2

COINCIDÊNCIAS DO AMOR

Posted by Clenio on 11:50 in
Em 2010 estrearam no Brasil quatro filmes com Jennifer Aniston. Desses quatro, três tinham a palavra amor no título, e com exceção do sombrio "O amor pede passagem" (que apesar de ter sido vendido erroneamente como tal é bem mais um drama), todos eram comédias românticas. Tudo bem que Aniston é bonita, carismática e tem um ótimo timing cômico como já bem provaram as dez vitoriosas temporadas da série "Friends", mas é chegada a hora de ela partir para novos desafios. Uma prova de que seu poder de fogo anda em baixa foi o fracasso de bilheteria de seu "Coincidências do amor", que não rendeu nem 30 milhões de dólares nos cinemas americanos. Apesar de não ser nenhuma obra-prima da sétima arte, no entanto, o filme, dirigido por Josh Gordon e Will Speck merecia melhor sorte. É simpático, agradável e, apesar de ter o nome de Aniston como destaque no material promocional é, na verdade, um show do ótimo Jason Bateman.

Acostumado a ser coadjuvante de luxo - em filmes como "Amor sem escalas" e "Juno" - aqui Bateman é o verdadeiro protagonista, conseguindo até mesmo tornar simpático um cara com uma personalidade bastante difícil. Ele vive Wally Mars, um analista financeiro um tanto neurótico e sentimentalmente reprimido que, apesar de apaixonado pela melhor amiga, Kassie (papel de Aniston), nunca declarou seu amor. Quando ela resolve ter um filho através de inseminação artificial e escolhe o bonitão Roland (Patrick Wilson) para cumprir tal missão, Wally entra em crise e, bêbado, troca o material do rapagão pelo seu, esquecendo completamente do fato graças à amnésia alcóolica. Sete anos mais tarde, quando Kassie retorna a Nova York acompanhada do filho Sebastian (Thomas Robinson), Wally passa a perceber semelhanças inconfundíveis entre ele e o garoto e, ao descobrir que ele é seu filho, resolve dizer a verdade à mãe do menino, que está se envolvendo romanticamente com o suposto doador de esperma.

"Coincidências do amor" não acrescenta muito ao gênero, sendo inclusive um tanto superficial no quesito romance. Inspirado em um conto de Jeffrey Eugenides - autor de "As virgens suicidas" - o filme cresce, porém, quando concentra-se na relação entre Wally e Sebastian. A extraordinária química entre Bateman e o menino Thomas Robinson (que rouba todas as cenas em que aparece) é o maior destaque da produção, e pode até mesmo emocionar aos mais sensíveis. Se a história de amor entre os protagonistas adultos não empolga e o clímax deixa a desejar, o relacionamento entre pai e filho ganha o público e transforma o filme em um passatempo bastante agradável.

Se não houver muitas expectativas, "Coincidências do amor" pode surpreender. E Aniston está linda.
 
Mais cinema em http://www.clenio-umfilmepordia-blogspot.com/ e http://www.cinematotal.com.br/

|
3

BEATLES - HOJE E SEMPRE

Posted by Clenio on 21:26 in
Não sei exatamente o porquê – talvez a proximidade do aniversário de morte de John Lennon ou quem sabe a nostalgia inerente a qualquer final de ano – mas sempre que dezembro ameaça chegar eu entro em uma espécie de beatlemania. Não que eu não ouça Beatles o ano todo – em todas as suas variações, diga-se de passagem – mas minha paixão pelo quarteto de Liverpool fica bem acentuada nos dois últimos meses de cada ano. Talvez Freud explique esse gosto musical sazonal em alguns de seus estudos, mas na verdade nem preciso saber as razões psicológicas e/ou sentimentais de tal fenômeno. O fato simples e cru é que a banda formada por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr é sensacional. Seja você fã de rockinhos açucarados, baladas arrasadoras ou experimentações musicais, sempre terá alguma canção dos Beatles que vai agradar.

Tá apaixonado? Ouça “The long and winding road”. Tá desiludido? Quem sabe uma audição de “Let it be” ajude. Quer sacudir o esqueleto? Tente resistir a ”Twist and shout” . Precisa de uma declaração de amor pra fazer pra namorada? Peça licença a Mr.Harrison para usar “Something”. Quer misturar melodias fortes com letras inteligentes e até brincadeiras musicais aparentemente sem sentido? Escute o ”White album” do início ao fim – até Charles Manson recomendaria o mesmo. Ou melhor, quer saber o que é música pop de qualidade? Vá a uma loja de CDS e compre toda a discografia da banda – isso se você não tiver nem mesmo uma coletânea, o que convenhamos, seria tão vergonhoso quanto ter um cd do Calypso.

Na verdade, mais estranho que a minha mania de ouvir Beatles com mais afinco quando dezembro chega é saber que tem gente que não gosta de ouví-los em nenhuma circunstância. Isso acho que nem mesmo Freud consegue explicar…

 POST ORIGINALMENTE PUBLICADO NO BLOG DA CULTURA EM 18/11/2008.

|
2

ENTÃO É NATAL!

Posted by Clenio on 20:50 in
Dizem que por essa época o espírito natalino invade os seres e que é o período do ano em que todos estamos mais propensos a esquecer mágoas, a perdoar erros, a fazer um balanço positivo dos últimos doze meses, blá blá blá... No entanto, podem me chamar de mau-humorado ou cético ou descrente ou o que for, mas eu particularmente odeio esta época do ano. Natal pra mim é um dos períodos mais chatos, tristes, hipócritas e cansativos de qualquer ano. Talvez por não acreditar em nada relativo à religião, sobra pra mim apenas a constatação de meses - sim, meses, pois desde outubro não se fala em outra coisa - em que o desespero pelo consumismo atinge seu ápice. É a época em que familiares que não se suportam fingem uma união pacífica; onde as músicas mais insuportáveis do mundo tocam sem parar nos lugares mais absurdos (Simone, oi...); onde dar um passo sequer em um shopping-center torna-se um desafio de maratonista (e quem trabalha em um sabe o que eu quero dizer) e onde a televisão consegue reunir sua pior programação (Roberto Carlos até vai, mas Fábio Jr. e Fiuk???????)

Quando eu era criança eu gostava de Natal - aliás, creio que é uma festa infantil, já que apenas as crianças ainda se iludem com a felicidade normalmente artificial que circunda a data. Lembro que era uma das raras ocasiões do ano em que me reunia com meus primos distantes, em que encontrava a família toda - que ainda estava inteira e não dispersa por razões melancólicas. Conforme o tempo foi passando, porém, Natal tornou-se um peso. A obrigação do compromisso social, dos sorrisos falsos, do bom-humor cristão, me enojam a ponto de quase vomitar. Sonho meu era passar a noite do dia 24 assistindo a um bom filme ou simplesmente dormindo o sono dos justos, sem me preocupar em agradar quem quer que fosse. Mas fazer o que se uma família me espera?

Talvez se minha vida fosse diferente eu gostasse um pouco mais de Natal. Talvez não. Talvez se eu fosse menos ateu e mais espiritualizado eu percebesse o essencial que, dizem, é invisível aos olhos. Talvez não. E talvez se eu não tivesse com quem passar a maldita noite de Natal eu sentisse falta e desejasse voltar no tempo e recuperar meu tempo de criança que se empolgava com brinquedos e pacotes coloridos. Mas hoje, em 2010, Natal pra mim é uma das piores noites do ano.

Mas, mesmo assim, desejo um Feliz Natal a todos os meus leitores, àqueles que dividem comigo esse sentimento de tédio e àqueles que embarcam felizes e emocionados no trenó do Papai Noel. Obrigado a todos pelas visitas e pelos comentários. Vocês fizeram meu ano bem mais interessante do que os anteriores.

|
5

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE - PARTE 1

Posted by Clenio on 02:45 in
Antes de mais nada,  "Harry Potter" é mais do que simplesmente uma coleção de livros ou uma série de filmes. É uma marca das mais poderosas, capaz de lucros incalculáveis e com fãs tão radicais quanto religiosos islâmicos. Por esse motivo, julgar um de seus filmes isoladamente é trabalho hercúleo e inglório. Cada um de seus capítulos cinematográficos tem importância fundamental para o desenvolvimento da trama criada pela escritora inglesa J.K. Rowling. Surpreendentemente, a Warner - detentora dos direitos dos livros para o cinema - nunca perdeu o controle da situação, lançando adaptações que raramente decepcionaram os fiéis leitores - ao menos nunca houve um levante contra aqueles que tocaram no material.

Amadurecendo junto com as personagens - exatamente como acontece nos livros e com seus leitores - a série de filmes foi melhorando sensivelmente a cada lançamento e uma prova inconteste dessa afirmação é "Harry Potter e as relíquias da morte - Parte I", que dá início ao "grand finale"  imaginado por Rowling e aguardando ansiosamente por qualquer um que tenha adentrado o universo do menino bruxo que vai marcar indelevelmente a carreira do ator Daniel Radcliffe. Dirigido por Peter Yates - que também comandou "A ordem da Fênix" e "O enigma do príncipe" - essa primeira parte do capítulo final (dividido em dois por razões de fidelidade ao livro e também comerciais, obviamente) é, sem dúvida, a melhor de todas. Deixando de lado as piadas corriqueiras e as cenas de ação quase infantis dos primeiros filmes, Yates mergulha sem medo em uma escuridão sem fim, com cenas de arrepiar e com um vilão ainda mais apavorante (interpretado pelo sensacional Ralph Fiennes, o Voldemort cinematográfico é possivelmente tão assustador quanto nos livros).

É totalmente desaconselhável assistir-se a "Harry Potter e as relíquias da morte - Parte I" sem ter assistido aos filmes anteriores. O roteiro de Steve Kloves não perde tempo explicando situações passadas, partindo para a ação desde a primeira cena. Sem tempo a perder, a trama se desenrola com um ritmo invejável - são quase duas horas e meia que passam voando - e com sequências dirigidas com competência ímpar. O trio de atores centrais demonstra uma maturidade surpreendente, não fazendo feio em cenas mais emocionais (como acontece em um dos momentos finais do longa), e o elenco coadjuvante, formado por atores britânicos que dispensam comentários se diverte a olhos vistos (em especial Helena Bonham Carter, dona de uma das melhores cenas). Deixando de lado a ideia de que está fazendo um filme infantil - afinal os fãs de Harry cresceram como ele - Yates não abre mão de cenas de grande tensão e as dirige com elegância: é de destacar também a excelência da fotografia de Eduardo Serra, que usa e abusa da escuridão como metáfora para o mal que circunda as personagens.

Dono dos efeitos visuais mais caprichados da série, o capítulo 7 das aventuras de Harry Potter acerta em cheio, mais uma vez. O difícil é esperar até julho do ano que vem para testemunhar seu epílogo. Haja ansiedade!

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
2

O GAROTO DE LIVERPOOL

Posted by Clenio on 19:51 in
É obrigatório para qualquer fã dos Beatles assistir a "O garoto de Liverpool". Ao focalizar a juventude de John Lennon e suas relações problemáticas com suas duas mães - a verdadeira e a de criação - o filme da artista plástica Sam Taylor-Wood conta uma história pouco conhecida de um dos músicos mais importantes da história do rock - uma história de partir o coração, que apenas os mais detalhistas seguidores da banda conheciam com detalhes. Sensível e delicada, a diretora realizou seu primeiro longa-metragem sem apelar para as armadilhas melodramáticas nas quais poderia facilmente cair. Sorte do público, que tem acesso a um pequeno grande filme que teve um lançamento discreto nos cinemas brasileiros.

