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RÁPIDAS CONSIDERAÇÕES DOMINICAIS

Posted by Clenio on 21:02 in

Hoje aconteceu mais uma sessão da peça "Como dizia o poeta", escrita por mim e interpretada por mim e minha grande amiga Bruna Morelo. Como sempre acontece, muitas risadas da plateia e identificação imediata. Muitos elogios e a vontade de apresentá-la ainda muitas e muitas vezes. Tomara que isso aconteça. É uma energia que vicia.

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Odeio que tentem me analisar, que venham querer me mostrar "o caminho" a seguir. Me deixem em paz! Se acham que estou sendo chato que me deem as costas, mas chega de quererem ser donos da verdade. "A minha vida só eu sei como guiar pois ninguém vai me ouvir se eu chorar." Não admito que se considerem mais cientes do que eu sobre o que se passa no meu corpo e no meu coração.

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Amo, amo e sempre amarei. Tenho culpa se dentre todas as decepcionantes pessoas do mundo encontrei alguém que me dá alegria mesmo estando distante? Meus olhos se enchem de alegria quando vejo aquele sorriso meio tortinho. Meu coração quase pula do peito quando conversamos. Meu corpo arrepia quando sinto aquele cheiro. Somos amigos, e isso me faz feliz. Isso é doença? Então vamos parafrasear Morrisey: "call me pale, call me morbid..."

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Eu até deveria acrescentar vários nomes à minha lista negra, mas é tão menos trabalhoso ignorar...

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Drica Moraes é uma atriz extraordinária, capaz de qualquer papel e só vira capa de revista quando adoece... A imprensa no Brasil é realmente de dar pena.

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SIMPLESMENTE COMPLICADO

Posted by Clenio on 22:07 in

É impressionante como Alec Baldwin conseguiu transformar o que parecia uma carreira acabada em uma bem-sucedida sucessão de prêmios, indicações e elogios da crítica e do público. Desde que foi indicado ao Oscar de coadjuvante por "The cooler", em 2004, o ex-marido de Kim Basinger vem colecionando Golden Globes e troféus afins graças a sua atuação na ótima série "30 Rock". Uma prova de sua boa fase? Ele será um dos apresentadores da cerimônia do Oscar no próximo 07 de março, ao lado de Steve Martin, seu colega na comédia romântica "Simplesmente complicado" (It's complicated). Outra prova? Ele rouba descaradamente a cena de Martin no filme de Nancy Meyers e só não pega o filme e bota no bolso porque quem está a seu lado é Meryl Streep e ainda está pra estrear no cinema alguém que seja capaz disso.

Em "Simplesmente complicado", Baldwin e Streep vivem um ex-casal, divorciado há dez anos e pais de três jovens. Enquanto ele, Jake, seguiu sua vida, casando-se novamente, com uma mulher muitos anos mais nova e mãe de um pirralho insuportável de cinco anos, ela, Jane, tentou recomeçar como pode. Abriu uma confeitaria, tem boas amigas e finalmente está prestes a iniciar uma esperada reforma em sua casa, apesar de ter uma vida romântica e sexual nula. As coisas começam a mudar quando o arquiteto de sua reforma, o também divorciado Adam (Steve Martin) passa a dar sinais de que está interessado nela justamente quando seu ex-marido descobre, do nada, que ainda a ama. Sem saber exatamente o que fazer, Jane, que nutre por Jake sentimentos dúbios de amor e rancor, se entrega a um relacionamento ilícito e secreto com o pai de seus filhos.

Parece sério, e no fundo é. O roteiro de Nancy Meyers toca em assuntos sensíveis - divórcios doloridos, solidão, medo da velhice - mas o faz de maneira tão divertida que é difícil não abrir o coração e dar boas risadas. Assim como o fez divinamente em "Alguém tem que ceder", a diretora conta uma história de amor entre pessoas que fogem dos padrões de juventude e beleza impecável. As cenas de amor entre Meryl Streep e Alec Baldwin não são envoltas em fumaça, filtros de luz e lençóis esvoaçantes e sim, são instrumentos que ela utiliza para contar sua história e provocar gargalhadas saudáveis e legítimas - e não são apenas gargalhadas femininas, como normalmente acontece em filmes assim, "de mulherzinha". A química entre os protagonistas é impecável, o que relega Steve Martin a um surpreendente segundo plano - se bem que, sumido como estava, essa pode ser uma boa oportunidade para ele voltar à ativa.

"Simplesmente complicado" já rendeu mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias americanas, o que comprova que ainda existe espaço para filmes que falam a pessoas normais acima de 18 anos (pelo menos mentalmente acima de 18 anos). Seu sucesso é, também e acima de tudo, merecido. É uma comédia romântica, sim, e não se deve exigir dela muito mais do que ela pode oferecer, mas é inteligente, realmente engraçada - com alguns diálogos especialmente hilários - e interpretada por quem entende de verdade do negócio (o genro de Streep no filme é vivido por John Krasinski, da hilariante série "The office"). Comédia é coisa séria! E que bom que Meryl Streep vem brindando seu fiel público cada vez mais com papéis luminosos ao lado de petardos como "Dúvida".

CONSIDERAÇÕES SOBRE OS TRAILERS:

UM SONHO POSSÍVEL - Segunda vez em dois dias que assisto a esse trailer. É bom que estreie logo senão cansará. Sandra Bullock de perua que encontra uma razão para viver soa muito "filme da semana"... Tomara que eu esteja errado.

ROBIN HOOD - Eu imaginava que seria pior. Mas Russell Crowe está mais magro e lembra os tempos bons de "Gladiador". Mas o visual é muito parecido com todos os pretensamente épicos lançados na esteira do seu sucesso (até o diretor Ridley Scott é o mesmo). No entanto, tem Cate Blanchett no elenco, portanto já estou na fila...

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PRECIOSA

Posted by Clenio on 00:11 in

Confesso que, quando assisti ao trailer de "Preciosa" fiquei meio paralisado de medo que fosse mais um daqueles dramas sensacionalistas e edificantes passados em guetos e que culpava a desigualdade social por todas as mazelas humanas. O nome de Oprah Winfrey nos créditos não me tranquilizava nem um pouco e ter Mariah Carey no elenco apenas aumentava minhas suspeitas. Isso sem falar no trailer em si, que visualmente dava a impressão de mais um daqueles filmes "modernosos" que substituem a trama por uma edição cheia de picotes. Junto a tudo isso, o clima decadente de tristeza, dor, desespero e violência me afastaram o máximo de tempo possível dos cinemas em que ele estreou. Mas, venhamos e convenhamos, é um candidato ao Oscar e é quase uma obrigação para comigo mesmo assistir aos indicados - menos "Avatar". Sendo assim, me arrisquei nos caminhos da depressão e testemunhei alguns dos momentos mais legítimos do cinema nos últimos meses. "Preciosa" é, perdoem-me o trocadilho fácil, precioso.

Tudo bem que o filme de Lee Daniels (indicado ao Oscar de direção) não tenta escapar de todas aquelas características citadas no início do post, mas o faz de maneira honesta, sensível e carinhosa. E, ao fugir do sensacionalismo que parece inerente a um filme desse naipe, ganha em credibilidade e conquista sua plateia - toda ela, indiferente se formada por homens, mulheres, negros ou brancos, ricos ou pobres.

A personagem-título (vivida pela estreante Gabourey Sibide) é talvez uma das protagonistas mais tristes a cruzar as telas nos últimos anos. Aos 16 anos, Preciosa começa o filme grávida pela segunda vez do próprio pai, que a violenta desde criança. Sua filha mais velha tem síndrome de Down e mora com a bisavó, já que a mãe de Preciosa (em uma atuação desconcertante de Mo'nique) a trata literalmente aos pontapés. Semi-analfabeta, muitos e muitos quilos acima do peso e atormentada pelos colegas de bairro, resta a ela apenas fugir de sua realidade através de seus sonhos em ser modelo, ou cantora ou qualquer outra profissão glamorousa que a arranque de seus pesadelos reais. Sua vida começa a mudar quando, expulsa da escola, ela conhece uma professora doce e paciente (Paula Patton), que a ajuda a explorar suas qualidades até então desconhecidas inclusive por ela mesma.

"Preciosa" não é um filme perfeito. Talvez o que mais incomode seja o fato de injetar tanta tragédia na vida de sua personagem principal, o que, mesmo que sendo plenamente possível de acontecer na vida real, dilui um pouco a importância de cada uma delas. Os problemas com a mãe ficam menores diante da situação com a filha doente, que empalidece frente à violência sexual, que diminui de tamanho com a revelação de que seu pai tinha AIDS. É tanta desgraça que em determinado momento a verossimilhança do roteiro chega a ficar em xeque. Ainda bem que o final anestesia o público que ficou quase duas horas assistindo tanto drama.

Mas na verdade o trunfo maior de "Preciosa" é seu elenco. Nem mesmo Mariah Carey como assistente social ou Lenny Kravitz como enfermeiro comprometem o impacto estarrecedor que Gabourey Sibide e principalmente Mo'nique causam nos espectadores, acostumados a atrizes de plástico simulando emoções pasteurizadas. A direção de Lee Daniels é precisa, crua, e sua câmera não evita capturar as performances inspiradas de suas atrizes bem de perto. O clima claustrofóbico de sua fotografia escura e quase palpável oferece à audiência um espetáculo nem um pouco agradável de miséria humana e, em cena, suas duas protagonistas se digladiam não apenas fisicamente mas em termos muito mais dolorosos. Se Gabourey impressiona pela quase passividade de sua personagem frente às tragédias de sua vida, a atuação de Mo'nique é impecável, desde suas cenas como megera indomável até suas inesquecíveis e dramáticas cenas finais. O Oscar de atriz coadjuvante já tem dona.

"Preciosa" não é e nem se pretende um conto de fadas. É uma história forte, forjada a ferro e fogo na alma, dolorosa mas ao mesmo tempo otimista. E é um impulso magistral na carreira de seu promissor diretor.

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PLANTÃO BBB 10

Posted by Clenio on 11:25 in

Não vou ficar aqui defendendo um ou outro participante do BBB mesmo porque provavelmente na Páscoa já não vou me lembrar nem do vencedor que dirá dos outros (com a possível exceção de Cadu). Mas a gente ouve cada coisa da boca dessa gente que não dá pra ficar quieto. A última do Serginho (acho horrível chamar alguém que não conheço nem quero conhecer pelo diminutivo, mas enfim...) foi a seguinte: "Angélica é uma vergonha para as lésbicas do Brasil!" Bom, eu tô andando pra tal da Morango (cuja única coisa boa que fez foi ter batido de frente com o insuportável do Dourado), mas não consigo parar de pensar no seguinte: uma pessoa com o visual da foto acima tem noção de vergonha??? Se ela é a vergonha das lésbicas do Brasil, ele é o que? O orgulho da raça??

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O LOBISOMEM

Posted by Clenio on 00:30 in

Joe Johnston não é Francis Ford Copolla. É preciso ter isso em mente quem se propõe a passar cento e poucos minutos em uma sala de cinema assistindo a "O lobisomem", que Johnston dirigiu baseado nos clássicos dos anos 40. A comparação não é nem um pouco infundada: em 1992, Copolla comandou "Drácula de Bram Stoker", uma estupenda versão da história do Conde vampiro mais famoso da literatura e das telas. Nitidamente inspirado pelo filme de Copolla, o diretor de "Querida, encolhi as crianças", "Jumanji" e "Jurassic Park III" (belo currículo!!) apresenta a seu público uma atmosfera gótica bastante interessante (cortesia de uma competente direção de fotografia de Shelly Johnson), uma trilha sonora com acordes surpreendentesmente similares à bela partitura que Wojciech Kilar criou para o filme de Copolla (composta aqui por Danny Elfman) e o mesmo Anthony Hopkins que viveu um Van Helsing anos-luz mais verossímil do que aquele vivido por Hugh Jackman.

