de se elogiar a estética fria e formal da obra da cineasta: sem buscar o encantador ou o sublime, ela retrata a árida região onde se passa a história com uma sobriedade implacável e honesta.

E honestidade é a palavra-chave em "Inverno da alma". É um filme simples, honesto e realizado com discrição - seu editor Affonso Gonçalves, vale dizer, é brasileiro radicado nos EUA. Não é uma obra espetacular nem mesmo apaixonante, mas é mais verdadeira e honesta do que muita porcaria que faz sucesso por ser adaptado de histórias em quadrinhos. É um filme comum sobre gente de verdade, e como tal, merece ser conferido, ainda que suas indicações ao Oscar - com exceção do trabalho primoroso de John Hawkes - sejam realmente um exagero.

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VIAGENS MUSICAIS COM MEU PAI

Posted by Clenio on 23:29 in
Além de ter me passado o vício da leitura - geneticamente ou não - e ter me dado o nome - que eu ODEIO, diga-se de passagem - meu pai é o maior responsável por uma das características mais marcantes da minha personalidade cultural: meu gosto musical.

Por causa dele eu tive acesso à música clássica, através de uma coleção de discos de vinil meticulosamente encapados pela minha mãe e de vez em quando ouvia Beethoven, Mozart e Bach, ainda que não fosse exatamente um especialista no assunto. Através dele eu conheci os Beatles, uma paixão que se mantém firme e forte - o vinil de "Let it be" foi meu primeiro contato com os quatro rapazes de Liverpool e tinha como ter sido mais auspicioso? Foi meu pai que me apresentou, ainda que não formalmente, a Chico Buarque e Elis Regina. Lembro da ocasião da morte de Elis, e de ter assistido a um especial na TV sem me dar conta do tamanho da perda pela qual o Brasil passava. E Chico... foi meu pai que me levou ao cinema para assistir a "Os saltimbancos trapalhões" e, encantado por Lucinha Lins e aquelas canções tão bacanas, nem de longe imaginava que seu autor era o maior gênio da música nacional e que eu me tornaria um apaixonado incondicional por sua obra.

Mas talvez as maiores lembranças musicais relacionadas a meu pai tem um cenário específico: o carro. As viagens que eu fazia com minha família - normalmente de Camaquã em direção à capital Porto Alegre - ficaram marcadas na minha memória não pelas brigas com meus irmãos no banco de trás e sim pela trilha sonora que saía do toca-fitas (sim, isso aconteceu na era pré-CD). Em especial duas fitas me remetem à infância. A primeira tocava frequentemente e era do nosso Rei Roberto Carlos. Podem achar brega e tal, mas considero Roberto um dos mais importantes e talentosos cantores e compositores brasileiros. Adoro, de verdade, e a fita que ouvíamos - não sei se meus irmãos gostavam tanto quanto eu - era aquela que tinha no repertório "Café da manhã", "Força estranha", e a mais poderosa de todas pra mim, na época: "Lady Laura", que sempre me dava vontade de chorar porque falava de mãe e isso me toca - John Lennon, outro dos meus ídolos, também compôs canções para sua progenitora, o que diz muito sobre minha pessoa.

A segunda fita que tocava e tocava e tocava era a trilha sonora da novela "Água viva", que eu gostava pra caramba - e confesso que gosto até hoje, porque a Som Livre a lançou em CD e eu comprei... Tempo bom em que uma trilha de novela reunia o time que essa reuniu: Maria Bethânia, Simone, Elis, Gal Costa, Gilberto Gil, Angela Ro Ro e João Gilberto cantavam nas duas horas de viagem e eu sabia de cor coisas que nem faziam muito sentido pra uma criança de sete anos de idade: "nosso caso é uma porta entreaberta" não dizia absolutamente nada pra mim. Hoje eu entendo cada sílaba de cada canção... e preferia não entender...

O fato é que MPB é uma das minhas fraquezas. Se hoje eu venero Marisa Monte, Cássia Eller, Chico, Caetano, Bethânia, Vanessa da Mata, Roberta Sá, Maria Rita, Gal, Gi, Vinícius e Gonzaguinha devo a meu pai, que, com seu gosto impecável por música brasileira, me ensinou a separar o joio do trigo.

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