Quando o filme começa, Lennon já é um adolescente (vivido pelo ótimo Aaron Johnson, que se não chega a ser idêntico ao verdadeiro Beatle ao menos é um ator bastante convincente). Depois da repentina morte de seu tio - com quem ele mora desde a infância - ele reencontra sua mãe, Julia (a excelente Anne-Marie Duff), que o abandonara aos cinco anos de idade aos cuidados de sua irmã, Mimi (Kristin Scott-Thomas, que nem precisa falar muito para transmitir todas as emoções da personagem). Reaproximando-se dela, Lennon inicia um gradativo afastamento de sua tia, uma mulher de modos severos mas completamente dedicada ao sobrinho. Enquanto inicia sua carreira como músico, ele divide-se entre as duas irmãs, tentando juntar todas as peças de seu passado.

Sem concentrar-se na carreira musical de Lennon, o filme de Taylor-Wood prefere dedicar-se às relações inter-pessoais do futuro ídolo, que seriam fundamentais em sua obra (a bela canção "Mother", por exemplo, encerra o filme com chave de ouro). Sem jamais citar o nome Beatles - e precisa?? - o roteiro, inspirado no livro de memórias de Julia Baird (irmã de John), mostra o início da amizade de Lennon e Paul McCartney (interpretado por Thomas Sangster, o menininho apaixonado de "Simplesmente amor"), seus problemas escolares e até mesmo suas crises de raiva. Humanizando ao extremo seu protagonista, a cineasta (que, aos 40 anos casou-se com seu astro de 20) conta uma história de alcance universal: mesmo que depois do final do filme John Lennon não tivesse ido para a Alemanha iniciar a fulgurante carreira dos Beatles (tema do ótimo "Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool) e se tornado um dos maiores ídolos da história da música, sua história seria interessante do mesmo jeito. Tudo graças ao bom gosto extremo da produção.

Mesmo que a música seja apenas uma coadjuvante do filme, a trilha sonora de "O garoto de Liverpool" não cai no clichê de preencher suas cenas com as canções dos Beatles - que ainda não existiam na época retratada. Se por um lado talvez isso frustre os fãs da banda, por outro reitera a inteligência da diretora, que escolheu a dedo músicas que influenciaram diretamente a obra do protagonista - estão presentes Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Buddy Holly, Little Richard e Chuck Berry, entre outros. Ou seja, o filme é uma festa para os ouvidos, assim como para os olhos e o coração.

"O garoto de Liverpool" é um filme caloroso, bem realizado e que encontra em seus atores as encarnações perfeitas de suas personagens. Para figurar nas listas das cinebiografias indispensáveis.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
4

DEZ LIVROS PREFERIDOS

Posted by Clenio on 22:00 in
Como leitor voraz desde a minha tenra infância, sou obrigado a considerar a literatura como uma das maiores influências sobre o meu caráter. Pensando sobre o assunto, resolvi fazer uma lista com os dez livros que mais marcaram a minha vida, por razões as mais diversas. Tirando da lista obras técnicas (peças de teatro e roteiro incluídas nessa exclusão), ainda assim fiquei bastante dividido, afinal lá se vão décadas de leitura (e resolvi excluir da lista também livros infantis, com o perdão de Monteiro Lobato e José Mauro de Vasconcellos, que muito me fizeram companhia na aurora da minha vida, na minha infância querida que os anos não trazem mais...) Alguns autores se repetiriam, e nesse caso, escolhi a obra que mais me fala ao coração e ao cérebro. Não posso me furtar a dizer que já li coisas ruins que me agradaram em seu momento (Sidney Sheldon, por exemplo), mas que hoje fazem parte apenas de uma memória afetiva. Sem mais delongas, vamos aos escolhidos (postados em ordem alfabética... ordená-los por preferência jamais me seria possível).

1 - À LESTE DO EDEN (John Steinbeck) - A recriação da história de Caim e Abel em uma fazenda norte-americana é uma das mais poderosas sagas familiares já escritas. Dividido em duas partes que não deixam nada a desejar uma à outra, teve sua segunda metade adaptada para o cinema em 1955, com direção de Elia Kazan e estrelada por James Dean. Reunião de talentos inegáveis. Impossível largar a leitura.

2 - O ANJO PORNOGRÁFICO (Ruy Castro) - Um dos maiores biógrafos brasileiros também escreveu a genial biografia de Garrincha, "Estrela solitária". Mas, ao contar a trajetória do genial Nelson Rodrigues, do nascimento em Pernambuco à morte no Rio de Janeiro, ele não apenas dissecou a obra do dramaturgo, escritor, jornalista e polemista: ele escreveu um livro de não-ficção que se lê como o melhor dos romances. Já li umas duzentas vezes. E sempre me apaixono.

3 - ASSASSINATO NO ORIENT EXPRESS (Agatha Christie) - A dama inglesa do mistério me fascinou desde o primeiro encontro. Inteligente, criativa e dona de um senso de humor afiado (além de criadora do infame Hercule Poirot), Agatha Christie escreveu centenas de livros, mas nenhum tão surpreendente, envolvente e inacreditável quanto este, todo passado em uma viagem de trem: se nunca leu, tente adivinhar o final. É um desafio!

4 - UMA CASA NO FIM DO MUNDO (Michael Cunningham) - O autor da obra-prima "As horas" tem outros dois romances imperdíveis: "Laços de sangue" e este drama familiar arrebatador, que apresenta personagens tão reais que chega a doer. Dono de uma prosa poética e vigorosa, Cunningham fez apenas uma coisa errada com sua história: adaptou-a para o cinema, em um filme anêmico que não chega aos pés do original literário. Além de tudo, tem uma trama que empresta romantismo ao tema da "família alternativa"...

5 - O CONTINENTE (Érico Veríssimo) - Não é bairrismo. É porque realmente Érico Veríssimo escreveu uma das maiores obras da literatura mundial. O começo da saga da família Terra Cambará é também uma metáfora pouco disfarçada do início do Rio Grande do Sul, com sua miscigenação, seus costumes arraigados e seus conceitos de honra bem definidos em personagens icônicos como Ana Terra e Capitão Rodrigo. Para ler e reler sempre!

6 - DOM CASMURRO (Machado de Assis) - Qualquer leitor que tem coragem de maldizer o maior autor brasileiro de todos os tempos provavelmente foi obrigado a encará-lo no momento errado da vida. Autor de coisas preciosas como "Memórias póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis criou, em "Dom Casmurro", sua obra máxima, um complexo estudo sobre obsessão, ciúme e fidelidade, com uma protagonista que muitos escritores apenas sonham em criar: a bela Capitu, com seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada.

7 - A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (Milan Kundera) - Filosofia na veia, disfarçada de história de amor: assim o tcheco Milan Kundera conquistou o mundo nos anos 80. Ao versar sobre o estranho relacionamento entre o médico Tomas e a fotógrafa Tereza, ele discorreu sobre o verdadeiro amor, sobre a solidão, sobre política e sobre sexo com a mesma fluência. Marcou uma geração inteira com frases lapidares e insights geniais sobre a vida a dois, a três, a quatro...

8 - MANSON (Vincent Bugliosi) - Em 1969, um grupo de hippies que se auto-chamava de "A família" assassinou violentamente a atriz Sharon Tate (esposa de Roman Polanski, grávida de oito meses), assim como um casal de meia-idade. Influenciados por um líder de nome Charles Manson - que se proclamava a reencarnação de Jesus Cristo - eles foram à júri popular, em um dos julgamentos mais famosos da história dos EUA. O promotor do caso, Vincent Bugliosi, contou com detalhes os homicídios, a investigação e o processo criminal em um livro absolutamente fascinante e aterrador. Uma mistura de sangue, drogas e Beatles que está esgotado no Brasil, mas que merece uma nova edição. Impecável.

9 - O RETRATO DE DORIAN GRAY (Oscar Wilde) - Dono de uma verve inigualável, o irlandês Oscar Wilde adorava destilar seu veneno contra a burguesia inglesa - que pagou tudo o jogando na prisão por ser homossexual. Sua obra-prima continua impressionante até os dias de hoje: Dorian Gray é um jovem cuja beleza estonteante jamais envelhece (ao contrário de um retrato seu, pintado por um amigo, que se deteriora a cada sofrimento que o rapaz causa a outras pessoas). Uma fábula atemporal, escrita com inteligência e cinismo. Em tempos de culto cada vez mais exagerado à beleza, não deixa de ser obrigatório.

10 - OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER (Goethe) - Tudo bem que deflagrou uma onda de suicídios adolescentes à época de seu lançamento, mas o livro do alemão Johann Wolfgang von Goethe é mais do que simplesmente um livro-símbolo da melancolia e do amor não correspondido. É uma poesia em prosa, das mais belas e sensíveis já publicadas.

|
3

DEMÔNIO

Posted by Clenio on 23:02 in
Depois que virou praticamente piada em Hollywood graças a filmes como "Fim dos tempos" e "O último mestre do ar", o cineasta M. Night Shyamalan precisa urgentemente se reinventar. Enquanto seu público fiel espera seu renascimento comercial e artístico, ele segue uma carreira de produtor. Um de seus filmes nessa função é justamente este "Demônio", que fez um sucesso bastante razoável nos EUA: ao custo de apenas 10 milhões de dólares, ele recuperou o orçamento em seu fim-de-semana de estreia e já contabiliza uma bilheteria de mais 30 milhões. Primeira parte de uma planejada trilogia chamada "The night chronicles" - que pretende utilizar elementos sobrenaturais dentro de perímetros urbanos - o filme de John Erick Dowdle (diretor do remake americano de "[REC]") é interessante o bastante para justificar seu êxito e fazer o público aguardar as novas estreias da série.

A história de "Demônio" lembra um pouco as tramas de Stephen King e se beneficia de não apelar para efeitos visuais, monstros ou maquiagem exagerada. O protagonista é Bowden (o ótimo Chris Messina, de "Julie & Julia"), um policial da Filadélfia que tenta recuperar-se da trágica morte da família em um acidente de carro, cinco anos antes. Enquanto investiga um suicídio em um luxuoso prédio comercial da cidade, ele é chamado com urgência para ajudar no resgate de cinco pessoas que ficaram presas em um elevador do mesmo edifício. Enquanto não conseguem ser resgatadas, as cinco pessoas tem que lidar com estranhos acontecimentos dentro do elevador. Um  mecânico, uma senhora de idade, um segurança terceirizado, um executivo e uma bela e requintada jovem começam a morrer misteriosa e violentamente, praticamente frente às câmeras de segurança e um dos guardas do prédio, fervorosamente religioso, é o único com uma explicação para os acontecimentos: segundo ele, um dos cinco presos no elevador é o demônio disfarçado, que veio à Terra para buscar os demais.