Em "O lobisomem", Hopkins vive John Talbot, um homem solitário e misterioso que vive em uma pequena cidade da Inglaterra no ano de 1891. Depois da estúpida morte do filho caçula, ele recebe a visita do primogênito, o ator de teatro Lawrence Talbot (Benicio del Toro), que, investigando a causa da morte do irmão - que não via há anos, desde o trágico desaparecimento de sua mãe - descobre que ele foi vítima de um lobo. Atacado pelo mesmo animal, ele aos poucos começa a perceber que, nas noites de lua cheia, se transforma em um lobisomem selvagem e violento. Sem saber o que fazer com o monstro que agora vive dentro dele, Lawrence resolve afastar-se da mulher que ama, a bela Gwen (Emily Blunt), que era noiva de seu irmão.

Não há nada de novo em "O lobisomem". Isso poderia jogar a seu favor - sem precisar inventar muito, a história poderia ser contada com mais detalhes, mais cuidado e até mais realismo, mesmo tratando-se de um filme de horror. Mas no caso, é um ponto negativo: há uma óbvia preguiça de desenvolver as personagens, os relacionamentos e até mesmo as cenas de ação. Os efeitos visuais e de maquiagem são muito bem feitos e visualmente o filme é plenamente elogiável. Mas falta alma a "O lobisomem". Não há, no roteiro - cujo co-autor é Andrew Kevin Walker que escreveu o sublime "Seven" - nenhum espaço para subtextos ou investigações psicológicas maiores e até mesmo a cena em que Hopkins enfrenta seu filho dentro de uma cela parece escrita às pressas. De posse de um elenco como o que tem - e que ainda conta com o ótimo Hugo Weaving como um investigador da Scotland Yard - tinha tudo pra se tornar uma releitura definitiva do gênero, assim como "Drácula de Bram Stoker". No entanto, resolveu ser apenas uma sessão da tarde feita com extrema competência técnica. É legal, mas não brilhante. Talvez porque Joe Johnston não seja um Francis Ford Copolla.

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UM OLHAR DO PARAÍSO

Posted by Clenio on 00:06 in

Depois de encher os bolsos de muito, mas muuuuito dinheiro com a trilogia "O Senhor dos Anéis" e a refilmagem de "King Kong", o neozelandês Peter Jackson poderia aparecer com a ideia de filmar a lista telefônica que seria muito bem-vindo por qualquer estúdio que prezasse sua renda. Por isso não deixa de ser um tanto surpreendente que ele tenha escolhido um projeto relativamente modesto para marcar sua volta à direção: baseado em um romance de Alice Sebold chamado "Uma vida interrompida", o filme "Um olhar do paraíso" (The lovely bones) deixa de lado a épica aventura passada na Terra Média e passa muito longe de contar a história de um gorila gigantesco apaixonado por uma humana. É um drama familiar que tem como ingredientes a mais uma dose de suspense e toques de espiritualidade. Receita de sucesso? Talvez, mas a renda do filme no mercado americano (pouco menos de 43 milhões de dólares de arrecadação até semana passada, contra um custo estimado de 65 milhões) não deixa de ser decepcionante para um poster com o nome de Jackson estampado.

Talvez o grande problema de "Um olhar do paraíso" seja a sua indecisão sobre que tom utilizar para contar sua história, razoavelmente interessante. Em dezembro de 1973, a adolescente de 14 anos Susie Salmon (vivida pela ótima Saoirse Ronan, de "Desejo e reparação") é violentamente assassinada por um vizinho (um sinistro Stanley Tucci indicado ao Oscar de coadjuvante), que já tem em seu currículo uma série de crimes violentos contra meninas de sua idade. Presa em uma espécie de limbo (sem desprender-se de todo do campo terreno, como diriam os espíritas) ela continua vendo sua família, que batalha para manter-se sã. O pai (Mark Whalberg substituindo Ryan Gosling de forma bastante convincente) busca ajudar a polícia a resolver o homicídio; a mãe (Rachel Weisz) se desliga emocionalmente de todos; e a avó (Susan Sarandon em papel pequeno mas importante) tenta manter todos unidos. De onde está, a jovem Susan não apenas assiste à dor de sua família mas resolve também colaborar com a prisão de seu assassino.

É esse perfil um tanto esquizofrênico que atrapalha "Um olhar do paraíso". Peter Jackson não sabe se descreve a vida de uma família destroçada por uma tragédia, se conta a trajetória de uma jovem rumo à sua evolução espiritual ou se concentra sua trama na busca pela justiça. Normalmente as três vertentes funcionam, mas separadamente. Não parece haver uma unidade entre os pontos de vista do roteiro, o que impede que o público se emocione a contento, ou até mesmo torçam pela vitória do bem contra o mal, que, a grosso modo, é a raiz da trama.

Do jeito que chegou à tela - com direito a efeitos visuais pra lá de cafonas - "Um olhar do paraíso" parece mais um livro de auto-ajuda espírita do que um drama edificante: as linhas finais de seu roteiro soam até mesmo forçadas. Tem alguns momentos bastante eficientes (a sequência da morte da personagem principal é um belo exemplo) mas do homem que legou ao mundo o extraordinário "Almas gêmeas" não deixa de ser um bolo com muito glacê e pouco recheio.

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WILLKOMMEN

Posted by Clenio on 17:11 in

Dizem por aí que amigo não se escolhe, que aparece e entra na vida da gente sem pedir licença. Eu concordo em parte com essa afirmação. Tudo bem que certas pessoas chegam e ficam, tomando posse do nosso carinho e da nossa admiração. Mas dizer que não os escolhemos é uma falácia sem tamanho. Pode até ser que não seja um ato consciente, mas nossos amigos somos nós que escolhemos, sim, e se não fosse por mais nada, o é pelo fato de que nossos amigos são um reflexo de nós mesmos. Na maior parte das vezes, melhorados.

Quem não tem um amigo mais bonito? Ou um mais inteligente? Ou um mais culto? Ou um que consegue superar uma separação sem choro nem ranger de dentes? Quem não tem um amigo que é mais engraçado, ou mais sexy, ou mais solidário? Buscamos em nossos amigos a perfeição que não temos, mesmo que essa perfeição seja vista apenas por nós. Todos nós queremos ser um pouquinho mais como nossos amigos. Queremos ter o carisma de fulano, a juventude de beltrano, a criatividade de sicrano. E as temos, mesmo que indiretamente, afinal, nossos amigos nos completam, são a parte que falta no imperfeito mosaico de almas que somos.

Tudo isso, no entanto, é apenas para falar o que realmente é o assunto desse post. Um encontro que nasceu do nada, com conversas quase superficiais sobre literatura e que vem aos poucos parecendo o início de uma bela amizade. Sim, Ricardo, esse post é sobre você, sobre como admiro a tua maturidade quase incoerente com a tua pouca idade. Sobre como gosto de conversar contigo, sobre como é interessante trocar ideias contigo, mesmo que entre nós haja um abismo de quase duas décadas (mas não precisa espalhar...). É muito bom que você consiga entender as citações mais antigas das minhas peças (e você assistiu às duas, muito obrigado), que você saiba rir de algumas das mais retardadas piadas que faço e ainda entre no embalo ("O afro-descendentezinho do Pastoreio" foi uma pérola sua e duvido que você lembra das circunstâncias em que ela surgiu).

Muito bom dizer que, mais do que um cliente, você é alguém que considero um grande amigo. E sabe como eu descobri isso? Pode soar meio gay (ou como diz um amigo, "meiguei"), mas foda-se (atenção: primeiro palavrão do blog, será que devo considerar isto como conteúdo impróprio??). Descobri que te considero um amigão porque você voltou da Alemanha e te ver e conversar contigo, ainda que rapidamente, transformou meu humor... O que estava negro (ou seria afro-descendente?)de repente tornou-se mais claro e lembrei de que existem pessoas no mundo que fazem diferença. Obrigado por ser tão legal, por ser tão melhor que muita gente, por ser meu amigo. E obrigado por ter voltado... O pessoal daqui precisa mais de você do que die Deutschen...

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ONE

Posted by Clenio on 12:11 in ,

Então, no momento mais difícil da sua vida você olha pro telefone celular e pensa em ligar para algum amigo. Na lista de contatos dezenas de nomes e números, muitos deles sem ao mesmo um rosto. Estão lá seus familiares, seus parceiros de festa, seus casos amorosos de uma noite apenas, seus colegas de trabalho, até mesmo sua terapeuta. Mas você não quer incomodar os outros com seus problemas - imensuráveis pra você, insignificante pra eles. E você desliga o celular. E chora.

Secando as lágrimas, você liga o computador. Orkut. Centenas de "amigos". Facebook. Dezenas de "amigos". MSN. Centenas de "amigos". Ninguém on-line, já são mais de quatro da manhã. E vai dizer o que para essas pessoas que mal conhece? Vai derramar sobre semi-desconhecidos sua mágoa a respeito do mundo e de você mesmo? Será que palavras digitadas em um teclado, com abreviações equivocadas e linguagem pobre terão a força de se fazer entender em toda a sua extensão? Você desliga o computador. E chora.

E, como uma epifania, você tem a mais nítida noção de sua vida: você é uma pessoa solitária. Não só você, mas todo mundo. Mesmo quem vive cercado de pessoas, com fobia de silêncio, mesmo quem vive em uma constante festa, não passa de um ser solitário. E isso por uma única razão: nos momentos cruciais de sua vida só mesmo você sabe o que está acontecendo dentro do seu coração, dentro da sua cabeça, dentro do seu corpo. Você pode estar em uma multidão, em um show de rock, em uma peça de teatro e ter as mesmas reações de todas as outras pessoas da plateia. Mas dentro de você o que está acontecendo não é passível de ser dividido. Você está só!

Você pode estar feliz, triste, orgulhoso, emocionado, apavorado, excitado, cansado... todo mundo sente isso, mas não com você. Cada um sente isso a seu modo, do seu próprio jeito, de acordo com as respectivas cargas emocionais, culturais, comportamentais. Você está sozinho. Você reage emocionalmente de maneira diferente de quem está ao seu lado, mesmo que estejam passando pelas mesmas situações. Você pode chorar no escuro do cinema, mas será que suas lágrimas tem a mesma razão que as lágrimas da senhora de óculos grossos a duas fileiras da sua? Você pode sufocar de saudade de quem amou e foi embora, mas tem certeza que essa angústia é pelos mesmos motivos que fazem sua melhor amiga sofrer em silêncio no escuro de seu quarto?

A dor é solitária. O prazer é particular. O medo é específico. O amor, mesmo que digam o contrário, é só. Somos sozinhos quando nascemos. Somos sozinhos quando sofremos. E seremos sozinhos na hora de nossa morte. Há quem consiga lidar bem com isso e há pessoas que ficam em pânico só de imaginar. Mas se só sou, me deixem só. A solidão me mostrará um caminho que só eu saberei seguir.

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ORGULHOSA DEMAIS, FRÁGIL DEMAIS

Posted by Clenio on 17:52 in


Era uma vez uma menina descendente de gregos acima do peso, desengonçada, com a pele cheia de espinhas e que vivia como a sombra da irmã mais velha e mais bonita. Apesar de ser a preferida do pai, era constantemente humilhada pela mãe, ambiciosa e cruel. Um belo dia, no entanto, sua mãe descobriu que a garotinha tinha um talento a ser explorado: uma belíssima voz, capaz de entoar as mais sensacionais árias de óperas internacionais. Disposta a ganhar dinheiro com a garganta da menina, ela deixa o marido em Nova York e vai para a Grécia, onde, depois de muito trabalho e sacrifícios, a gordinha sem graça transmuta-se em uma diva, cantando e encantando milhares de pessoas.

Pode parecer um conto de fadas mas o que foi descrito acima é uma história real, ou pelo menos a primeira parte de uma história real. A grega acima do peso que virou diva da ópera é ninguém menos que Maria Callas, a mais festejada - com razão, diga-se de passagem - cantora lírica da história. E o livro "Orgulhosa demais, frágil demais" (Ed. Record) conta, em forma de romance, não só sua trajetória rumo ao sucesso e a unanimidade mundial mas principalmente sua derrocada pessoal, causada justamente pelo sentimento que ela cantava melhor do que ninguém: o amor.

Já famosa, já sendo A Callas, Maria apaixonou-se (de verdade, de ficar de quatro) pelo armador grego Aristóteles Onassis, com idade para ser seu pai, nem um pouco atraente, de modos rudes e sem maiores instruções. Por amor a ele, sujeitou-se a humilhações impensadas, praticamente abandonou a carreira, foi obrigada a enterrar o filho natimorto em um cemitério de subúrbio sem registrar com o nome do pai e testemunhou o casamento de seu grande amor (que nunca havia falado em casamento com ela) com Jacqueline Kennedy.

Sem sombra de dúvida, a história de Maria Callas pedia um bom livro. A biografia escrita por Arianna Stassinopoulos Hutchinson, editada pela Cia das Letras, está esgotada e analisava, como o subtítulo já anunciava, "a mulher por trás do mito", fugindo do sensacionalismo que uma vida como a da divina Callas parece clamar. O livro do jornalista e escritor Alfonso Signorini, no entanto, conta a história por outro viés. Através do acesso a cartas e documentos inéditos, ele narra o caminho da cantora pela vida em forma de ficção, com diálogos inventados para preencher lacunas e uma escrita simplista e nunca empolgante. Em alguns momentos, tem-se a impressão de que "Orgulhosa demais, frágil demais" é um romance de Sidney Sheldon, tamanho o constrangimento de ler coisas como "apertou com toda a força o travesseiro que estava embaixo dos seus rins, impeliu a bacia, facilitando a penetração, e gritou. O primeiro orgasmo de sua vida."

Para se ter acesso a uma das mais fascinantes vidas do século passado vale a pena ler "Orgulhosa demais, frágil demais." Mas a divina Callas merecia coisa muito melhor.

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SOLIDÃO

Posted by Clenio on 01:30 in

"I declare a moratorium on things relationship
I declare a respite from the toils of liaison
I do need a breather from the flavors of entanglement
I declare a full time out from all things commitment" (Alanis, sempre sábia)


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Sufocando de tristeza e solidão. Quero chorar mas nem lágrimas pareço mais ter. Será que não existe um lugar para aqueles que querem simplesmente sumir?

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Se fico em casa, acho que queria estar na rua. Se estivesse na rua certamente quereria o sossego do meu lar. Dá-lhe bipolaridade.

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Questões do dia: as pessoas não cansam de ser decepcionantes? Será que o torpedo chegou ao destino? Será que essa fase vai demorar a passar???

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IDAS E VINDAS DO AMOR

Posted by Clenio on 22:35 in

Em 1990, o cineasta Garry Marshall transformou uma prostituta em Cinderela e alçou Julia Roberts ao status de mega-estrela com o filme "Uma linda mulher". E Roberts, hoje a atriz mais bem paga do planeta Hollywood, devolve o favor a Marshall, aparecendo em poucos minutos em seu filme mais recente, a comédia romântica "Idas e vindas do amor" ("Valentine's day" no original, em mais uma prova da criatividade das distribuidoras brasileiras em estragar títulos alheios). Seguindo a linha de filmes como "Nova York, te amo" e "Ele não está tão a fim de você", o filme acompanha cerca de meia dúzia de histórias de amor (nenhuma delas muito profunda, como convém ao gênero) que acontecem no Dia dos Namorados americano (14 de fevereiro). Analisando como diversão, o filme é uma delícia: um elenco de astros fotogênicos, cenários ensolarados, alguns diálogos bastante engraçados e um romantismo desbragado apropriado à data de seu lançamento nos EUA. Friamente, no entanto, "Idas e vindas do amor" é tão, mas tão doce e bonitinho que chega a incomodar àqueles que, como este que vos escreve, anda numa fase de descrença no amor e seus afins.

Senão, vejamos: Anne Hathaway é uma jovem que faz bicos como atendente de tele-sexo e esconde esse pequeno segredo do namorado recente, vivido por Topher Grace, que vai receber conselhos de um desconhecido sábio (vivido pelo habitué dos filmes de Marshall, Hector Elizondo), que acaba de descobrir um caso antigo da esposa (Shirley MacLaine). Jennifer Garner é uma professora do primário que nem desconfia que o namorado médico (Patrick Dempsey) é casado e não acredita no fato nem quando seu melhor amigo (Ashton Kutscher) o revela depois de ter sido rejeitado pela namorada e quase noiva (Jessica Alba). Jamie Foxx é um repórter esportivo que tem a missão de realizar uma matéria sobre o Dia dos Namorados e cai de amores pela agente solteirona (Jessica Biel, se dá pra acreditar) de um jogador em vias de se aposentar. Enquanto isso, um casal de adolescentes prepara sua primeira noite de amor, um menino de oito anos tenta se declarar à sua amada (ecos de "Simplesmente amor"?) e uma capitã militar (Julia Roberts em pessoa) conhece um simpático solteiro (Bradley Cooper) durante uma viagem de avião.

Sendo honesto, o roteiro de "Idas e vindas" é divertido, passa rápido (ainda que pudesse ser um pouco mais curto) e cumpre sua função de arrecadar muito dinheiro (já rendeu mais de 60 milhões de dólares em pouco mais de uma semana em exibição) e divertir sua audiência. Mas sua visão de mundo é tão colorida e leve que sua credibilidade fica seriamente abalada. Tudo bem que ninguém entra em um filme chamado "Idas e vindas do amor" - cujo cartaz tem um coração enorme e tem Julia Roberts e Ashton Kutscher no elenco - esperando sérias elocubrações sobre sentimentos de perda, dor, solidão e carência. Mas para aqueles que, como este modesto escriba, estão em uma fase de descrença absoluta em finais felizes, chega a ser chocante assistir cenas que elevam o amor romântico à esfera que o filme eleva. Não desperta nem lágrimas, porque falar de amor eterno a quem não acredita nem mesmo em paixões de fim-de-semana equivale a narrar histórias de saci-pererê a um islandês que morou a vida toda em um iglu.

Se você está apaixonado e/ou acredita no amor acima de tudo, corra para assistir. Se, como eu, anda num estado de recalque absoluto, passe longe. É preferível assistir ao BBB, onde ninguém gosta de ninguém, o que soa bem mais real.

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PALAVRAS

Posted by Clenio on 12:18 in

O problema não é você, sou eu!
Eu preciso de um tempo só pra mim.
Você tem que baixar a guarda e acreditar em mim, eu não sou um monstro.
Você tem os olhos mais lindos que eu já vi.
Não estou preparado pra uma relação nesse momento.
Você é o mais bonito desse lugar, pode ficar com quem escolher.
Estou voltando pro meu ex.
Você é um cara muito legal.
Eu estava bêbado, eu nunca fiz isso, não sou mau-caráter.
Não entendo porque você está sozinho.
Você tem que se valorizar e acreditar mais em você.
Adoro a sua companhia!
Nunca me senti assim com ninguém.
Você é boa pessoa!
Se nós não fôssemos amigos eu ficaria com você.
Eu tenho medo de me apaixonar.
Eu estava confuso, me deixei levar pelas circunstâncias.
Parece que a gente já se conhece há muito tempo...
Eu te amo!

Palavras... tão fáceis de falar... tão difíceis de acreditar!!!!

"Tu me fazias versos.... versos não são companhia pra nenhuma mulher. Eu não me deito com versos!" (Anna de Assis em "Desejo", de Glória Perez)

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UR

Posted by Clenio on 11:51 in ,

Noites bêbadas me fazem lembrar de você - como se lembrar de você não fosse a maior constância de meus dias erráticos. E enquanto minhas pernas procuram as suas no nada de uma cama a cada dia maior, tento definir você dentro de mim. O que você é, afinal?

Você é este vazio que me aprisiona. Você é meu samba de uma nota só. Você é um filme sueco em preto e branco e sem legendas que eu tento entender. Você é o calor das minhas noites frias e a brisa dos meus dias desérticos. Você é a fome insaciável, a sede imortal, um sonho doce e breve, um pesadelo claustrofóbico interminável. Você é a lágrima amarga que morre no meu travesseiro noite após noite.

Você é o corpo que não encontro ao meu lado quando acordo. A boca que não beijo nos momentos de carência. Você é um mistério que ninguém consegue desvendar. Você é uma doença incurável da qual eu no fundo não desejo me livrar. Você é um sorriso preso na minha memória seletiva. Você é a força que me destrói e a fraqueza que me sustenta.

Você é a minha vida - incompleta, inútil, vazia, mas persistente. Você é a música que toca nos momentos mais inoportunos. Você é a voz que eu quero escutar pra sempre - mas que só ouço nos meus sonhos mais delirantes. Você é o porre que me alegra por algumas horas e me corrói de ressaca por outras tantas. Você é o melhor beijo que já tive. Você é a presença gigantesca que diminui todas as outras. Você é meu ar - poluído, às vezes, mas sem o qual eu não conseguiria viver.

Não, você não me faz mal. Você é parte de mim, uma parte que, extirpada me faria morrer lentamente. Uma parte que me sustenta, me fere, me incentiva, me instiga, me eleva e me rebaixa. Uma parte vital, sem a qual nada mais importa. É isso que você é!

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DEPOIS DO CARNAVAL...

Posted by Clenio on 20:41 in

Quarta-feira de cinzas... E realmente me sinto em cinzas. Me parece que brasas eu não tenho mais, tamanha falta de vontade de fazer qualquer coisa que não envolva silêncio, solidão e/ou inércia absoluta. As pessoas, decididamente, me cansam à exaustão. Minha alma está exaurida de tanto lutar contra o invencível. Só me resta assistir, de camarote, o baile de máscaras que perdura o ano todo.

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Assim, ó: estivesse eu no BBB era fácil me fazer desistir. Me mandem pro Carnaval da Bahia, pro trio elétrico da Cláudia (argh) Leitte junto com o insuportável do Dicésar (a Irene com a cara do Michael Keaton) que eu batia no tatame na hora... Peço pra sair, peço pra sair...

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Elenita sai do BBB e diz que se o Cadu conversasse com ela em uma festa ela imediatamente perderia o interesse nele. Tá bom, acredito!!
Disse também que a Playboy nem deve perder tempo fazendo propostas pra ela posar nua. Tem gente que não se enxerga, não é não?

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De Ana Carolina: "Pense em mim, em tudo aquilo que ainda sou eu... Use a coragem não só pra dizer adeus." Falou pouco mas disse tudo!!!!

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Dia 28/02 às 18h no auditório da Livraria Cultura: COMO DIZIA O POETA, escrita por mim e estrelada por mim e Bruna Morelo... Será um prazer recebê-los.