Sem exigir mais do seu público do que simplesmente atenção e um pouco de credulidade, o roteiro enxuto de Brian Nelson utiliza todos os clichês do gênero a seu favor - algo que Shyamalan faz como poucos. O uso da cor vermelha, característica sua, se faz presente em elementos visuais das personagens, e o uso inteligente do som também colabora na tensão, nunca exagerada e usada na medida certa. E contar com Chris Messina no elenco não atrapalha em nada, muito pelo contrário: é Messina quem transmite humanidade ao filme, em uma interpretação que não lhe ajudará em cerimônias de premiação, mas que comprova o seu status de promessa (e currículo ele tem: além de "Julie & Julia", ele fez parte da última temporada da inesquecível "A sete palmos" e trabalhou com Woody Allen em "Vicky Cristina Barcelona").

"Demônio" não irá mudar o rumo que o gênero suspense vem seguindo há um bom tempo. Mas cumpre o que promete e poupa o espectador de um final constrangedor - coisa que muitos de seus congêneres vem fazendo. É um bom programa para quem quer experimentar um pouco de tensão.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
3

A REDE SOCIAL

Posted by Clenio on 22:05 in
Primeiro a questão fundamental: qual a relevância em se fazer um filme sobre o criador do Facebook? Depois a questão estética: o quão chato poderia ser um filme sobre um nerd rejeitado pela namorada que se transforma em bilionário ao criar um site de relacionamentos? Pois então vamos às respostas: com mais de 500 milhões de usuários, o Facebook é o mais acessado site do mundo e no mundo globalizado em que vivemos, negar-se a aceitar sua existência ou importância é fechar os olhos a uma realidade evidente. E segundo: nas mãos de David Fincher, que já dirigiu obras-primas como "Seven" e "Zodíaco", a história de Mark Zuckerberg transformou-se em um empolgante thriller, com sérias possibilidades de entrar como forte candidato ao Oscar 2011.

Baseado no livro de Ben Mezrich, o roteiro de Aaron Sorkin começa mostrando como, depois de uma briga com a namorada, e com a ajuda do melhor amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield, o novo Homem-aranha). o jovem estudante de Harvard Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) tem a ideia de criar um site classificando a beleza das alunas da universidade. Chamando a atenção pelo talento, ele é convidado por dois gêmeos, alunos mais graduados (vividos por Armie Hammer) para criar um website para a universidade. Depois de um tempo, em que não apresenta nenhuma ideia aos irmãos, ele surge com o"The facebook" e, conforme vai ganhando fama e dinheiro - através da ajuda do fundador do Napster, Sean Parker (Justin Timberlake) - ele vai arrumando brigas e processos: não só os poderosos irmãos Winklevoss os colocam como réu, mas também Eduardo. O filme, contado em flashbacks, conta como ele chegou aos tribunais.

Narrado de forma não exatamente convencional - para o que colabora a estupenda edição - "A rede social" tira proveito da inteligência do roteiro e jamais se prende à tentação de ser apenas mais uma cinebiografia corriqueira - mesmo porque seu protagonista não é o que se pode chamar de mega-astro. Na interpretação contida mas raivosa de Jesse Eisenberg (demonstrando uma maturidade surpreendente), Zuckerberg é um ser humano cheio de dúvidas, raivas e inseguranças, como qualquer um - com a diferença de ser o mais jovem bilionário do mundo. O senso de humor injetado por Aaron Sorkin em sua história serve como um alívio perfeito para uma trama de sucesso e ambição contada com agilidade e ironia. Até mesmo quem não tem a menor noção de informática fica hipnotizado com o filme de David Fincher, um diretor dos mais criativos e originais de sua geração.

Sem cair no maniqueísmo tão comum a este tipo de produções, Fincher não hesita em explicitar os defeitos de seu protagonista, mas tampouco o apresenta como vilão. Mesmo que não seja um exemplo de simpatia e carisma, Zuckerberg conquista a plateia com seu jeito reservado e quase arrogante e essa compaixão da audiência por ele - no fundo um rapaz solitário e sem traquejo social - é o grande trunfo do filme de Fincher, que aqui comprova seu imenso talento - e pode lhe valer um Oscar. Aliás, a Academia precisa também reconhecer outras qualidades do filme: seu roteiro, sua edição, sua trilha sonora são impecáveis, assim como as atuações dos dois atores centrais. Jesse Eisenberg entrega uma atuação impactante, que não se deixava entrever em seus filmes anteriores - dentre os quais o mais conhecido é "Zumbilândia". E Andrew Garfield, que irá substituir Tobey Maguire na nova franquia do Homem-aranha não poderia ter um cartão de visitas mais memorável em sua carreira.

"A rede social" é um filme que merece ser visto e revisto. É mais uma prova de que, com um bom diretor, até mesmo a vida de um nerd pode ser interessante...

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
4

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS

Posted by Clenio on 21:02 in
Quando quer, Woody Allen sabe ser sombrio e pessimista. Depois que flertou com o final feliz em seu "Tudo pode dar certo" ele volta a conversar com a falta de esperança em "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", no qual ele utiliza novamente a ironia e as armadilhas do destino para contar uma história sobre gente normal presa a seus próprios problemas amorosos/profissionais/sexuais. Lembra bastante "Crimes e pecados" e "Match point", dois de seus melhores trabalhos e, se não chega ao nível deles, fica bastante perto.

O filme acompanha a história de várias personagens que se cruzam por laços familiares. A primeira a ser apresentada é Helena (a extraordinária Gemma Jones), uma dona-de-casa que vê sua vida devastada ao ser abandonada pelo marido, Alfie (Anthony Hopkins), que resolve viver a vida depois dos sessenta anos. Perdida e sem rumo, ela procura uma vidente, Cristal (Pauline Collins), que lhe garante que ela irá encontrar um novo amor, assim como aconteceu com seu ex-marido, que casou-se com uma ex-prostituta, Charmaine (a exagerada Lucy Punch). A filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts exercitando um belo sotaque britânico) começa a trabalhar na galeria de arte do sedutor Greg (Antonio Banderas) e sente-se atraída por ele, mesmo porque seu casamento também está em crise: seu marido, Roy (Josh Brolin), que abandonou a Medicina para ser escritor, está com um problema de criatividade e sente-se tentado ao adultério quando passa a espionar a vizinha da frente, a bela Dia (Freida Pinto).

Essa ciranda de adultério, desejos reprimidos e busca desenfreada pela realização pessoal é contada de forma sóbria por um dos roteiros mais interessantes de Allen dos últimos anos. Não há muito humor - ao menos um humor óbvio - e o cineasta mantém-se neutro em relação aos atos de suas personagens. Como em seus melhores filmes, a imprevisibilidade da trama é um aliado poderoso, deixando a plateia sempre em suspenso, aguardando os desvios de sua história. E mais uma vez a escalação certeira do elenco merece um capítulo à parte. Naomi Watts e Josh Brolin estão em perfeita sintonia como um casal à beira da separação; Anthony Hopkins está à vontade em um papel bastante diferente dos que costuma representar e Gemma Jones rouba a cena como a desnorteada Helena, uma personagem crucial que ela segura com uma firmeza que mereceria uma indicação ao Oscar de coadjuvante.

Ao citar "Macbeth", de Shakespeare, em seu prólogo - que diz que a vida é feita de som e fúria e que não quer dizer nada - Woody Allen dá o tom amargo de seu novo e belo filme. Nem mesmo o final em aberto consegue estragá-lo, muito pelo contrário, o reafirma como um dos mais interessantes títulos de sua digna filmografia.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
2

HANDS CLEAN

Posted by Clenio on 18:01 in ,
Ok, desisto de você. Desisto de tentar te fazer entender o quanto te amo, ou o quanto poderíamos ser felizes juntos se a sua obsessão pela infelicidade não fosse maior do que sua vontade de amar e ser amado. Desisto de procurar te fazer ver a vida e a você mesmo através dos meus olhos apaixonados. Apaixonados, sim, quem há de discordar disso se dos meandros labirintícos do meu coração só quem sabe sou eu? Me apaixonei por você, por sua voz, por seu jeito desprotegido disfarçado sob uma casca de tristeza e dor. Me apaixonei pelos planos que fiz com você, pela vontade que tive de mudar minha vida por sua causa, pelos momentos de alegria que te proporcionei - porque eu sei que fiz isso. Me apaixonei até pelo fato de ter visto, em você, a ressurreição de um sentimento que eu considerava morto e enterrado. E de uma coisa estou certo: dessa vez eu não fiz nada errado.

Tenho minhas mãos limpas de qualquer mentira, traição, jogos sujos. Elas estão absolutamente limpas de qualquer dou-não-dou, faço-não-faço, quero-não-quero. Eu sempre quis, desde o momento em que as coisas começaram a sair do controle dos nossos sentimentos. Eu nunca tive medo, nunca tive dúvidas, nunca tive nada além de amor, carinho, amizade e desejo. Estou com as mãos totalmente limpas de culpa, de remorsos, e até mesmo de rancor. Se eu pude ser tão ingênuo de acreditar em ser feliz a culpa não é sua. Disso sim, eu me culpo. Isso não pode ser lavado das minhas mãos, mas terei que aprender a lidar com isso.

Terei também que aprender a lidar comigo mesmo. Achar novas e mais inteligentes maneiras de ser feliz. Aprender a buscar em mim e não em outras pessoas - muitas vezes ainda mais perdidas do que eu mesmo - o caminho para suportar uma existência que na maioria das vezes é frustrante e injusta. Eu tomarei as rédeas da minha vida, como já deveria ter feito há muito. É uma pena que tenha que ter sido mais essa latejante dor a me obrigar a isso, mas viver não tem mapa, não tem ensaio... e nem muito menos um final feliz completo, de novela das seis.

Tenho as mãos limpas, assim como minha consciência. Todas as chances que poderia ter dado, eu dei. Todas as oportunidades e argumentos lhe foram oferecidos. Lutei, batalhei, até o bagaço. Admito que cansei! O amor ficará? Quem sabe? Se for amor, como disse Nelson Rodrigues, jamais acabará. Só o tempo pode dizer com certeza. Tudo está limpo em mim, agora. Minhas mãos, minha consciência, meu coração vagabundo que quis guardar você em mim... Sobra entre nós a admiração, o carinho e a certeza de que não foi por acaso que nos esbarramos por aí...

PS - Como sou brega, deixo a letra de uma música da Jovem Guarda como epílogo. Sim, eu conheço Jovem Guarda e sim, eu ouvi Wanderléa ontem e a letra me disse tudo que eu precisava ouvir. "Eu já nem sei se gosto de você, ou se gostei. Você me magoou e eu nem liguei e nem senti vontade de chorar... Meu coração não sente mais nenhuma emoção, meus olhos já não vêem com paixão aquele seu jeitinho de me olhar... Você não foi aquele que eu queria para mim, o amor que eu esperava não ter fim e que parece agora.. se acabou. Só resta então dizer adeus sem medo de chorar pois a saudade não vai maltratar um coração que não tem mais amor.."

|
2

AS CENTENÁRIAS

Posted by Clenio on 22:38 in
Tive a oportunidade, ontem, de assistir, da primeira fila, duas das minhas atrizes preferidas, Marieta Severo e Andréa Beltrão. Juntas no palco, elas encantaram a plateia que lotava o Teatro Bourbon Country com a peça "As centenárias", escrita por Newton Moreno especialmente para elas. Ao contrário de muitas peças de teatro do eixo Rio-São Paulo que lotam os teatros devido à presença de atores globais no elenco, aqui a coisa é bem diferente. Atrizes espetaculares que são, Marieta e Andréa comprovam, sem espaço para dúvidas, que o que teatro bom é teatro feito por quem entende do riscado.