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LEITE DERRAMADO

Posted by Clenio on 22:36 in

Quem me conhece sabe que se existe alguém que admiro DE VERDADE, pura e simplesmente pela inteligência e pelo talento, é o Chico Buarque. Desde criança ouço a obra do Chico, seja através de filmes dos Trapalhões ("Os saltimbancos trapalhões", hello!) ou porque meu pai sempre essa qualidade de bom gosto musical. Sendo assim, eu sempre me surpreendia pelo fato de não conseguir gostar de seu trabalho literário. "Estorvo", "Benjamin" e "Budapeste" foram, pra mim, verdadeiros sacrifícios que eu fiz em prol de manter em dia meu contato com o pensamento do gênio que criou "Geni e o Zepelim". Por causa disso comecei a ler "Leite derramado" (Ed. Cia das Letras) com certo atraso e medo de não gostar. E como às vezes é bom estar enganado! "Leite derramado" é poesia pura, do nível das melhores letras de Chico.

"Leite derramado" conta a história da vida de Eulálio Assumpção, um idoso de mais de cem anos de idade que conta, do alto de sua cama de hospital, sua trajetória desde a infância até seus derradeiros momentos de saúde. Descendente de nobres e parte de uma família bastante esnobe, ele narra a enfermeiras, médicos e para sua própria filha os fatos mais importantes de sua existência - e é uma existência bastante rica, tanto em acontecimentos quanto em sentimentos.

Por ser narrado através do ponto de vista de um centenário, o livro não tem uma ordem cronológica direta, exigindo do leitor que preencha as lacunas da história de acordo com as informações que vem sendo espalhadas pelas páginas. É assim que demoramos a saber com certeza os motivos que levaram o protagonista a afastar-se de sua amada Matilde, ou como sua descendência continua mesmo com todas as tragédias que acometem sua família.

"Leite derramado" é impecável, imperdível, indescritível. Será que fui eu quem não entendi os livros anteriores do Chico???

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TÁ RINDO DO QUE? / AMANTES

Posted by Clenio on 14:08 in

Terminando minha mini-maratona de filmes no Carnaval assisti a dois filmes com ambições distintas, mas resultados semelhantes. Tudo bem que, depois de "Há tanto tempo que te amo" e "Entre os muros da escola" - que me surpreenderam muito positivamente - qualquer filme teria que ser muito especial pra me fascinar, mas nenhum dos dois chegou perto disso.

"Tá rindo do que?" (título nacional muito idiota para "Funny people") nem chegou a passar nos cinemas brasileiros, saindo direto em DVD. Quando se assiste logo entende-se as razões para tal decisão da distribuidora. Apesar de contar com Adam Sandler no papel principal, o filme de Judd Apatow (de "O virgem de 40 anos" e "Ligeiramente grávidos") foge como o diabo da cruz dos típicos produtos que venderam Sandler à plateia (mais americana que a brasileira, diga-se de passagem): o roteiro chega a brincar com a tendência do ator a fazer filmes babacas e sem sentido, mas essas piadas internas, ainda que genuinamente engraçadas, passam longe do público médio que frequenta multiplexes. Sendo assim, "Tá rindo" não chega a ser uma comédia histérica como as estreladas por Sandler e nem mesmo tenta atingir o nível de seriedade de um "Embriagado de amor", por exemplo, que buscava elevá-lo ao patamar de ator sério.
Apatow utiliza, em "Tá rindo do que?" o universo das stand-up comedies para falar de temas sérios, como a proximidade da morte, a solidão e a competitividade inerente ao ser humano. Parece deprê, mas não é. Mas também não é engraçado como se poderia esperar de um filme que tem no elenco Seth Rogen (considerado pela crítica especializada americana como a nova promessa do humor cinematográfico). No filme, ele vive Ira Wright, um jovem que tenta vencer na vida como comediante de palco enquanto trabalha em uma delicatessen. Por obra do destino, ele é contratado para servir de assistente do famosíssimo George Simmons (Sandler), que, do alto de sua arrogância, descobre que tem uma doença rara e praticamente incurável. Totalmente sozinho, ele passa a conviver com Ira e parte atrás do tempo perdido com a família e com o amor de sua vida, uma atriz (Leslie Mann, esposa do diretor) que está casada com um australiano adúltero (atuação hilária de Eric Bana, com um sotaque indescritível). O que pode parecer mais um daqueles filmes de auto-ajuda, no entanto, arrasta-se demasiadamente (145 minutos de duração cansam qualquer vivente) e não se decide entre o profundo e o meramente engraçado. Poderia ser melhor, mas dá pro gasto.



Já "Amantes" (Two lovers), de James Gray, requer uma dose a mais de paciência. Primeiro porque conta com a protagonização de Joaquin Phoenix (a meu ver um dos mais maçantes atores surgidos nos anos 90). Com sua falta de entusiasmo tradicional, ele vive Leonard, um jovem judeu com tendências suicidas que se apaixona pela vizinha Michelle (Gwyneth Paltrow), que vive um caso de amor com seu chefe casado (Elias Koteas). Mesmo sabendo que conquistá-la é uma tarefa hercúlea, ele mantém acesa a esperança, enquanto vive um romance hesitante com Carla (Vinessa Shaw), filha de um casal de amigos de seus pais. Apesar de ter momentos bastante interessantes - e Gwyneth mostra-se excelente atriz em alguns deles - o filme de Gray é arrastado, não desperta maiores paixões e nem ao menos aprofunda-se em vários questionamentos lançados no decorrer de sua projeção. O final é poderoso, mas não sustenta o restante sem sal da obra. Resta rever Isabella Rossellini, uma figura rara no cinema atual, que mantém seu charme mesmo depois dos 50 anos.

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RÁPIDAS CONSIDERAÇÕES CARNAVALÓIDES PARTE II

Posted by Clenio on 12:12 in

Declaração do Cadu, do BBB 10 (sim, eu assisto ao BBB): "Eu tenho alguém fora da casa..." ALGUÉM??? Mais bandeira de viadagem só se dissesse UMA PESSOA... Mas tudo bem, antes Cadu do que aqueles dois estereótipos ululantes que me incomodam profundamente. PRO-FUN-DA-MEN-TE.

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Ivete Sangalo declara: "Beyoncé que me perdoe, mas a musa aqui sou eu." Chega, né??
Com todo o dinheiro que ela ganhou às custas de gente sem gosto musical será que ela não poderia comprar ao menos um simancol??

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Como cantava Renato Russo, "me apaixono todo dia e é sempre a pessoa errada..."

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O que leva pessoas ditas normais a se enfiar dentro de um shopping-center em uma segunda-feira de carnaval chuvosa? E eu achava que a MINHA vida era tediosa...

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"Enquanto dura o baixo-astral, perco tudo. As coisas caem dos meus bolsos e da minha memória: perco chaves, canetas, dinheiro, documentos, nomes, caras, palavras. Eu não sei se será mau-olhado. Pura casualidade, mas às vezes a depressão demora em ir embora e eu ando de perda em perda, perco o que encontro, não encontro o que busco, e sinto medo de que numa dessas distrações acabe deixando a vida cair." (Eduardo Galeano, O livro dos abraços)

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HÁ TANTO TEMPO QUE TE AMO

Posted by Clenio on 10:11 in

Nesses dias de Carnaval, onde pessoas pretensamente alegres aproveitam para "viver a vida", se embriagando sem qualquer critério, tive a certeza mais do que absoluta - se é que ainda não a havia tido - de que meu "barato" é outro. Não há, pra mim, alucinógeno melhor e mais potente do que presenciar um grande ator - ou uma grande atriz - em cena. Me deixar ser carregado para um outro mundo, um outro universo, uma outra vida é, na minha opinião, a minha droga preferida. Digo isso apenas para apresentar a sensação indescritível que é assistir à interpretação de Kristin Scott Thomas no franco-alemão "Há tanto tempo que te amo" (Il y a longtemps que je t'aime), escrito e dirigido por Philippe Claudel.

Scott Thomas concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática ano passado, mas nem chegou a ser indicada ao Oscar por esse, que, sem sombra de dúvida, é seu melhor e mais profundo trabalho. Ela vive - e quando eu digo "vive" não estou sendo exagerado - a médica Juliette Fontaine, que, depois de uma condenação de 15 anos por homicídio, é libertada e vai morar com a família da irmã caçula, Léa (a ótima Elsa Zylberstein) enquanto tenta se readaptar à vida em sociedade. Sofrendo preconceito devido a seu passado nada recomendável, ela tem dificuldade em se deixar amar pelas sobrinhas vietnamitas, em se entregar à sincera amizade com um experiente colega de trabalho de sua irmã e até mesmo em ver a vida da maneira como via antes da prisão.

O que mais surpreende no filme de Claudel é sua economia de emoções. Apesar da trama sugerir cenas lacrimosas, sentimentalismos clichês e catarses emocionais, seu roteiro é discreto, sutil, elegante. É um filme de meias-palavras, de gestos contidos, de silêncios ensurdecedores. E são nesses momentos silenciosos que brilha a estrela de sua atriz principal. Ver os movimentos reprimidos e os olhares expressivos de Juliette - em especial na primeira metade do filme - não traem que sua intérprete é a mesma inglesa que fez a amiga solteirona de Hugh Grant em "Quatro casamentos e um funeral" ou a amante passional de Ralph Fiennes em "O paciente inglês". Aqui, Kristin Scott Thomas é outra, reinventada, visceral, impactante.

"Há tanto tempo que te amo" tem um final de deixar o coração pesado. Não é um filme leve, daqueles de sair da alma com facilidade. Durante as duas horas em que prende a atenção da plateia - de uma plateia com um mínimo de sensibilidade, deixo bem claro - o faz sem apelar para golpes baixos emocionais ou cair na tentação de descambar para o sensacionalismo. É aos poucos que o público vai desvendando como Juliette foi parar na cadeia, os motivos que a levaram até lá e de que forma essa dramática experiência mudou a sua vida. E desafio a quem assistir ao filme de não aplaudir de pé a atuação de Scott Thomas depois de suas cenas finais.

Um dos melhores filmes a que assisti em 2010. Bravíssimo!

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VIGARISTAS

Posted by Clenio on 22:05 in

Mais uma prova de que conselhos sobre filme só podem ser levadas a sério com muita parcimônia: levando em consideração a dica de um amigo acabei de assistir à primeira bomba em DVD do ano, uma pretensa comédia chamada "Vigaristas" (The Brothers Bloom), dirigida por um até agora ignorado por mim Rian Johnson (e a julgar por essa primeira experiência será o primeiro e último filme do sujeito a que pretendo assistir).

"Vigaristas" tenta ser da mesma estirpe da qual fazem parte os sucessos "Golpe de mestre", "Nove rainhas" (um excelente drama argentino) e a comédia "Os safados", com Steve Martin e Michael Caine. Isso quer dizer apenas que versa sobre a arte dos golpes inteligentes e não que é digno de figurar ao lado dos citados filmes, que tem, alem de tudo, bons roteiros e elencos afiados. Não é o caso aqui: apesar da primeira sequência, que apresenta os protagonistas - dois irmãos órfãos que passam de lar adotivo em lar adotivo - de forma bem-humorada, a obra de Johnson carece de ritmo, empatia e o que é ainda mais grave no gênero, reviravoltas que sustentem suas quase duas horas de duração.

Mark Ruffalo (que é quem surpreendentemente sai-se melhor na brincadeira) e Adrien Brody (péssimo ator, repetindo ad nauseum as mesmas caras e bocas de sempre) vivem dois irmãos que vivem de golpe em golpe. Acompanhados da misteriosa Bang Bang (a indicada ao Oscar por "Babel" Rinko Kikuchi, que praticamente não tem o que fazer aqui), eles correm mundo em busca de novas vítimas. Sua chance de ganhar muito dinheiro surge quando conhecem a milionária solitária Penelope (Rachel Weisz, que ganhou o Oscar por "O jardineiro fiel" e voltou à sua eterna cara de tonta). No entanto, a jovem descobre o golpe e resolve juntar-se ao trio para experimentar novas emoções.

Chega a ser constrangedor assistir a "Vigaristas". Enquanto Adrien Brody e Rachel Weisz tentam convencer como casal apaixonado, Rinko Kikuchi brinca de mulher fatal e o pobre Maximilian Schell parece ter feito o filme para pagar as contas, resta ao espectador bocejar e torcer para que os créditos finais comecem de uma vez.

Duas horas de vida desperdiçadas.... E finalmente entendi o título nacional...

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ENTRE OS MUROS DA ESCOLA

Posted by Clenio on 15:02 in

Se tem uma coisa que ainda preciso aprender nessa vida é a de não dar ouvidos a recomendações cinematográficas de outrem (exceto pessoas altamente confiáveis, raça essa em franca extinção...). Foi seguindo uma opinião que hoje me soa obviamente equivocada (a mesma pessoa gostou de "O lutador", com Mickey Rourke) que deixei de assistir, em tela grande, o excelente "Entre os muros da escola", que conferi essa madrugada, fugindo dos agitos de Momo. E se arrependimento matasse provavelmente esse post nem existiria, porque o filme de Laurent Cantet, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2007, é uma pequena obra-prima a ser descoberta e recomendada com fervor.

Logicamente não é um filme para o público que venera coisas como "Avatar". Baseada em um romance auto-biográfico de François Begaudeau, a obra de Cantet versa sobre pessoas, sobre diferenças sociais, sobre problemas aparentemente pequenos que se transformam em tempestades emocionais. O protagonista é o professor de francês de uma escola pública do subúrbio parisiense que luta para não apenas ensinar a disciplina a seus alunos, mas também procura encaixá-los na sociedade, em um mundo repleto de violência e pobreza, que discrimina os semelhantes e principalmente as minorias - e entre seus alunos estão chineses, marroquinos e árabes.Ao lado de um grupo de outros mestres, ele tenta estimular o aprendizado, a ética e a auto-estima de seus aprendizes, esbarrando muitas vezes no derrotismo que eles mesmos cultivam dentro de si.

O roteiro, escrito por Robin Campillo ao lado do diretor e do ator principal, escapa miraculosamente dos clichês que povoam o gênero "filmes de professor", não fazendo de seu protagonista um super-herói imbatível e infalível. François erra - e erra feio, às vezes - e isso o aproxima genuinamente da plateia, que, fascinada, acompanha sua batalha através de um mar de burocracia, mentiras e preconceitos. Espertamente, nada se sabe sobre a vida pessoal do professor: ele existe apenas dentro dos muros da escola, evitando que o interesse do público se desvie ou dilua. E o trabalho de François Begaudeau nunca deixa de cativar a audiência por sua naturalidade: sempre que está contracenando com seus alunos, há a nítida impressão de que estamos realmente assistindo a um embate real - às vezes cordial e intelectualmente estimulante e em outras assustadoramente a um passo da beligerância. Graças a esta falta de maiores ambições cinematográficas (leia-se movimentos radicais de câmera, edição estonteante e arroubos de criatividade), o filme de Cantent conquista pela simplicidade de sua forma e pela profundidade de seu conteúdo. Nem mesmo o final em aberto - bastante apropriado - tira a força de "Entre os muros da escola". Um grande filme em formato discreto!

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RÁPIDAS CONSIDERAÇÕES CARNAVALÓIDES

Posted by Clenio on 21:54 in

Uma amiga me perguntou se vou a uma determinada festa de máscaras hoje à noite. Minha resposta foi simples: as pessoas usam máscaras o ano todo; hoje deveriam é tirá-las só pra variar. Mas aí uma questão: como reconhecê-las nos outros 364 dias do ano???

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Está lá, na página 56 de "Leite derramado" (Ed. Cia das Letras): "Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco, porque minha pele tinha ficado presa naquela mulher."

Não é a definição mais perfeita de um amor escravizante? Por isso é que o Chico tem o posto número 01 no meu panteão de heróis.

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Nada de festas, nada de samba, nada de gente forçando uma felicidade patética: aluguei um monte de filmes e vou mergulhar na sétima arte em frente a um ventilador. Cada um se diverte como quer.

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CAN'T NOT

Posted by Clenio on 12:44 in ,

Você chega me pedindo conselhos, como se eu fosse capaz de deixar de lado meus sentimentos e ser frio a ponto de lhe ajudar mesmo que isso me destrua.
Você me pede ajuda para entender suas contradições, dizendo que é jovem demais, confuso demais e carente demais, como se eu fosse muro rígido de certezas absolutas e verdades incontestáveis.
Você diz que quer um amor, que quer ser feliz, que quer viver sem culpas, como se eu pudesse realizar um milagre e fazer desaparecer todas as suas angústias.
Sinto te dizer isso, mas eu não posso! Não posso mesmo!

Como você quer que eu acredite em Deus se todos os argumentos que você usa a esse favor podem ser demolidos sem muito esforço?
Como você tem coragem de acreditar em um ser que parece se divertir à custa da raça humana? Você quer que eu passe a confiar sem provas concretas, mas eu não consigo. Não posso, de verdade!

Você acha que eu consigo crer nas minhas qualidades depois de todas as decepções pelas quais passei? Você tem a ilusão de que eu, machucado, humilhado, cansado como estou, seria capaz de acreditar em um simples elogio qualquer? Palavras são vãs... atos são cruéis e fortes. Você quer que eu deixe todas as decepções para trás, como lixo descartável, mas elas estão impregnadas na minha pele e na minha alma. Sinto muito, mas não posso esquecê-las. Não posso mesmo!

Você quer que eu seja mais leve, menos obcecado com o lado negativo da vida! Mas tudo eu vejo é tristeza, solidão, egoísmo, urgências desnecessárias, pressas inexplicáveis. Você me pede que ouça com mais atenção à música do prazer, da felicidade, da esperança. Mas a frequência que você escuta não é a minha. Você quer que eu perceba as crianças, os animais, a natureza... mas só o que eu vejo são pessoas em miniatura esperando sua vez de entrar no quarto escuro das desilusões, circundadas por um cenário que me parece tão falso quanto a alegria de um palhaço. Não tenho como fazer isso, não consigo mesmo!

Você briga comigo pra me fazer entender seu ponto de vista distorcido, como se a culpa de sua tristeza fosse minha. Você quer me convencer que está certo, que sabe enxergar as coisas com mais clareza do que eu. Você quer me enganar, me manipular, me anular. Eu posso tentar, mas não vou conseguir.

Você quer que eu veja que minha vida é melhor sem você, que estou mais centrado, mais racional, mais maduro. Quer que eu perceba que você só me fazia mal, que não podia me dar tudo que eu queria e merecia. Tenta me fazer compreender que a nossa relação era unilateral e que o amor que eu sentia (sinto, sentirei sempre) não era saudável. Você quer que eu me cure de você. Sinto muito, mas eu não posso! Não posso mesmo!

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NA TORCIDA POR DRICA MORAES

Posted by Clenio on 19:53 in

Pra quem reclama que meus posts são muito longos esse vai ser jogo rápido, mesmo porque má notícia eu tento ignorar (sou da teoria de que, se eu não falar no assunto, não é verdade). No entanto, tenho que deixar pública minha preocupação e minha torcida pela Drica Moraes, uma das maiores atrizes do Brasil e uma das minhas preferidas (numa lista bem pequena): ela foi diagnosticada com leucemia e já está fazendo tratamento contra a doença. Segundo sua empresária, o diagnóstico foi cedo e a atriz está respondendo bem à medicação.

Torço fervorosamente por sua plena e breve recuperação, porque além de tudo, em um país onde grassa a mediocridade - em especial na televisão - a presença de Drica não é apenas agradável: é mandatória.

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CANTIGA DE NINAR

Posted by Clenio on 11:23 in

Visto através dos olhos de Chuck Palahniuk, o mundo não é um lugar dos mais agradáveis. Autor de petardos críticos contra a sociedade de consumo como "Clube da luta" e "No sufoco", o escritor norte-americano talvez seja a voz mais radical na literatura atual, conseguindo unir uma prosa que foge do eruditismo barato a um humor negro e violentos ataques ao vazio existencial que acomete a humanidade há um bom par de séculos.

Publicado no Brasil em 2004, "Cantiga de ninar" (Ed. Rocco) não chega a ser seu melhor trabalho - fico dividido entre "Clube da luta" e o genial "Assombro" - mas é, de longe, um livro para ser devorado com a rapidez de um BigMac - mas é, sem dúvida, bem mais nutritivo.

A grosso modo, "Cantiga de ninar" conta a história de uma poesia folclórica africana (o canto de poda) que, reza a lenda, mata as pessoas que a ouvem. De posse dessa valiosa informação, o repórter Carl Streaton, que perdeu a mulher e a filha bebê devido ao feitiço involuntário, une-se à corretora imobiliária Helen Boyle - também uma ex-mãe de família - para destruir todas as cópias do tal poema maldito. Ao lado de uma jovem bruxa e seu namorado hippie, eles atravessam o país em busca dos exemplares existentes e no caminho descobrem que seus objetivos podem ser bem mais egoístas do que aparentam.

Assim como em toda obra de Palahniuk, a trama central é apenas o pano de fundo para uma profunda discussão sobre cultura de massa, religião e cultura pop. Tal como um filósofo moderno, o ex-mecânico alçado à categoria de escritor bem-sucedido discorre sobre Deus, seres humanos, violência e sentimentos de culpa de forma anárquica mas sempre inteligente, mal dando tempo ao leitor de recuperar-se dos disparos de sua metralhadora giratória. Sua prosa seca, de frases curtas, lembra Hemingway, mas é difícil imaginar o autor de "Por quem os sinos dobram" sendo tão furioso e irônico com sua geração. Palahniuk é mais do que som e fúria, é barulho e muito sarcasmo.

Em suas páginas finais "Cantiga de ninar" perde um pouco de seu fôlego, tornando-se quase anti-climático. Mas depois de mais de 250 páginas de insights geniais sobre o triste estado das coisas no mundo em que vivemos, esse pequeno detalhe nem chega a incomodar.

"Por toda parte há palavras se misturando. Palavras, letras de músicas e diálogos estão se misturando numa sopa que pode desencadear uma reação em cadeia. Talvez os atos de Deus sejam apenas a combinação certa do lixo que a mídia joga no ar. As palavras erradas colidem e provocam um terremoto. Tal como as danças da chuva chamavam tempestades, a combinação certa de palavras talvez provoque furacões. Por trás do aquecimento global talvez haja um excesso de jingles comerciais jogados no ar. Talvez o número excessivo de reprises televisivas que pululam por aí esteja causando furacões. Câncer. AIDS."

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11º PORTO VERÃO ALEGRE - TÁ, E AÍ?

Posted by Clenio on 23:17 in

Uma das melhores coisas que podem acontecer quando se entra em uma sala de teatro é esquecer que do lado de fora existe um mundo normalmente bastante aborrecido. Essa magia quase transcendental que a arte teatral proporciona encontrou hoje, no encerramento do 11º Porto Verão Alegre, um novo exemplo: a divertidíssima "Tá, e aí?", comandada pelo sempre competente Júlio Conte. Utilizando um formato já consagrado na televisão, em programas da Bandeirantes e da MTV, por exemplo, o espetáculo surge perante a audiência de acordo com suas próprias sugestões, obrigando seus atores a recorrerem ao improviso e à presença de espírito para chegarem ao final de suas cenas.