Dirigida pelo criativo Aderbal Freire Filho, "As centenárias" conta a história de duas carpideiras do sertão nordestino que, como o título sugere, já passaram dos cem anos de idade. Sua longevidade advém do fato de terem enganado a morte muito tempo antes, o que as faz fugir de um novo encontro com "a mulher da foice". Enquanto aguardam o desenlace de um falecimento em vias de acontecer, Socorro (Marieta) e Zaninha (Andréa) bebem pinga e relembram toda a sua trajetória em chorar pela morte de desconhecidos em troca de comida e um pouco de dinheiro. Suas lembranças são repletas de acontecimentos surreais e hilariantes, como um encontro com Lampião e o velório de uma mulher assassinada pelo marido coronel que quer morrer para acertar as contas com ela até mesmo no além. Além de reverzar-se nos seus papeis na velhice e na juventude, as duas atrizes incorporam também inúmeras outras personagens, contando com a ajuda valiosa do ator Sávio Mello.

Imersas em um imenso e belíssimo cenário, mas que apesar de impressionar pelo tamanho mostra-se extremamente simples e funcional, elas simplesmente comandam um espetáculo que fala de morte sem nunca escorregar para o dramalhão. O texto, engraçadíssimo e imprevisível, soa como música ao ser declamado por elas, em um trabalho de construção física e vocal nunca aquém do impecável. Marieta e Andrea estão em constante movimento pelo palco, ao som de uma inspirada trilha sonora e de um figurino simples mas exato. Retratando a cultura do sertão nordestino através dos tempos - as protagonistas encaram assustadas a lâmpada e o rádio, por exemplo - a história de "As centenárias" consegue ser, ao mesmo tempo, muito divertida para a plateia e um exercício fenomenal para suas intérpretes, que são aplaudidas entusiasticamente por onde passam. Com todo o merecimento, diga-se de passagem.

"As centenárias" é teatro da mais alta qualidade. É uma hora e meia de deleite para os fãs de boas atuações, direção inspirada e texto criativo. E apenas aumentou minha admiração incondicional às duas atrizes.

|
2

MINHAS MÃES E MEU PAI

Posted by Clenio on 19:27 in
Mais uma vez o título nacional é vergonhoso. "Minhas mães e meu pai" soa como uma daquelas baboseiras dos estúdios Disney estreladas por uma Lindsay Lohan pré-rehab, sendo que o filme da diretora Lisa Chodolenko é um drama adulto, que lida com temas sérios de maneira bem menos conservadora do que Hollywood é acostumada a proporcionar ao público. Veterana de episódios de séries de TV como "The L World" e "A sete palmos", além de alguns longas independentes que receberam elogios mas são poucos conhecidos no Brasil, Chodolenko comanda de forma leve e agradável uma interessante história sobre uma família "alternativa" que vê sua harmonia desestabilizar-se com a chegada de um elemento inesperado.

A médica Nic (Annette Bening) e a paisagista Jules (Julianne Moore) vivem um casamento estável e amoroso há quase vinte anos. Carinhosas e dedicadas, elas são os pais perfeitos mas um tanto rígidos de um casal de adolescentes, Joni (Mia Kasikowska, a Alice de Tim Burton) e Laser (Josh Hutcherson). Às vésperas de sair de casa para cursar uma universidade, Joni aceita o pedido de seu irmão e, aos 18 anos, tem a oportunidade de saber o nome do homem que doou esperma para as duas gestações de suas mães. Curiosos, os dois jovens vão atrás de Paul (Mark Ruffalo), um solteirão, dono de um restaurante natural e de uma cooperativa. A novidade cai como uma bomba no lar antes pacífico, e tanto Nic quanto Jules tentam lidar com ela de maneira racional, iniciando uma amistosa relação com o "pai" de seus filhos. Porém, as coisas se complicam quando a controladora Nic passa a perceber que sua prole está próxima demais dele e sua insegurança começa a atrapalhar seu casamento com Jules, que, sentindo-se pouco valorizada pela parceira, inicia com ele um romance heterossexual.

O roteiro de "The kids are all right'" (título bem mais apropriado) é feliz em jamais julgar ou questionar com condescendência suas personagens. Nic é uma chata dominadora, sim, mas é uma mulher dedicada a manter a harmonia da sua família a custa de muito trabalho. Jules é um tanto passiva em relação a suas próprias escolhas profissionais, é claro, mas suas dúvidas e desejos de amor são legítimas e nunca vulgares. Paul é um homem que, em vias de entrar na meia-idade, tem um vislumbre de um real relacionamento e não se faz de rogado em correr atrás dele. E até mesmo as reações de Joni e Laser diante do furacão em que se transforma suas vidas são verossímeis e nunca forçadas. Até mesmo o senso de humor do filme não peca por piadas grosseiras, sustentando-se basicamente na ironia e no tanto de surreal da situação proposta pela trama central.

E nada como um bom elenco para sustentar um filme calcado basicamente em personagens e diálogos sobre gente de verdade! Há muito tempo Annette Bening não tinha um papel tão bom para defender, e sua atuação elogiada unanimente pode render-lhe até mesmo uma quarta indicação ao Oscar do ano que vem. No entanto, ela deve boa parte de seu trabalho à excelente química com Julianne Moore, mais uma vez entregando uma interpretação corajosa e desprovida de artifícios e Mark Ruffalo, um dos atores mais subapreciados do cinema americano, que consegue convencer na difícil transição de sua personagem sem cair no clichê. E como os filhos confusos com as desventuras de seus pais, tanto Mia Kasikowska quanto Josh Hutcherson mostram que podem ter futuros alvissareiros na indústria - se souberem fazer as escolhas corretas.

Claramente simpático à causa gay, mas sem nunca chegar a ser panfletário, "Minhas mães e meu pai" é um belo exemplo de como filmes simples podem encantar apenas versando sobre pessoas e sentimentos.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
0

OS HOMENS QUE ENCARAVAM CABRAS

Posted by Clenio on 13:58 in
Bizarro! Esse talvez seja o adjetivo mais adequado a "Os homens que encaravam cabras", uma das comédias mais estranhas produzidas por Hollywood nos últimos anos. Estreia como cineasta do ator e roteirista Grant Heslov (que escreveu "Boa noite e boa sorte" entre outros menos cotados), o filme passou sem muito estardalhaço pelos cinemas, apesar do elenco de sonhos, e muito dessa quase apatia em relação a ele vem de um fato simples: ele não é, sob aspecto nenhum, um filme comum, capaz de agradar a gregos e troianos. Pelo contrário: ele é dono de um humor todo particular, e só quem entender o espírito da coisa é capaz de se divertir. E se isso acontecer, é só se esbaldar com piadas absurdamente inacreditáveis.

Ewan McGregor (se divertindo nitidamente em cena) vive Bob Wilton, um jornalista que, frustrado com o final de seu casamento, vai ao Iraque cobrir a guerra - mesmo chegando lá depois da queda de Saddam Hussein. Quando chega lá, ele conhece Lyn Cassady (George Clooney, absolutamente hilariante), que lhe confessa ter feito parte de uma desconhecida unidade do exército americano formada por paranormais que tencionavam vencer a guerra sem violência física. O exército era liderado pelo poderoso Bill Django (Jeff Bridges, ótimo como sempre) e foi sabotado pelo ambicioso Larry Hooper (Kevin Spacey). Ao lado de Lyn, o repórter tenta reencontrar Django, embarcando em uma trama surreal.

O humor de "Os homens que encaravam cabras" não é fácil. Repleto de citações pop nada óbvias - a brincadeira com os Jedi é a melhor delas, principalmente se levarmos em conta que é Ewan McGregor que está em cena - e um ritmo que foge à tradicional pressa do cinema comercial americano, é um filme que vai decepcionar muitos fãs dos atores envolvidos, mas que com certeza conquistará outros, desde que estejam dispostos a entrar no clima da brincadeira. George Clooney, por exemplo, um dos produtores, tem uma das atuações mais inspiradas de sua carreira, mantendo sua tendência a explorar caminhos menos fáceis para o sucesso.

Enfim, é um filme cujo conceito é ainda mais divertido que o resultado final. Vale, com certeza, uma hora e meia da vida dos espectadores que gostam de sentir seu cérebro bem-tratado.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
4

O PREÇO DA TRAIÇÃO

Posted by Clenio on 16:32 in
É fato sabido e comprovado que americanos não gostam de filmes legendados, o que acaba fazendo com que bem-sucedidos trabalhos em língua não-inglesa definhem nas bilheterias dos EUA. Uma das maneiras com que Hollywood lida com essa situação é refazendo esses filmes, muitas vezes com o mesmo diretor mas com rostos mais conhecidos estampando os cartazes. Uma das vítimas desse crime é "Nathalie X", um drama erótico francês dirigido por Anne Fontaine e estrelado pelos excepcionais Fanny Ardant, Emmanuelle Bèart e Gerard Depardieu, que foi transformado em "O preço da traição" e chegou às telas sob a competente direção de Atom Egoyan - o inteligente condutor de filmes sensacionais como "O doce amanhã". Se não chega a estragar o produto original, que não era tão bom quanto seu elenco promete, a versão hollywoodiana do filme também não é tudo que poderia.

A premissa é intrigante: a bem-sucedida ginecologista Catherine Stewart (Julianne Moore), desconfiada que o marido David (Liam Neeson), um professor de música, lhe é infiel, contrata uma garota de programa de luxo, a bela Chloe (Amanda Seyfried), para dar em cima dele e lhe fazer relatórios a respeito de suas reações. O perigoso jogo de Catherine avança conforme também anda o flerte entre Chloe e David: ao ouvir da jovem prostituta que seu marido cedeu a suas investidas, ela passa a querer saber detalhes sórdidos de seus momentos juntos, a ponto de tornar-se obcecada. Tudo fica ainda mais incontrolável quando Chloe passa a demonstrar sinais de que também está interessada na própria Catherine e em seu filho adolescente.

Na verdade, "O preço da traição" não se decide entre o drama psicologicamente sufocante a respeito de obsessão, repressão sexual e solidão de sua primeira parte ou o suspense um tanto xinfrim de sua reta final. Egoyam é um excelente diretor de atores e tem um elegante senso estético - tudo que ele fotografa é extremamente sofisticado, bem iluminado e serve à frieza que emana das personagens. Mas aqui, mesmo contando com o trabalho impecável de Julianne Moore, a entrega de Liam Neeson (que perdeu a esposa durante as filmagens) e um surpreendente Amanda Seyfried, ele parece não ter chegado a uma conclusão sobre as personagens e sua história, que acaba de forma tão superficial quanto à vida de seus protagonistas, que ele aparentemente queria criticar. Ainda assim, é um filme a ser conhecido.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
3

CASO 39

Posted by Clenio on 13:12 in
Demorou mais de três anos para que a Paramount lançasse "Caso 39" nos EUA. Pronto desde 2007, o filme de Christian Alvart só chegou aos cinemas americanos em outubro deste ano, tendo sido lançado em praticamente o mundo todo antes disso. Quando o filme acaba nota-se o motivo de tanto receio em mostrá-lo ao público: apesar do início intrigante, "Caso 39" é um filme de suspense que lembra um episódio ruim da série de TV "Arquivo X", e nem mesmo o trabalho competente de Renée Zellweger consegue fazer dele algo positivamente memorável - ao menos para o público, já que para ela deve ter sido uma boa experiência, já que iniciou um romance com o colega de cena Bradley Cooper.