É difícil falar mais da peça por um motivo muito especial: ela é diferente a cada sessão, depende da troca de energia com a plateia e essa quase tensão que se sente no ar apenas eleva a experiência a um patamar único, principalmente se levarmos em consideração o fato de que subir num palco sem um texto pronto e uma direção severa pode ser bastante assustador. Por isso, louvores ao elenco excelente (não sei o nome de todos, perdão....), à ideia de Conte de trazer o formato aos gaúchos e também - por que não? - ao público presente, que deu boas gargalhadas com as bobagens hilariantes apresentadas a ele.

"Tá, e aí?" precisa voltar em nova temporada. E quando isso acontecer, estarei lá novamente, como fã de carteirinha.

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THE COUCH

Posted by Clenio on 11:38 in ,

Imagine que você passou a vida inteira com o título de "intelectual da família", sendo cobrado dia e noite por causa dessa decisão unilateral de seus pais. Você não iria, na primeira oportunidade, se rebelar contra esse pesado rótulo? Não iria querer ser menos inteligente, menos erudito, menos estudioso?

O que você faria, quando atingisse idade suficiente, se alguém - qualquer alguém - lhe dissesse como você é lindo, sexy, gostoso, se desde que se entende por gente você nunca foi "lindo, sexy e gostoso"? Sim, seu irmão era lindo, sexy e gostoso, não você. O que você faria? Dispensaria quem conseguiu enxergar esse seu lado ou se agarraria a ele como uma a tábua de salvação? Você gostaria de ser julgado porque se deixou enganar por todas as outras pessoas que lhe disseram as mesmas coisas?

Como você reagiria se tivesse sido ensinado desde a mais tenra infância que Deus pode tudo, sabe tudo e condena tudo que foge de Suas regras e descobrisse, depois de muito sofrimento, que Ele, na verdade, se existe, é sádico e não está nem aí pra você? Respeitaria tudo que lhe forçaram a aprender ou rejeitaria a crença e se tornaria um niilista profano?

Você seria capaz de acreditar em você mesmo se a cada passo em frente em direção a sua auto-estima você voltasse três? Você acha que teria a capacidade de acreditar em belas palavras se o que é dito não é compatível com o que é feito? Você, sinceramente, acredita que alguém pode lhe amar incondicionalmente?

Se você sempre optasse pelas pessoas erradas você teria a consciência de que talvez faça isso porque não quer deixar pra trás o sofrimento? Você veria claramente que as cicatrizes que lhe marcam a alma talvez sejam suas companheiras mais fiéis? Saberia, com absoluta certeza, que refugiar-se em um amor passado é a maneira mais covarde de suicídio?

Se você tivesse medo de perder sua juventude - que é a única coisa que lhe parece mais importante e útil - você julgaria aqueles que sonham com a morte? Se você não tivesse nada de importante a perder, condenaria os que buscam o próprio fim? Se você se sentisse eternamente só - mesmo em meio a uma multidão ruidosa - estranharia que alguém desejasse o silêncio profundo do nada absoluto?

Imagine que você é elogiado, festejado, rodeado de amigos mas que nunca deixa de sentir-se pequeno, solitário e insignificante. Você seria feliz?

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ACONTECEU EM WOODSTOCK

Posted by Clenio on 00:54 in

Uma característica constante da filmografia do cineasta Ang Lee é a sua visão sempre humanista dos acontecimentos, sejam eles problemas familiares (como em "O banquete de casamento" e "Tempestade de gelo"), guerras civis ("Cavalgada com o diabo") ou brigas por artefatos de guerra ("O tigre e o dragão"). Por isso, não é de estranhar que ele opte em seguir o mesmo caminho em "Aconteceu em Woodstock" (Taking Woodstock), seu mais recente trabalho em língua inglesa. Baseado no livro de Elliot Tiber, o filme conta a história do festival de música mais famoso da história dos EUA sob um novo ponto de vista: o das pessoas que o criaram.

Na tela, o nada carismático Demetri Martin encarna o autor do livro, um jovem que vive em uma cidade do interior tentando manter o hotel caindo aos pedaços de propriedade dos pais (os ótimos Henry Goodman e Imelda Staunton). Ao saber que uma cidade vizinha mudou de ideia e não vai mais abrigar um festival de música, ele parte em busca da ajuda necessária para transferí-la para perto de seu terreno. O que era pra ser um evento pequeno acaba, no entanto, transformando-se em um marco histórico, principalmente por acontecer em plena efervescência cultural e sexual e concomitante com a Guerra do Vietnã.

Ao contar os bastidores do festival ao invés de mostrar sua face mais conhecida, Ang Lee reitera sua preferência em focar suas lentes sobre detalhes que, unidos a outros, perfazem um mosaico de sentimentos humanos. A difícil relação de Elliot com seus pais, com sua sexualidade mal resolvida e com seus amigos de infância (em especial um jovem veterano do Vietnã vivido por Emile Hirsch) são os pontos mais importantes na narrativa do diretor. Woodstock é o pano de fundo para uma história de auto-descobrimento contada com a conhecida sensibilidade do homem que fez de uma história de amor entre dois cowboys - "O segredo de Brokeback Mountain" - um sucesso de crítica e bilheteria.

"Aconteceu em Woodstock" lança um olhar carinhoso sobre o movimento hippie sem paternalizá-lo e não se preocupa em ser didático. Sua maior falha talvez seja em não desenvolver a contento subtramas que poderiam tornar sua narrativa ainda mais interessante, e com isso, tira a oportunidade de mais brilho aos trabalhos de Emile Hirsch, Mammie Gummer (a talentosa filha de Meryl Streep) e Liev Schrieber (como um travesti que resolve ser uma espécie de leão-de-chácara do festival). Sobra a atuação genial de Imelda Staunton como a irascível mãe do protagonista e o clima nostálgico que permeia suas duas horas de duração.

"Aconteceu em Woodstock" não almeja o público fanático por Janis Joplin, Joe Cocker ou Jimi Hendrix. Sua plateia ideal é aquela que procura filmes sobre pessoas em busca de si mesmas e de um novo objetivo na vida. E para esses espectadores oferece, ainda que em menor escala, a qualidade de sempre.

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NINE

Posted by Clenio on 16:55 in

Em uma cena do musical "Nine", a figurinista Lili (vivida pela sempre competente Judi Dench) descreve a função de diretor de cinema como a de alguém que só precisa dizer "sim" ou "não". Pode parecer simplista, mas de uma certa forma é justamente essa a impressão que fica quando os créditos de encerramento do filme surgem, depois de quase duas horas de projeção. Afinal de contas, quase dá pra imaginar Rob Marshall (que comandou o excepcional "Chicago") tomando suas decisões quando escolheu seu projeto: "sim" para um cuidado enorme com o visual, "sim" para um elenco repleto de vencedores do Oscar; "sim" para referências a Fellini (cujo filme "8 1/2" inspirou este aqui) e "sim" para uma parte técnica impecável. Mas provavelmente ele disse "não" para muitos fatores importantes, também. "Não" para um roteiro consistente, "não" para um ator principal carismático; "não" para sutilezas; "não" para senso de humor. Do jeito que chegou às telas, "Nine" tenta ser um novo "Chicago", mas erra o alvo por uma distância de várias canções.

Não que "Nine" seja ruim, pelo contrário. Nota-se de longe a preocupação em proporcionar ao público um espetáculo bem cuidado, de classe, adulto. De longe percebe-se o bom gosto visual de Marshall (a fotografia de Dion Beebe é irretocável, em especial nos números musicais) e a sua vontade em ser um novo Bob Fosse (cujo filme "All that jazz, o show deve continuar" também é inspiração aqui). No entanto, ao cuidar tanto do exterior de seu trabalho, ele parece ter esquecido de seu conteúdo: mesmo que tente timidamente buscar no passado de seu protagonista os motivos que o levam a ser tão egocentrado - a mãe superprotetora, a culpa católica, o assédio da carne e tudo que faria um especialista em Freud se deliciar - o roteiro, baseado em um musical da Broadway, poucas vezes chega a empolgar, e quando o faz é graças à atuação superlativa da francesa Marion Cottilard, que comprova que seu Oscar por "Piaf" não foi um lapso da Academia.

Pra quem ainda não sabe, "Nine" conta a história de Guido Contini (um Daniel Day-Lewis antipático como sempre), um cineasta em declínio que, às vésperas de iniciar uma nova filmagem passa a sofrer de bloqueio criativo. Enquanto tenta encontrar uma ideia para seu novo trabalho, ele se divide entre a esposa Luisa (Cottilard, dona de dois números musicais bastante interessantes) e a amante Carla (Penelope Cruz em ótimo momento na carreira e indicada ao Oscar de coadjuvante). À sua volta, outras mulheres também chamam a sua atenção: sua figurinista Lili (Dench), uma jovem jornalista da revista Vogue, Stephanie (Kate Hudson) e sua musa Carla (Nicole Kidman, belíssima novamente, em uma pequena mas importante participação). Como se não bastasse ainda está viva dentro deles a memória de sua mãe (Sophia Loren) e de Saraghina (a cantora Fergie), uma prostituta que povoou seus lúbricos sonhos infantis.

O maior problema em "Nine" é que ele simplesmente não cativa sua plateia. Ao contrário de "Chicago", que se valia de ironia e um senso de humor sofisticado e inteligente, aqui a impressão que se tem é que Marshall apostou unicamente em seus maiores trunfos explícitos (o elenco, o visual e seu know-how de diretor de um musical bem-sucedido) e relegou a segundo plano muitos dos elementos que fizeram o sucesso de sua premiada estreia como cineasta. Até mesmo a edição - um dos pontos fortes de "Chicago" - sofre bastante em "Nine", já que as coreografias elaboradas são cortadas sem dó nem piedade sem um resultado positivo.

Muita coisa pode ser louvada - e deve ser - em "Nine": a fotografia, a direção de arte, o figurino estão acima de qualquer crítica. O elenco feminino faz milagres com as personagens sem muita substância que lhe foram entregues - em sátiras isso funciona, mas aqui é tudo levado a sério demais - e nem mesmo Fergie (enfeiada para o papel) compromete. Mas para o que prometia ser O filme do Oscar 2010 fica aquela sensação de decepção e quase constrangimento.

CONSIDERAÇÕES SOBRE OS TRAILERS VISTOS

CAÇADOR DE RECOMPENSAS - Jennifer Aniston? Sim. Gerard Butler? Siiiiiiiiiiiiiiim. Comédia romântica? Ótimo. Mas bem que a história poderia ser um pouco mais elaborada, não é não?

PRECIOSA - Impressionantes Gabourey Sibbide e Mu'nique. Clima decadente, depressão só nos poucos minutos de trailer. Soa a imperdível. Oscar à vista para suas atrizes?

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS - Visual de cair o queixo, como é normal nas obras de Tim Burton. Mas precisava mesmo dar tanto destaque a Johnny Depp????

ULM OLHAR DO PARAÍSO - Acho bom que estreie logo, porque o trailer já está cansando...

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LENNYS AWARD 2009

Posted by Clenio on 01:57 in

Desde que vim morar em Porto Alegre e ir ao cinema passou a ser um programa frequente e obrigatório (antes eu me curava do vício em filmes assistindo a vídeos...) existe em mim uma obsessão em criar listas de melhores... Surgiu então o Lennys Award, que, assim como o Oscar, premia os maiores destaques do ano. Tento não seguir os vencedores do Oscar, buscando sempre corrigir aquelas que considero injustiças - se bem que às vezes não dá pra escapar do óbvio.

Sem mais delongas, segue a lista dos vencedores de 2009 - apenas os vencedores, os indicados não vem ao caso no momento:

FILME - O curioso caso de Benjamin Button
DIRETOR - QUENTIN TARANTINO - Bastardos inglórios
ATOR - MICHAEL FASSBENDER -Fome
ATRIZ - ANGELINA JOLIE - A troca
ATOR COADJUVANTE - CHRISTOPH WALTZ - Bastardos inglórios
ATRIZ COADJUVANTE - VIOLA DAVIS - Dúvida
ROTEIRO ORIGINAL -BASTARDOS INGLÓRIOS - Quentin Tarantino
ROTEIRO ADAPTADO - O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON - Eric Roth
FOTOGRAFIA - A TROCA - Tom Stern
MONTAGEM - (500) DIAS COM ELA - Alan Edward Bell
TRILHA SONORA - O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON - Alexandre Desplat
CANÇÃO - "US" (Regina Spektor) - (500) DIAS COM ELA
FIGURINO - O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON - Jacqueline West
DIREÇÃO DE ARTE & CENÁRIOS - O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON - Donald Graham Burt / Victor J. Zolfo
MAQUIAGEM - O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON
SOM - BASTARDOS INGLÓRIOS
EFEITOS VISUAIS - O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

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THAT I WOULD BE GOOD

Posted by Clenio on 11:44 in ,

Sim, eu prometi a mim mesmo que estaria sempre bem.

Que eu estaria bem mesmo se o dia estivesse chuvoso, frio e solitário. Que eu estaria bem mesmo que as coisas não acontecessem do jeito exato que eu esperava - e elas quase nunca acontecem. Que eu estaria bem mesmo depois de uma noite insone. Que eu estaria tranquilo mesmo que a imagem que eu visse no espelho não fosse aquela que eu sonhava.

Eu jurei a mim mesmo que eu estaria sempre em paz, mesmo que por dentro um turbilhão de pensamentos e sentimentos estivesse tomando conta de mim. Jurei que acontecesse o que acontecesse eu não deixaria de acreditar que a vida pode melhorar e que as pessoas são inerentemente boas.

Eu garanti a mim mesmo que não mais entregaria minha auto-estima e a crença em minhas capacidades nas mãos de quem não soubesse valorizá-las. Jurei que estaria sempre bem mesmo que essas mãos não fossem capazes de perceber o quão valiosos e frágeis são esses sentimentos. Jurei que estaria bem mesmo com críticas jogadas a meu rosto e uma conta bancária negativa.

Na verdade, acreditei que estaria bem mesmo se tudo parecesse voltar-se contra mim. Mesmo que o amor que eu entregasse voltasse de forma a me machucar. Mesmo que eu me ferisse, física ou sentimentalmente, tinha certeza absoluta de que sempre estaria bem. Prometi, sim, que estaria bem mesmo se fosse abandonado, desrespeitado ou incompreendido. Garanti a todos, e à minha pessoa principalmente, que estaria ótimo mesmo se o meu grande amor um belo dia descobrisse que o amor que eu sinto não é o suficiente pra manter um casal aquecido.

Eu pensava que, mesmo fisicamente decadente, eu estaria bem. Que, ainda que sem dinheiro, sem posses, sem nada além de mim, eu seria capaz de ficar bem. Que eu estaria fantástico mesmo sem mãos segurando as minhas no cinema ou com uma respiração silenciosa a meu lado na cama. Pensava que estaria maravilhosamente bem mesmo que a idade chegasse, que a experiência me gritasse que a vida não é tão maravilhosa quanto dizem ou que todos os meus entes queridos fossem saindo de cena aos poucos.

Eu pensei que estaria bem apenas com meu trabalho, meus amigos e meus discos e livros. Pensei que estaria bem sem alguém pra amar. Jurei que estaria bem com ou sem você...

Mas é difícil acreditar em mim mesmo.

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3

SYMPATHETIC CHARACTER


Eu já tive a sua idade. Meu sorriso também já foi a novidade de uma festa. Já tive que fazer malabarismos para manter uma imagem que me era mais apropriada. Assim como você eu achava que quantidade era qualidade. E exatamente como você eu já quis abraçar o mundo com as pernas. Nos meus vinte anos tudo era possível, todas as pessoas eram possibilidades e mundos a ser explorados.

Eu já tive a sua falta de consideração para com os sentimentos alheios. Do alto da arrogância dos meus vinte anos eu achava que as pessoas existiam pra minha diversão. Assim como você eu realmente acreditava que os outros podem ser perfeitamente descartáveis quando não são mais úteis. E bem como você eu achava que uma boca era muito pouco quando havia tantas implorando por beijos.

Eu já confundi diversão com sacanagem. Achei que beijar muita gente era "conhecer" muita gente. Já fiz pessoas se iludirem a meu respeito pra depois empurrá-las do alto de suas expectativas. Já tive carinha de santo mascarando um espírito de sátiro.

Entendo sua ânsia de viver. Também já a tive. Compreendo que há tanta vida lá fora e aqui dentro sempre que é difícil não buscar alternativas. Acredite em mim, eu tenho essa empatia natural com pessoas que, como diz a música, "morrem de vontade, que secam de desejo e ardem". Mas acredito também que machucar pessoas não é o melhor caminho para a realização pessoal.

Eu já achei que certas pessoas faziam drama por nada até que me pus no lugar delas. Achava que sofrer por amor era coisa de mocinha de novela mexicana, até me apaixonar e sentir a torturante dor de um coração partido. Já julguei pessoas por atos que me flagrei repetindo tempos depois. O mundo dá voltas, dizem por aí. E como não concordar com isso?

Cometi erros crassos e imperdoáveis. Por uns fui perdoado, por outros jamais absolvido. Em todos eles me considero culpado. Quando os cometi julgava estar sendo sincero comigo mesmo, honesto com meus desejos e sentimentos. Mas se pudesse voltar atrás, eu preferiria mil vezes ter reprimido minhas vontades para poupar os sentimentos de quem gostava de mim - ou poderia vir a gostar de verdade. O escorpiano falou mais alto em várias ocasiões. E hoje quem paga pelo sentimento de culpa é um bobo sentimentalóide que perdeu muitas chances de ser feliz.

Talvez eu tenha odiado seus atos porque me vi refletido neles. Mas ainda tenho dentro de mim o senso de obrigação de te avisar enquanto é tempo: as pessoas se machucam e às vezes os ferimentos são mortais.

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FICÇÃO x REALIDADE

Posted by Clenio on 14:07 in

No filme "A rosa púrpura do Cairo" (em breve um post específico para ele), a protagonista Cecilia, vivida por Mia Farrow se apaixona perdidamente pelo protagonista de seu filme preferido. A paixão por ele é sua única fuga do mundo cruel em que ela vive e de certa forma ela se apaixona por ele por um motivo muito simples: ele não existe de verdade.

Apaixonar-se por uma personagem de ficção talvez seja a saída mais eficaz contra as decepções que frequentemente nos atingem. Uma personagem de ficção ideal - aquela por quem nos apaixonamos - não cheira mal, não transpira, não ronca e principalmente não nos trai. Uma personagem que só existe no âmbito da imaginação - mesmo que exista visualmente - não nos engana, nem humilha, nem nos faz acreditar em nada que não seja verdade - talvez apenas sua existência.

Existe um pensamento que diz que preferir a companhia de seres imaginários é menos saudável do que viver e travar conhecimento com gente de verdade. Mas duvido que os defensores dessa teoria tenham passado por situações tão pouco felizes ao lado de pessoas ditas reais. Sempre que tento, por exemplo, dar uma chance às pessoas, elas me decepcionam. Não conseguem atingir nem as mais tímidas expectativas.A cada dia mais e mais pessoas preferem machucar os outros do que ter com elas relações verdadeiras, de entrega, confiança. São pessoas que utilizam de toda e qualquer desculpa para seus atos imperdoáveis: imaturidade, embriaguez, inexperiência, insegurança. São pessoas que não merecem ser amadas simplesmente porque se protegem contra a felicidade. Pessoas egoístas, autocentradas, pequenas. E entre pessoas com esse nível de caráter e pessoas apenas imaginadas não é nenhum choque que pessoas como Cecilia optem pela segunda opção. Por mais Pollyanna que se seja fica difícil sorrir frente ao triste espetáculo humano que nos é oferecido.

Não sou uma Cecilia, ainda que muitas e muitas vezes ache que somente criações literárias e/ou dramatúrgicas seriam capazes de me surpreender positivamente. Mas certas situações me fazem desacreditar cada vez mais na sensibilidade inerente dos seres humanos de carne e osso. A única esperança que ainda posso ter é de nunca perder os últimos resquícios de fé contra essa gente careta e covarde.

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ARE YOU STILL MAD?

Posted by Clenio on 12:10 in ,

Você ainda está furioso comigo pelas coisas que desabafei em meu último e-mail?
Você ainda está furioso porque desejei que você fosse infeliz?
Você ainda está furioso porque não percebi os sinais que você me dava pra dizer que era o fim?
Você não me perdoou ainda por eu não amar os animais da maneira que você ama?

Você ainda não entendeu como eu pude me apaixonar por você tão rapidamente?
Você ainda não conseguiu me perdoar por eu ter me colocado a mim como vítima e você como vilão?
Você ainda não deixou pra trás o fato de eu não ter conseguido fazer você me amar?

Você ainda tem raiva por eu ter me humilhado ao ponto da subserviência?
Você ainda me culpa por ter se sentido culpado?
Você ainda anda magoado por eu ter me envolvido demais com a sua família?
Você ainda está furioso porque eu consegui jogar meus amigos contra você mesmo sem querer?

Você ainda não aceita o fato de nunca ter sentido ciúmes de mim?
Você ainda chora de raiva por não ter pulado fora antes que fosse tarde demais?
Você ainda me odeia porque eu te amo?

Eu também... eu também...

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PARA UM AMOR EM PARIS...

Posted by Clenio on 12:44 in ,

Para D., meu amor estrangeiro

Ele sempre sonhara com um amor assim. Se apaixonar por um estrangeiro, com ar misterioso (para ele, todos os estrangeiros tinham ar misterioso). Um caso de amor avassalador, urgente, com um quê de proibido e impossível. Um romance com data de término, onde cada segundo fosse importante. Uma história sem o peso de cobranças, de ciúmes insensatos, de tédio. Para ele, acostumado com a mesmice de relacionamentos sempre a um passo do previsível, um grande amor precisaria de todos esses elementos. E ele sempre achou, do fundo de seu pessimismo de estimação, que isso jamais aconteceria com ele. Mas eis que ali estava: a sua frente, a poucos centímetros de distância, comendo sushi, estava a pessoa com que ele sonhava desde que teve a noção de seus próprios desejos e objetivos. E essa pessoa, como convinha ao desfecho melancólico de sua trama, estava indo embora.

Haviam se conhecido há cerca de um mês, em uma dessas festas da moda. Foi só um beijo no pescoço e pronto... a magia estava começando. Ele não era do tipo de fazer essas coisas - beijar desconhecidos no pescoço, eu digo - mas algum mecanismo oculto o levou a violentar seus próprios escrúpulos e ele o fez. O fez timidamente, mas o fez. Não sabia que consequências deflagraria um gesto simples mas corajoso - ao menos de sua parte - como aquele. Mas o fez. Esperou um tapa, um soco, uma saraivada de impropérios. Mas nada disso aconteceu. Do beijo no pescoço surgiu um sorriso.Do sorriso, uma conversa. Da conversa, um beijo na boca. Do beijo na boca...