Informações de revista "Contigo!" à parte, Zellweger se esforça o possível para dar credibilidade a um roteiro um tanto esquizofrênico e inverossímil. Ela vive Emily Jenkins, uma assistente social solitária e dedicada que ultrapassa um tanto os limites de sua profissão ao conhecer a pequena Lilith Sullivan (Jodelle Ferland), salva na última hora de ser morta pelos próprios pais. Encantada com a menina e comovida com sua situação lamentável, ela consegue sua guarda e a leva para morar consigo. Quando acontecimentos misteriosos e violentos começam a ocorrer à sua volta - assim como a morte de amigos e pessoas próximas - Emily passa a desconfiar que há algo de errado com a criança e somente os pais - presos e sofrendo de alucinações - podem lhe explicar realmente a verdade sobre a doce e inocente garotinha.

Utilizando descaradamente elementos de "A profecia", "Caso 39" é difícil de engolir. Começa relativamente bem, com clima, atuações convincentes e uma produção bem cuidada. Sua segunda metade, no entanto, é previsível, chata e pior ainda, nada assustadora. Indeciso entre contar uma história sobrenatural ou um drama de ressonâncias familiares - a família da protagonista também não era exatamente saudável - o roteiro é fraco demais para levar a algum lugar. Zellweger precisa de um agente novo com urgência!

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
2

QUANDO EM ROMA

Posted by Clenio on 21:22 in
Uma coisa é mandatória quando o espectador se propõe a assistir a uma comédia romântica: saber que, por mais que os produtores tentem ser criativos - e muitos deles definitivamente não se dão a esse trabalho - o gênero é o menos propenso a novidades. Sendo assim, sempre se sabe onde a trama vai levar, como será o clímax, que o elenco coadjuvante será responsável pelo alívio cômico e que belas paisagens serão o cenário para uma história de amor que invariavelmente tem final feliz (caso contrário o filme faria parte de outro gênero caro à plateia mais sensível: o drama romântico). "Quando em Roma", dirigido por Mark Steven Johnson não inventa a roda e, apesar das críticas desfavoráveis terem o afastado de uma estreia decente nos cinemas brasileiros consegue ser divertido o suficiente para segurar uma sessão da tarde regada a pipoca e refrigerante.

Kristen Bell - das séries televisivas "Heroes" e "Veronica Mars" - vive a protagonista do filme, Beth, uma jovem curadora de um museu nova-iorquino que não acredita no amor desde que foi dispensada pelo namorado. Quando vai à Roma assistir ao casamento da irmã caçula com um italiano que ela conheceu durante um vôo, Beth conhece e se encanta por Nick (Josh Duhamel), o padrinho do noivo, um rapaz divertido e sedutor que também se sentre atraído por ela. De volta aos EUA, Beth começa a estranhar o fato de que vários homens, dos mais variados tipos, estão apaixonados perdidamente por ela, incluindo o próprio Nick. Quando ela descobre que tudo não passa de uma espécie de feitiço - relacionado a moedas jogadas em uma fonte romana que ela recolheu em um momento de bebedeira e revolta - ela põe na cabeça que nem mesmo o interessante rapaz realmente a ama e passa a rejeitar suas investidas românticas.

Mark Steven Johnson - que tem no currículo filmes de ação bem medianos como "Demolidor" e "Motoqueiro fantasma" - surpreende ao acertar no tom leve e agradável de sua primeira incursão no universo das comédias românticas. Ainda que dê mais atenção ao lado engraçado e surreal da história do que a seus meandros sentimentais, ele consegue segurar o interesse da plateia sem maiores esforços e ainda conta com a ajuda do sempre simpático e carismático Josh Duhamel para fazer rir. E, como dito antes, os coadjuvantes são engraçados como devem - em especial o modelo vivido por Dax Shepard, tão sem noção quanto seu colega de profissão Derek Zoolander interpretado por Ben Stiller no hilário filme de 2001.

Em um elenco que inclui ainda participações especiais de Anjelica Huston, Danny DeVito e até mesmo Don Johnson, só não dá pra entender os motivos que levaram os produtores a escolherem a insossa Kristen Bell para o papel central. Sem ser particularmente bonita ou carismática, ela acaba sendo menos interessante que Duhamel, que vem forjando uma persona extemamente agradável em sua carreira cinematográfica - a julgar por seu papel também simpático em "Juntos pelo acaso". O marido de Fergie brilha mais que sua parceira em "Quando em Roma", o que não deixa de ser a maior diferença do filme em relação a seus companheiros de gênero.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
1

PLANO B/EM BUSCA DE UMA NOVA CHANCE

Posted by Clenio on 12:50 in
Na segunda metade dos anos 80, Hollywood viveu uma fase de valorização da família, sempre representada por um elemento lúdico e apaixonante: um bebê. Foi dessa leva que surgiram "Presente de grego", com Diane Keaton e "Três solteirões e um bebê", refilmagem de uma comédia francesa de sucesso. E como modas somem e voltam, parece que a capital do cinema também resolveu utilizar essa fórmula vintage do politicamente correto como forma de atrair público - em especial o feminino. Filmes como "Juntos pelo acaso", com Katharine Heigl e "Coincidências do amor", com Jennifer Aniston (a nova Meg Ryan) tratam justamente sobre isso: filhos devolvendo (ou apresentando) aos pais uma razão para viver. Coincidentemente - ou não - assisti a dois filmes que novamente usam a maternidade como ponto de partida. Apesar de, em tese, não terem nada a ver um com o outro, a comédia romântica "Plano B" e o drama "Em busca de uma nova chance" acabam pertencendo, de uma maneira um tanto tortuosa, a essa nova tendência do cinema americano - ainda que modernizando um pouco as coisas para que se adequem ao novo século.

"Plano B" é mais uma comédia romântica como todas as outras, com a diferença que não faz rir tanto como promete a capa do DVD nem tampouco tenta ser mais ousada do que seus congêneres. Nem mesm a presença da linda e apetitosa Jennifer Lopez - que às vezes acerta em cheio, como "Reviravolta", de Oliver Stone e "Irresistível paixão", de Steven Soderbergh e em muitas ocasiões dá tiros n'água, como os tenebrosos "Olhar de anjo" e "Contrato de risco" - consegue salvar o filme de Alan Poul da mesmice. Ela vive Zoe, a dona de uma pet-shop em Nova York que, decidida a ter um filho, apela para a inseminação artificial, uma vez que não é bem-sucedida em relacionamentos amorosos. Como o destino - e os roteiristas sem imaginação de comédias românticas - adora ser irônico, justamente no dia em que é inseminada, ela conhece o bonitão, charmoso, romântico e dedicado Stan (o promissor australiano Alex O'Loughlin), que sonha em viver da venda dos queijos que fabrica em sua bucólica fazenda. Depois de chocado em saber da gravidez da amada, ele aceita assumir a paternidade, mas as coisas, logicamente, não são assim tão simples, e o belo casal vai ter que penar até chegar a seu final feliz.

O problema maior em "Plano B" nem é o fato de que J-Lo está particularmente pouco atraente e que o roteiro é uma colagem mal-feita de inúmeros outros. Seu grande erro está em não decidir-se entre o romance, a comédia ou o drama. "Juntos pelo acaso", por exemplo, conseguia equilibrar todos os elementos. Aqui, soa como esquizofrenia. As piadas não são especialmente engraçadas, o drama não convence e o romance até que poderia funcionar se não fosse a vontade inexplicável da roteirista em criar personagens tão fora de propósito como a ex-namorada de Stan e a avó de Zoe. Em resumo, "Plano B" pode funcionar para uma sessão da tarde, mas não segura uma noite de sábado.


Em compensação, "Em busca de uma nova chance" - mais um título nacional equivocado para uma vasta antologia - consegue ser uma ótima surpresa. Obviamente não tem o mesmo apelo do filme de Lopez nem tampouco busca o mesmo público, mas é infinitamente mais interessante. Infelizmente, não fez sucesso de bilheteria nos EUA, o que o fez passar em brancas nuvens também no resto do mundo, inclusive no Brasil. Azar de quem não pôde se emocionar com a história humana, realista e delicada sobre amor, perda, solidão e esperança escrita pela jovem Shana Feste. Contando com a ajuda de um elenco sensacional, ela retrata a relação entre uma família despedaçada pela morte do filho e irmão adolescente com a surpreendente namorada deste, grávida de três meses.

Rose (a excelente Carey Mulligan, de "Educação") chega à casa da família Brewer quase como uma intrusa. Grávida do jovem Bennett, morto em um trágico acidente de carro pouco antes, ela serve quase como o preenchimento ao vazio causado pela morte do adolescente. Sua chegada, no entanto, tem efeitos díspares nos três elementos da família. O pai, Allen (um admiravelmente bem Pierce Brosnan), um professor de Matemática, a acolhe com carinho e dedicação. O filho caçula, Ryan (Johnny Simmons), que tem problemas com drogas, a aceita como uma espécie de irmã, enquanto frequenta grupos de apoios a familiares enlutados. Somente a mãe de Bennet, Grace (Susan Sarandon, como sempre espetacular) é que não aceita a nora com naturalidade. Tentando lidar com a dor, ela vive na esperança de conversar com o causador do acidente que matou o filho, Jordan (Michael Shannon), que está em coma e, segundo ela, é o único que pode lhe contar com exatidão sobre os últimos momentos de vida do rapaz.

Apesar de parecer um dramalhão pesado e deprimente, "Em busca de uma nova chance" consegue fugir do baixo-astral, graças em especial a seu elenco talentoso e ao acerto de Feste em alternar a vida da família em luto com o início do romance entre Bennett e Rose, uma história de amor delicada e sensível. A gravidez da jovem surge como uma espécie de oásis em meio ao desespero, que inclui também uma relação de falta de confiança entre marido e mulher: Allen teve um romance extra-conjugal, o que apenas alimenta ainda mais o medo de Grace de que ele se envolva com a própria nora. Sim, é psicologicamente denso. Mas é também um auspicioso trabalho de estreia de uma diretora que parece ter muito a dizer. "Em busca de uma nova chance" é uma pequena pérola que merece ser descoberta em meio ao lixo que entulha as prateleiras das videolocadoras.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
4

ATRAÇÃO PERIGOSA

Posted by Clenio on 19:46 in
Que Ben Affleck é melhor como cineasta do que como ator, qualquer um que tenha assistido a "Medo da verdade", seu filme de estreia, sabe muito bem. Mas sua segunda incursão atrás das câmeras, o policial dramático "Atração perigosa" consegue a façanha de mostrar que, além de um diretor bastante seguro, o marido de Jennifer Garner também tem sensibilidade o bastante para se auto-dirigir sem cair na armadilha do egocentrismo e, melhor notícia ainda, até que não se sai mal no papel principal: há muito tempo uma atuação sua não era tão simples e adequada quanto aqui, como Doug MacRay, o assaltante que cai de amores pela refém que faz seu melhor amigo de infância, James (Jeremy Renner), depois do roubo ao banco de onde ela é gerente.

Baseado em um romance de Chuck Hogan, "Atração perigosa" é um filme policial eficiente e um romance bastante convincente, em especial devido à atenção dada por Affleck ao sutil equilíbrio entre as duas vertentes da trama. O suspense criado pela possibilidade de Claire (a ótima Rebecca Hall) identificar seu novo amor como um dos seus sequestradores, as dúvidas de Doug em seguir uma "carreira" à margem da lei e sua relação com o bairro onde mora, seus companheiros e seu pai (uma participação genial de Chris Cooper) e a busca de um incansável agente do FBI (John Hamm, da série "Mad men") pelos culpados pelo assalto se alternam sem cansar o espectador. Jeremy Renner, indicado ao Oscar deste ano por "Guerra ao terror" demonstra que tem cacife para ir muito longe na carreira, assim como Rebecca Hall, que além de linda, apresenta uma atuação repleta de nuances. E o fato de Affleck não atrapalhar os shows dos colegas já é um avanço e tanto.

"Atração perigosa" - título nacional extremamente derivativo, diga-se de passagem - pode não ser um filme espetacular ou uma obra-prima, mas é um entretenimento muito decente, comandado por um astro que parece ter descoberto seu maior talento. Uns minutos a menos em seu terço final e "Atração perigosa" seria um dos melhores exemplares do gênero nos últimos anos. Mas é um pecado bastante pequeno perante o ótimo resultado final.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com e www.cinematotal.com.br

|
0

PAUL NEWMAN - UMA VIDA

Posted by Clenio on 12:48 in
Pródiga que é em criar astros problemáticos, estrelas escandalosas e personalidades cujo talento maior é aparecer em manchetes sensacionalistas, Hollywood de vez em quando consegue forjar atores de verdade, donos de personalidades fortes mas jamais fúteis e um dom natural para conquistar público e crítica por bem mais do que um simples verão lucrativo. Um desses raros seres que realmente mereceram o título de ídolo se chamava Paul Newman, e a biografia "Paul Newman, uma vida", de Shawn Levy (Ed. Agir) apenas reitera o que todo mundo já sabia faz tempo por trás de um ator de grande talento havia também - e talvez principalmente - um marido apaixonado, um filantropo dedicado e um homem comum fascinado por velocidade, além de um empresário dos mais bem-sucedidos do ramo alimentício.
Nascido em 1925 e morto em 2008, Newman teve uma vida cheia, conforme o relato detalhado e bem-escrito de Levy. O livro conta como sua vida pessoal interferiu em suas escolhas profissionais - em especial após a morte do único filho homem, Scott, de overdose de drogas, aos 28 anos - e de que forma Newman, dono dos olhos azuis mais cobiçados da história do cinema, preferia o automobilismo ao cinema. Narra a história de amor, respeito e companheirismo com a atriz Joanne Woodward - um casamento que teve seus momentos de crise, sim, mas que sobreviveu imponente às intempéries hollywoodianas. Explica como sua carreira artística não era nada de especial comparada com as inúmeras instituições filantrópicas criadas por ele - colônias de férias para crianças com câncer, doações milionárias de toda a renda de sua marca de molhos de salada, criação e manutenção de salas de teatro. E principalmente retrata Paul Newman, o ídolo, o ator, o símbolo sexual, como um homem comum, que preferia uma caixa de cervejas e um belo hamburguer a qualquer festa de gala da indústria cinematográfica.

Aliás, é a indústria em si que sofre os maiores golpes através da escrita de Levy. Ao contar as brigas entre Newman em busca da excelência de seu trabalho - adepto do Método do Actors Studio, ou seja, fascinado pelo mergulho nas personagens que fazia e fã de períodos de ensaios, ele não aceitava qualquer papel ou qualquer diretor - o biógrafo mostra as engrenagens por trás do studio system e as formas encontradas por Newman e alguns colegas (Steve McQueen, Barbra Streisand, Robert Redford) de manter-se à margem da busca desenfreada por bilheterias milionárias. Até mesmo seu desdém por premiações - e o Oscar tardio em 1986 - não soa arrogante através dos olhos do escritor, e sim uma prova a mais de que o eterno Butch Cassidy tinha os pés bem mais fincados no chão do que muitos companheiros de profissão.
 
Quando chega-se ao final de "Paul Newman, uma vida" fica nítido o tamanho do Homem Paul Newman. Como ator ele influenciou gerações. Como símbolo sexual encantou homens e mulheres. Como corredor de automobilismo surpreendeu pelo talento tardio. Como filantropista ajudou milhares de pessoas. Mas é como mito - ainda que extremamente humano e verdadeiro - que ele fica na memória do leitor. Um caráter admirável em meio a uma fogueira de vaidades quase sempre mesquinha e auto-centrada.

|
5

INFERNO ASTRAL

Posted by Clenio on 13:56 in
Sim, eu acredito em inferno astral. O meu começou no dia do meu nascimento e vem se estendendo até os dias de hoje - e ao que parece, sem data de acabar. Estou simplesmente farto da minha vida, em todos os aspectos. Sei que já está cansando esse assunto recorrente, mas a cada dia que passa mais e mais tenho a absoluta certeza de que já deu o que tinha que dar. Chega, eu desisto! Toco o sino, aperto o botão vermelho, faço o que for preciso pra acabar com essa porcaria.
Detesto conversinhas pra boi dormir tentando me fazer ver o lado bom da vida! Da vida de quem?? Da minha? O que tem de bom em ser solitário, em ter consciência de que a maioria esmagadora das pessoas são menos do que medíocres, em não conseguir ter mais do que meras duas horas de paz por dia? Qual é o lado bom em sentir-se absolutamente desamado, sem atrativos, sem dinheiro, sem possibilidades de um futuro menos escuro e frustrado em praticamente todos os aspectos? O que tem de tão maravilhoso assim em saber que se é burro o suficiente a ponto de ter acreditado em pessoas que aparentemente tem outras prioridades na vida - MUITAS OUTRAS - do que você?
Em cinco dias é meu aniversário, e só o que ele me aponta são 365 dias a mais na minha lamentável existência. Não estou mais maduro, só mais velho. Não estou sábio, só amargurado. Não estou experiente, apenas desgastado. E pensar que outros doze meses vem pela frente até o próximo aniversário só me dá vontade de sentar na calçada e chorar lágrimas de esguicho...

|
3

OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

Posted by Clenio on 11:01 in
Fenômeno de vendas inclusive no Brasil, a trilogia policial "Millenium", do sueco Stieg Larsson não demorou a chegar aos cinemas. Seu primeiro capítulo, "Os homens que não amavam as mulheres", dirigido por Niels Arden Oplev e já tem uma versão americana engatilhada, a ser comandada pelo ótimo David Fincher, com o 007 Daniel Craig no papel central. A julgar pelo currículo de Fincher o remake tem tudo para ser superior ao original, uma vez que, apesar dos elogios rasgados da crítica, não passa de um filme de suspense que nunca ultrapassa a barreira do convencional e ainda é prejudicado pela absoluta falta de carisma de Noomi Rapace que vive a hacker Lisbeth Salander, um papel crucial na trama e que, ao contrário de despertar admiração na audiência apenas a afasta devido a sua antipatia.
Para quem não sabe do que se trata, "Os homens que não amavam as mulheres" começa quando o jornalista Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist), às vésperas de cumprir pena por difamar um empresário, é procurado para investigar o desaparecimento de uma jovem de 16 anos, ocorrido décadas antes. Parte integrante de uma família numerosa e aparentemente cheia de segredos, a vítima simplesmente sumiu e cabe ao jornalista tentar encontrá-la. Para isso, ele conta com a ajuda da rebelde Lisbeth, que tem tanto talento para invadir segredos virtuais quanto para seduzir homens e mulheres. Juntos, eles embarcam numa investigação que mistura nazismo, violência sexual e passagens bíblicas e descobrem que ninguém está absolutamente acima de qualquer suspeita.

O maior problema da versão cinematográfica da obra de Larsson (que morreu antes da publicação dos livros que o deixariam milionário) é que o filme absolutamente não empolga. Nem mesmo as surpresas de seu final conquistam a plateia acostumada ao gênero. Não é um filme ruim, de jeito nenhum, mas também não o é um grande filme. Seu ritmo é quase hollywoodiano, sua produção é bem cuidada e tudo soa verossímil, mas mesmo assim, não dá liga. David Fincher com certeza fará melhor...
 
Mais cinema em http://www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com/  e http://www.cinematotal.com.br/

|
4

JUNTOS PELO ACASO

Posted by Clenio on 11:35 in

Holly Berensen é a dona de uma pequena delicatessen e sonha em transformá-la em um restaurante. Eric Messer é diretor de transmissões de partidas de basquete. Ela é uma mulher que gosta das coisas em ordem, é organizada e romântica. Ele se veste de jeans, camiseta e boné, não se prende a nenhum relacionamento e utiliza sua moto como meio de transporte. Eles se detestam desde que se encontraram pela primeira vez, graças a um encontro às escuras promovidos por um casal de amigos em comum. Quando este casal morre em um trágico acidente de carro, a certinha Holly e o juvenil Messer são obrigados a cuidar de sua única filha - um adorável bebê de um ano de idade. Assustados com a responsabilidade, eles acabam aceitando viver na mesma casa e criá-la como se fossem seus pais.

Levando-se em consideração que roteiros de comédias românticas nunca são dos mais criativos e que a protagonista de "Juntos por acaso" é Katherine Heigl - que está se tornando uma espécie de especialista no gênero - não é preciso ser um estudioso de cinema para adivinhar, desde os créditos iniciais - ao som de Amy Winehouse - onde a história entre Holly e Messer vai parar. O que diferencia o filme de Greg Berlandi dos demais (mas nem tanto assim) é justamente o carisma de Heighl e sua química com Josh Duhamel (o sr. Fergie, demonstrando um bom timing cômico). Bonitos e carismáticos, eles conquistam a plateia logo de cara e transformam "Juntos pelo acaso" em uma divertida sessão de cinema despretensioso, leve e extremamente agradável.

Repleto de clichês, "Juntos pelo acaso" não tenta ser nada mais do que é - uma comédia romântica descompromissada - e é justamente aí que ganha muitos pontos. Funciona muito bem como comédia familiar - graças principalmente ao bebê engraçadinho - e seduz o público como romance. As desastradas tentativas do casal em cuidar da pequena Sophie provocam gargalhadas - e lembram Diane Keaton em "Presente de grego" - e suas idas e vindas amorosas que conduzem ao inevitável final feliz são leves como convém. "Juntos pelo acaso" não machuca ninguém e talvez por ser tão inofensiva não tenha feito muito barulho nas bilheterias americanas. Mas é uma gracinha de filme, ideal para quem quer descansar a cabeça dos problemas e esquecer que uma eleição decepcionante vem por aí..