Se encontraram novamente. Ele era francês. De mãe brasileira. E era lindo. Louro, inteligente, com um sotaque de arrepiar. E era cheiroso. E tinha a cultura inútil que sempre é necessária para conversas jogadas fora. E era apaixonante. E sedutor, e sexy. Ficaram juntos. Trocaram figurinhas. Cazuza foi exportado para a França. E mesmo com um sotaque horroroso, o brasileiro lhe telefonou para desejar um "Feliz Natal" em francês. Soou bonitinho.

Menos de um mês. E eles estavam se despedindo. Triste, sim. Mas sem o peso de uma despedida triste. Provavelmente nunca mais irão se encontrar pessoalmente. A tecnologia certamente os ajudará a jamais perderem o contato, mas nunca mais será a mesma coisa. As confidências que trocaram com as pernas enroscadas um no outro nunca mais serão ouvidas. Os beijos delicados que concederam um ao outro jamais serão repetidos. O cheiro um do outro ficarão apenas na memória olfativa... Mas em compensação nunca terão discussões banais, nunca enfrentarão a rotina, não irão se incomodar um com a presença do outro em momentos que a solidão necessita de espaço.

Algo que dura pouco na realidade vive para sempre na memória. E esses poucos dias viverão eternamente dentro daquele coração estragado por filmes românticos e músicas sentimentais. Para todo o sempre, o rosto que viverá em sua recordação será o mesmo que está a sua frente, comendo sushi...

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E AÍ...

Posted by Clenio on 10:31 in


Para ler ouvindo "The promise"(When in Rome)

Para Bruna Morelo

E então ela chegou, como quem nada quer, para ser mais uma entre as centenas de colegas de trabalho. Linda, é verdade, quase destoando do ambiente, fugindo do estereótipo "bonita e burra". E aí, sem me conhecer direito, ela foi ao meu aniversário. E aí, ficamos amigos. E aí começamos a nos falar por msn. E aí ela me viu chorar por amor. E aí resolvemos que íriamos no show do Chico. E fomos. E nessa noite eu dormi na casa dela, conheci a Dorothy (que comeu minha escova de dentes) e descobri que quase já entrei pra família dela (o mundo é realmente muito pequeno).

E então aprofundamos a amizade. E começamos a desbravar a Cidade Baixa em busca de chopps mais baratos e descontos. E bebemos todas. E fomos assistir a "Maria Antonieta", da Sofia Copolla (meio chatinho, mas valeu a companhia). E bebemos mais. E ela espirrou vinho por toda a minha sala, tentando abrir uma garrafa que teimava em não se deixar ser consumida. E começamos a ir todos os sábados dançar sucessos dos anos 80 e encher a cara de caipirinha de morango.

E aí dormíamos, como personagens pobres de Charles Dickens, eu, ela e meu melhor amigo na mesma cama em noites tenebrosamente frias. E aí ouvíamos discos de vinil, de certa forma saudosos dos chiados que eles produzem. E aí jantávamos strogonoff, capeletti ao forno e macarrão a bolonhesa. E aí ela começou a namorar meu melhor amigo e a dupla virou trio (no bom sentido). E aí não cansávamos de ir a festas temáticas em homenagem à Madonna. E aí descobrimos uma música pra nós ("and when you're in doubt, when you're in danger, take a look all around and I will be there..."). E aí levamos nossas mães ao show do Ney Matogrosso. E aí ela me ouvia reclamar da vida e entendia meus mau-humores. E aí eu assistia a suas apresentações de dança e ia comemorar depois.

E aí fomos ao show da Alanis Morissette (e não podia ter sido em melhor companhia). E choramos juntos ouvindo-a cantar. E aí resolvemos que iríamos subir ao palco pra contar uma triste e patética história de amor. E essa triste e patética história de amor fez sucesso (e não podia ter sido com melhor colega de cena). E aí a personagem que ela encarnou voltou a minha vida (e aí sim podia ter sido um pouco diferente, mas é a vida, não??). E aí eu deixei-a trancada na minha casa, sem querer. E aí ela ficou enlouquecida com o trabalho de conclusão. E aí ela resolveu que quer passar um tempo morando no exterior. E aí estou em pânico porque minha vida já está intimamente ligada a dela.

E aí que ela está de aniversário hoje. E aí que ela merece muito mais do que um simples texto. E aí que, mesmo longe (na praia, na rua, na chuva ou na fazenda) ela sempre está perto de mim.

Bru, love you...

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THANK YOU

Posted by Clenio on 21:55 in ,

Sim, é um clichê dos mais batidos. Sim, poetas já o disseram. Mas fazer o que, se é a mais pura verdade? É impossível ser feliz, sozinho, sim. E quando digo isso não faço uma ode ao amor romântico, aos casais em permanente osmose ou àqueles que não conseguem dar um passo sem dizer "te amo" à razão de seu afeto. Reitero a teoria de que nenhum homem é uma ilha porque simplesmente é a mais pura e cristalina verdade. O que mais, além das pessoas que nos rodeiam, é capaz de fazer da nossa vida a eterna bagunça generalizada que ela é?

Sendo assim, obrigado a todas as pessoas que me fazem ser o que eu sou. Obrigado àquela criatura que, chegando do nada, em pleno Carnaval, conseguiu abrir uma brecha em meu muro de auto-proteção para logo em seguida me jogar novamente no fogo da descrença. Agradeço também a quem me fez rir, me iludiu com promessas de felicidade e depois simplesmente chegou à conclusão de que não valia a pena. Vocês foram responsáveis pela epifania que eu já deveria ter tido há muito tempo: quem não me quer simplesmente não me merece.

Meus sinceros agradecimentos àqueles que, sem o saber, fizeram de meus dias muito mais do que um período de 24 horas. Àqueles que sorriram pra mim sem intenções outras a não ser sorrir; àqueles que me indicaram livros que me levaram longe do insosso dia-a-dia; àqueles que me fizeram rir com uma piada ou uma ironia inteligente; ou até mesmo àqueles que, do nada, me deram um abraço caloroso e sincero.

Agradeço a todos que me aplaudiram, me elogiaram, riram das minhas bobagens, choraram com meus dramas, criticaram meus erros, me deram conselhos, beijos, abraços, apertos de mão. E também àqueles que me fizeram chorar de emoção, de raiva, de tristeza, porque nem só de alegrias é feita a existência.

Obrigado às pessoas que me deram a chance de reconhecer meus erros e recomeçar do zero. Àqueles que me deram também a oportunidade de perdoar. E àqueles que comigo almoçaram, jantaram, tomaram cerveja, foram ao cinema, ao teatro, a shows, a festas. Foram momentos inesquecíveis, certamente. Em graus diferentes, mas inesquecíveis.

Muito, muito obrigado aos amigos que fiz, aos que mantive - o que é muito mais difícil e compensador - e aos que perdi. Com todos aprendi e aprender é a nossa função por aqui, tenho mais certeza disso a cada dia. E obrigado, de todo o coração às pessoas que entraram na minha vida pra ficar - e vocês sabem que estou falando de vocês.

Um ano pode ser apenas mais um período estabelecido pra dar ordem às coisas, mas 365 dias é o prazo certo para que possamos permitir que pessoas entrem e saiam de nossas vidas. Umas ficam, outras saem. Umas marcam, outras são como rajadas de vento. Algumas nos dão alegria, outras partem nosso coração. Mas agradecer a oportunidade de conhecê-las e permitir a elas que nos transformem é para ser devidamente agradecido. Portanto, muito obrigado! E que muitas outras apareçam nos próximos doze meses.

PS - Cristiano e Fernando, meus dois primeiros grandes amigos do ano... este post é pra vocês. Obrigado pela amizade e pelo carinho.

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POUCO AMOR NÃO É AMOR - UMA HOMENAGEM A NELSON RODRIGUES

Posted by Clenio on 22:41 in

Em 1996 eu fazia a faculdade de Jornalismo na PUC e estava absolutamente obcecado por Nelson Rodrigues, a quem lia desde tenros 12 anos quando descobri abismado a peça "Álbum de família". Tudo era Nelson naquela metade dos anos 90, graças à magistral biografia escrita por Ruy Castro ("O anjo pornográfico"), à minissérie "Engraçadinha" e aos episódios semanais de "A vida como ela é" veiculados no "Fantástico", aos domingos, pra toda a família assistir enquanto jantava. Ou seja, naquela metade dos anos 90 o outora maldito Nelson Rodrigues já era palatável e eu não era o único a estar acometido da febre que era sua obra. Minha obsessão só era comparada com a de duas amigas queridas, Márcia Messa e Beatriz Pinto Ribeiro, que, junto comigo, começaram a escrever contos ao estilo de Nelson utilizando como personagens nossas próprias pessoas ao lado de colegas e professores. Ríamos aos montes com nossos absurdos e raramente nossa obra saía do trio.

Em 2001, cinco anos depois, portanto, escolhi algumas das histórias e uni-as em um texto teatral, mais pra me testar como autor do que com reais intenções de encená-las. A peça foi lida, elogiada e devidamente arquivada em uma gaveta. E lá ficaria se, em 2009 não fosse redescoberta e, com a maior cara-de-pau do mundo eu não resolvesse que ela se tornaria minha segunda experiência nos palcos. Surgia então "Pouco amor não é amor - uma homenagem a Nelson Rodrigues", que teve três apresentações no auditório da Livraria Cultura Porto Alegre, em dezembro/09 e janeiro/10.

Logicamente o texto não foi montado tal e qual foi escrito. Problemas cronológicos e logísticos impediram que as quatro histórias que se revezavam no papel fossem devidamente apresentadas - e a cada novo projeto mais e mais se aprende sobre o ofício de teatrar - e no final apenas 2 tramas encontraram lugar nos olhos do público: a busca de Jurema pela verdade sobre o passado de seu noivo Afrânio e a trágica história do casamento de Herculano e Margô. Duas histórias que ocuparam 70 minutos da vida de uma plateia que se dividiu entre as gargalhadas irônicas da estreia e o silêncio tenso das últimas sessões.



"Pouco amor não é amor" não seria possível não fosse o esforço de uma equipe que se dedicou e muito ao trabalho. Ensaios em plena época de Natal, troca de horários, de folgas, problemas domésticos deixados de lado... Nunca fazer teatro foi tão difícil pra alguns e tão estressante pra outros... Mas o fato é que nosso filho nasceu. E assim como acontece com o parto quando a dor logo é esquecida quando se vê o rebento, tenho certeza de que o sacrifício foi válido no momento em que os aplausos surgiram e os elogios vieram. E certamente a vontade de continuar nesse mundo mágico do teatro se firmou em todos.

Obrigado a todos e vou nomear um por um: Álvaro, um Arandir/Herculano assustador; Dani, uma revelação absoluta e uma profissional exemplar; Fernanda, uma Margô sexy e uma atriz que teve que ser convencida a subir ao palco; Katia, que deu a volta em problemas particulares pra mostrar que compromisso é coisa séria; Lizandra, uma Alaíde impecável; Leo, um ator criativo até demais às vezes (hehehe) e Mely, uma Myrna sob medida. Agradecimentos também a Samuca, Ed, Fernanda Copetti, Samanta e Michelle pelo apoio nos bastidores.

"Pouco amor não é amor" ainda não tem novas apresentações marcadas, mas certamente ficará na lembrança daqueles que participaram da empreitada.

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