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com  e www.cinematotal.com.br

|
7

9 COISAS SOBRE MIM...

Posted by Clenio on 17:25 in
Meu amigo Alan Raspante - do blog "Cinema & Cigarros" - me passou a incumbência de fazer um post contando 9 coisas a meu respeito que as pessoas não sabem. Primeiro fiquei travado, afinal, minha vida é um livro aberto - às vezes "O sofrimento do jovem Werther", às vezes qualquer livro de Nelson Rodrigues. Depois lembrei que apesar de meus amigos mais próximos (uns quatro ou cinco) saberem QUASE tudo sobre a minha vida, meus fieis leitores provavelmente não tinham a mesma ciência. Sendo assim, busquei alguns fatos que podem ser tornado públicos sem que eu prejudique a imagem de ninguém - talvez apenas a minha, mas enfim... não há mais filme a ser queimado em minha existência!

Antes de passar a eles, no entanto, segue abaixo a lista dos amigos blogueiros a quem também vou passar essa interessante lição de auto-conhecimento:

http://www.luisfabianoteixeira.blogspot.com/
http://www.reconfessions.blogspot.com/
http://www.degraucultural.blogspot.com/
http://www.cheabtulio.blogspot.com/
http://www.brazilianmovieguy.blogspot.com/
http://www.esegueobaile.blogspot.com/
http://www.eopedefeijao.blogspot.com/

Vamos então às 9 COISAS QUE VOCÊ NÃO SABE A MEU RESPEITO

1 - ESPORTES - Na minha pré-adolescência (quando meus pais ainda tinham o poder de mandar na minha vida) eu praticava esportes. Praticava é maneira de dizer, porque nunca tive o MENOR talento pra isso. Por volta dos 12 anos eu cheguei a fazer aulas de kung-fu e com cerca de 15/16 fazia parte de um time de futebol de salão. Também tentei jogar tênis e até era razoável jogando vôlei, mas esporte definitivamente não é a minha praia. Prefiro assistir aos jogos do meu time do coração (Internacional, glória do desporto nacional) bebericando uma cerveja do que correr atrás da bola.

2 - FACULDADE - Eu estudei Jornalismo por três anos. Só o que ganhei foram amigos que mantenho até hoje. Me decepcionei com o curso e com o sistema de QI (Quem Indica) do jornalismo do sul do país (e creio que do Brasil inteiro). Hoje sei que tenho uma certa ojeriza de qualquer tipo de academicismo. Óbvio que médicos e advogados, por exemplo, precisam de um curso, mas me recuso a entrar em uma faculdade para aprender como escrever, como ler ou como perceber as coisas ao meu redor. Isso chama-se dom. Ou se tem ou não, não é um diploma que vai fazer a diferença.

3 - MALU MADER - Eu fui completamente apaixonado pela Malu Mader dos meus 12 aos 18 anos. Era uma paixão quase obsessiva que me fez gastar fitas e fitas de vídeo gravando as cenas em que ela aparecia em "Fera radical" e "Top Model" (felizmente "Anos dourados" e "Anos rebeldes" foram lançados em DVD...). Malu era meu sonho de consumo e tive o prazer de assisti-la no teatro, em 1989. Com o tempo tudo arrefeceu, como toda paixão. Mas quem me conhece daquele tempo ainda lembra dessa minha fase... Medo!!!

4 - MÚSICA DE DOR DE CORNO - Adooooro música de dor de corno! Quanto mais dor-de-cotovelo melhor! E de preferência música brega - sim, eu desencavo coisas absurdas em momentos de maior inspiração. Não há música lamuriosa do Roberto Carlos que eu não saiba - mas pra minha sorte meu cérebro também registra coisa boa como Chico, Elis e Bethânia. Aliás, tem coisa mais linda do Bethânia cantando Roberto Carlos? Eu não conheço...

5 - TEATRO - Eu faço teatro! Não sou nenhum Shakespeare ou Nelson Rodrigues, mas modéstia à parte até que me saio bem! Ainda estou começando, brincando de teatrar, mas é um prazer indescritível sentir o retorno do público. Duas peças já nasceram e uma terceira está a caminho. Meu sonho é ser o Wagner Moura!!!!!

6 - TRAUMA DE INFÂNCIA - Meu maior trauma de infância é responsável direto pela minha baixíssima auto-estima. Quando criança, sempre que alguém me elogiava, dizendo como eu era bonito minha mãe vinha correndo corrigir: "Este é o intelectual! Bonito é o outro!", referindo-se a meu irmão do meio. Depois de anos ouvindo a mesma coisa dá pra acreditar quando alguém elogia qualquer coisa em mim???? Minha mãe deveria pagar minha terapeuta.

7 - SONAMBULISMO - Quando criança e adolescente eu era sonâmbulo. Saía pela casa, me arrumava pra escola, escovava os dentes... tudo pelas 4 da manhã!!! Depois de um tempo, troquei o sonambulismo pelos discursos noturnos - enquanto durmo!! Hoje em dia não sei se ainda mantenho esse hábito (haja visto por meus posts mais recentes ninguém dorme a meu lado pra me contar...) mas até uns cinco anos atrás isso ainda acontecia. Ainda bem que nunca disse nada comprometedor!

8 - DEUS - Não, eu não acredito em Deus! Provavelmente essa declaração vai me tirar da lista de herdeiros da minha mãe, mas não consigo acreditar em um ser que permite as atrocidades que vemos diariamente nos jornais e cujo divertimento deve ser assistir ao sofrimento alheio (imagino que se existisse, ele seria espectador assíduo de coisas como "E24"). Acho muito bonita a história toda contada na Bíblia, mas pra mim ela é apenas isso - uma bela história, ainda que com muitos furos... Se eu seria capaz de mudar de ideia? Claro que sim, me mostrem um milagre que eu mudo. Mas tem que ser um milagre que me favoreça pessoalmente, de nada me adianta dizer que Deus é maravilhoso porque salvou os mineiros chilenos.

9 - SUICÍDIO - Eu já pensei seriamente em suicídio! E não foi uma ou duas vezes, não. Em uma ocasião cheguei ao extremo de escrever cartas de despedida. Não acho a vida tão bela assim a ponto de me impedir de descartá-la. O que me impede é minha mãe - repararam que ela está presente em boa parte desse post, não????? Suicídio é um abismo que muito me atrai. Não o considero um ato covarde e sim de extrema personalidade. Viver em um mundo que não me agrada e não me faz feliz é muito mais deprimente!

|
1

ESTÃO TODOS BEM

Posted by Clenio on 12:04 in
Em 1990, na crista da onda pelo merecido sucesso de "Cinema Paradiso", o italiano Giuseppe Tornatore lançou "Estamos todos bem", um drama familiar estrelado pelo sempre sensacional Marcello Mastroianni. Desde então Hollywood vinha tentando um remake, por acreditar no potencial emocional da história. Eis que, vinte anos depois - uma distância bem considerável da estreia do primeiro filme, portanto - o inglês Kirk Jones finalmente lançou "Estão todos bem", que, apesar de algumas críticas favoráveis - e um prêmio de atuação para Robert DeNiro -, chegou ao Brasil diretamente em DVD. Não deixa de ser uma injustiça, porque, mesmo que esteja longe de ser memorável, é um belo filme, que permite a DeNiro mostrar porque é um grande ator que há tempos merece um bom papel.


No filme de Jones, DeNiro vive Frank Goode, um viúvo recém-aposentado que, mesmo contrariando ordens médicas, decide atravessar os EUA para visitar os quatro filhos, depois que eles cancelam uma reunião familiar em cima da hora. Sem avisar a nenhum deles, Frank parte - munido de uma mala e uma máquina fotográfica - para rever a prole, da qual tem um orgulho indisfarçado. Depois de perder a viagem a Nova York (onde tencionava rever David, um artista plástico), ele viaja a Chicago, onde percebe que sua filha Amy (Kate Beckinsale), uma publicitária bem-sucedida, está com problemas no casamento e com o filho adolescente, apesar de transmitir uma ideia de felicidade plena. Em Denver, ele descobre que Robert (Sam Rockwell) não é o maestro que dizia ser e que toca percussão em uma orquestra local. E em Las Vegas, ele reencontra Rosie (Drew Barrymore) que mora em um apartamento luxuoso e trabalha como artista em shows de dança e esconde algumas verdades sobre sua vida pessoal. O que Frank não desconfia nem de longe é que seus filhos estão escondendo dele algo muito importante a respeito de David.

"Estão todos bem" tem algumas ideias bastante interessantes visualmente. As casas de Amy e Rosie, por exemplo, são luxuosas, mas vazias, quase estéreis. Os filhos todos se comunicam através de celulares, enquanto Frank utiliza apenas telefones públicos - símbolo de seu orgulho profissional como operário de telefonia. E sempre que vê os filhos pela primeira vez, o protagonista os vê como crianças - além de uma bela cena em que ele fica sabendo a verdade sobre todos eles enquanto estão todos reunidos em volta da mesa (ele adulto, os filhos crianças...)

O único problema de "Estão todos bem" é que existe sempre a impressão de ser um produto pasteurizado. É tudo muito bonito, limpo e luxuoso no filme de Kirk Jones. Emocionalmente é enxuto e sóbrio, ainda que comovente. Mas poderia ser um pouco mais realista, o que com certeza lhe daria mais pontos junto ao público. Como está, é um filme bastante interessante e nunca aborrecido ou exagerado. Recomendável a quem procura um bom drama familiar.

|
1

O AMOR PEDE PASSAGEM

Posted by Clenio on 13:35 in
Primeiro, o básico: chamar um filme com o título original de "Management" de "O amor pede passagem" justificaria uma demissão por justa causa para a mente "criativa" que teve essa brilhante ideia. Em segundo lugar um aviso: o trailer do filme, exaustivamente veiculado nos cinemas brasileiros este ano, dá uma impressão totalmente errada de seu conteúdo. Apesar de ser um filme com Jennifer Aniston - o que já pressupõe uma bobagem romântica sem muito conteúdo - o filme do estreante Stephen Belber não é uma comédia (ao menos no sentido literal da palavra) e sim uma história quase deprimente sobre solidão e desesperança no amor.

Steve Zahn (um ótimo ator cômico que também se dá bem em cenas dramáticas) interpreta Mike, um jovem  que trabalha no motel de seus pais (uma mãe doente e um pai silencioso) em uma cidade do interior dos EUA. Sua vida vazia e quase sem emoções começa a se transformar quando ele conhece a bela Sue Claussen (Aniston, com um visual um tanto estranho e não tão bela como sempre). Sue trabalha vendendo arte para empresas e, sendo uma mulher emocionalmente confusa, acaba transando com o rapaz - solitário, entedidado e depois da experiência inesperada, apaixonado. Mike passa a percorrer o país atrás da mulher que ama, mas ela não vê nele - um rapaz sem maiores ambições e com uma mentalidade quase adolescente - uma possibilidade de futuro. Amargurada com as decepções pelas quais passou, ela prefere uma vida mais confortável e estável - o que pode estar nas mãos de seu namorado empresário (vivido por um sempre excêntrico Woody Harrelson).

"O amor pede passagem" está bem mais para "Por um sentido na vida" do que para "Caçador de recompensas", ainda bem. É melancólico, é quase triste e, apesar de algumas piadas que não funcionam, tem um certo senso de humor. É um filme que foi vendido erroneamente, mas que merece encontrar seu público no mercado de DVDs.

Mais sobre cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com
http://www.cinematotal.com/clenio

|
1

TROPA DE ELITE 2

Posted by Clenio on 23:22 in
"Tropa de elite 2" é o novo fenômeno do cinema brasileiro. Lotando salas de exibição país afora, o filme de José Padilha tem arrancado elogios entusiasmados - e merecidos! Lançado logo após uma eleição assustadora que colocou Tiririca como o deputado federal mais votado do Brasil, a continuação do bem-sucedido longa de 2007 é um soco na boca do estômago daqueles que ainda acreditam na política e nas boas intenções daqueles que ditam os rumos da nação. Poucas vezes o cinema nacional foi tão contundente, radical e corajoso - se é que o foi alguma vez. Mas mais do que ser um furioso ataque ao sistema em geral, "Tropa de elite 2" é cinema da mais alta qualidade, capaz de rivalizar com qualquer blockbuster americano e sair ganhando de goleada.

"Tropa 2" é melhor que seu primeiro capítulo em inúmeros aspectos. O roteiro - co-escrito por Padilha e Bráulio Mantovani (indicado ao Oscar por "Cidade de Deus") - é forte, surpreendente e com mais nuances do que seu antecessor, repleto de camadas que vão se revelando pouco a pouco. A edição continua sendo caprichada e a parte técnica é superior a muitas produções hollywoodianas. As personagens são ainda mais verossímeis, dotadas de personalidades mais humanas e realistas - o que faz com que todas as surpresas se tornem ainda mais empolgantes. E o elenco, liderado por um Wagner Moura avassalador, dá conta do recado com um pé nas costas - com as possíveis exceções de Maria Ribeiro e, sim, André Ramiro, que donos de papéis-chave, ainda carecem de carisma. É difícil não lembrar dos bons filmes de Martin Scorsese quando se assiste à "Tropa de elite 2", em especial "Os bons companheiros", que divide com a obra de José Padilha a narração em off, a edição vigorosa, a violência e até algumas sequências. Mais do que uma simples cópia - talvez até inconsciente - as cenas que antecedem o epílogo são uma homenagem extremamente bem-feita à obra-prima de Scorsese. Que bom que existe no Brasil um cineasta que saiba a quem admirar!!

Mas talvez o melhor de "Tropa de elite 2" seja a sua coragem de tocar o dedo na ferida. A "perigosa" idelogia do primeiro filme - acusado de fascismo por algumas facções - é aqui posta em xeque. A trama concebida por Padilha e Mantovani contrapõe os dois lados da moeda em relação à violência nas favelas do Rio, acrescentando à história o sensacional defensor dos direitos humanos Diogo Fraga (interpretado pelo ótimo Irandhir Santos), que bate de frente com Nascimento no início do filme, mas que, graças às reviravoltas previstas no roteiro, acaba tornando-se seu aliado quando o maior defensor do BOPE percebe que seus inimigos não são apenas os traficantes de droga, mas sim gente que ele considerava os guardiões da paz.

"Tropa de elite 2" é um filme que fala de assuntos sérios de maneira comercial e sem didatismo ou discursos ocos - e isso é um elogio extraordinário quando se fala de um filme brasileiro. O roteiro é consistente e Nascimento se consagra como um herói absoluto do cinema nacional (graças à inteligência da trama e do trabalho sensacional de Wagner Moura, disparado o melhor ator de sua geração) - é difícil não torcer por ele, mesmo quando suas ideias possam ser consideradas um tanto maniqueístas (ao menos até a metade do filme). É um petardo que diverte - dentro do conceito de diversão consagrado pelo cinema americano (leia-se tiroteio e sangue) - mas que também faz pensar muito tempo depois de encerrada a sessão. Dá muito assunto a discutir e questionar. E de quantos filmes podemos dizer o mesmo nos últimos anos???

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

E conheça o site www.cinematotal.com.br

|
1

É ASSIM...

Posted by Clenio on 17:33 in
Pois é assim que me sinto - alguém incapaz de despertar um real amor. Uma pessoa totalmente desprovida de qualidades que possam tirar o fôlego de quem quer que seja, jogada sem estratégia nenhuma em um mundo em constante guerra de egos, onde faz mais pontos quem mais rapidamente se livra do lixo tóxico conhecido como sentimento.


Me sinto absolutamente desinteressante, tanto física quanto intelectualmente falando. O que eu posso oferecer não interessa a ninguém. Sigo ingenuamente (burramente?) acreditando que um dia alguém vai perceber o que eu sou, o que eu tenho, o que eu sinto. Então me acordo notando que talvez isso não aconteça porque não sou, não tenho, não sinto... nada.

É triste, é arrasador, é frustrante perceber que sou capaz de amar tanto e não ter de volta nada mais do que o vazio. É desesperador chegar ao estágio da vida em que cheguei e perceber que não tenho nada mais do que uma esperança infantil que diminui a cada dia, a cada conversa no MSN, a cada momento em que percebo que sou menos importante do que qualquer - QUALQUER - coisa e que as prioridades de quem amo não tem lugar pra mim.
Houve um tempo em que eu tive a vã ilusão de que era especial.

|
3

LENNON FOREVER

Posted by Clenio on 20:45 in
Estivesse vivo hoje - e não assassinado da maneira brutal e inexplicável como tristemente aconteceu em dezembro de 1980 - John Lennon estaria completando 70 anos de idade. Pensei em deixar essa data passar em branco, mas é impossível não render minha homenagem - ainda que pequena e inútil - a um dos meus maiores ídolos musicais. Que me perdoem Paul McCartney (cujo show aqui em Porto Alegre eu vou dispensar não sem certa dor no coração...), Ringo Starr e George Harrison - sem os quais é possível que Lennon nunca chegasse onde chegou - mas pra mim, os Beatles sem o pai de Julian e Sean jamais seria o que é para milhares e milhares de fãs: uma religião.

Não estou querendo polemizar ao comparar Lennon a nenhum tipo de deus - mesmo porque ele já fez algo parecido e tampouco era do estilo religioso. Quero apenas afirmar algo em que os fãs da maior banda da história (e aqui abro espaço pra discussões com os partidários dos Rolling Stones...) teriam o maior prazer de assinar embaixo. Tudo bem que a esmagadora maioria das canções do grupo era assinada pela dupla Lennon/McCartney, mas  nada tira da minha cabeça a ideia de que era o marido de Cynthia e Yoko que era a alma dos Beatles. Uma prova? Com o fim do sonho, qual dos quatro integrantes da banda seguiu carreira mais vitoriosa? Quem nunca saiu da mídia? Quem causou controvérsia em discursos e ações pacifistas? Quem chocou um planeta inteiro com sua precoce saída de cena? Quem, dentre os quatro, era capaz de emocionar com canções tão seminais como "Imagine", "Give peace a chance" ou "Woman"?

Lennon, infelizmente, não nos deu a chance de testemunhar novas fases de uma carreira brilhante. Morreu com meros 40 anos de idade. Mas enquanto sua música existir a beleza ainda vai comover a todos nós. No meu coração John Lennon ainda vive. You may say I'm a dreamer, but I'm not the only one...

|
5

ESTE BLOG FAZ A MINHA CABEÇA

Posted by Clenio on 19:46 in
Meu irmão - de sangue, mesmo, e de mania de escrever sobre qualquer assunto minimamente interessante - me homenageou com o selo "ESTE BLOG FAZ MINHA CABEÇA!" Aproveito para agradecer publicamente e divulgar os blogs dele:

http://eopedefeijao.blogspot.com/
http://elenaoelasim.blogspot.com/

Outros blogs bastante interessantes merecem que eu ofereça, de coração e cérebro, essa mesma homenagem. Segue uma pequena mas seleta lista de blogs que, por um motivo ou outro, fazem a minha cabeça.

http://cigarrosefilmes.blogspot.com/
http://luisfabianoteixeira.blogspot.com/
http://chadepoejo.blogspot.com/
http://degraucultural.blogspot.com/
                                                                  http://reconfessions.blogspot.com/
                                                                  http://esegueobaile.blogspot.com/
                                                                  http://dicaselistas.blogspot.com/

Conheçam os blogs acima citados. Vale a visita!

|
5

COMER, REZAR, AMAR

Posted by Clenio on 02:18 in
A crítica malhou. O público não exatamente aprovou. Mas "Comer, rezar, amar", a adaptação cinematográfica do best-seller de Elizabeth Gilbert não é ruim como querem nos fazer acreditar. Levando-se em consideração que é baseado em um livro quase de auto-ajuda (sejamos honestos!!!!!), o filme de Ryan Murphy (o cérebro por trás das bem-sucedidas séries televisivas "Nip/Tuck" e "Glee") consegue a façanha de ser bem mais inteligente e agradável do que se poderia supor - e melhor ainda: apesar dos clichês, é um dos programas mais decentes dos últimos meses para quem gosta de passar duas horas (ou mais) no escurinho do cinema.

Julia Roberts sai de sua semi-aposentadoria para viver uma personagem feita quase sob medida: a escritora Elizabeth Gilbert, que, em meio a uma crise existencial e de um processo divórcio do marido (Billy Crudup), abandona o namorado natureba (James Franco) e resolve fazer uma viagem de "auto-cura". Seguindo os conselhos de um xamã de Bali, ela vai para a Itália fazer orgias gastronômicas, parte para a Índia em busca de paz espiritual e volta à Bali para finalmente encontrar o amor nos braços de um brasileiro (Javier Bardem). A história, aparentemente banal, é, no entanto, motivo para que tanto Roberts desfile seu carisma pela tela quanto para que Murphy faça sua estreia como cineasta de forma marcante e com o máximo de hype possível.

O livro de Gilbert não é exatamente uma pérola de literatura, apesar de ter vendido horrores pelo mundo afora desde seu lançamento (um número que não pára de crescer graças ao filme), mas conquista pela maneira bem-humorada de contar um processo de auto-descoberta feito por uma mulher repleta de defeitos e qualidades como qualquer espectadora - sim, são as mulheres que mais vão se encantar com a trajetória da protagonista, apesar dessa afirmação soar um tanto sexista.  Tudo em "Comer, rezar, amar"  é nitidamente direcionado ao público feminino, assim como também o é o livro que lhe deu origem. Mas, apesar da história interessante, da presença de Julia Roberts e de Javier Bardem e das belas paisagens, muita gente achou por bem falar mal do filme. Por que?

Realmente, "Comer, rezar, amar" é um filme que exige paciência do espectador: são duas horas e meia de duração, sem maiores lances dramáticos ou reviravoltas surpreendentes (e até mesmo as piadas são utilizadas com parcimônia). É um filme com ritmo próprio, que não tem pressa em contar sua história e que confia bem mais em sua estrela e em sua bela fotografia do que exatamente em construir relações sólidas entre suas personagens (o romance entre Roberts e Bardem soa um pouco artificial, talvez pelo sotaque estranho dele, talvez pela pressa com que justamente essa parte do filme tenha sido tratada). Mas o fato é que o livro já era assim, episódico, simples, quase uma união de anedotas e pequenos incidentes acontecidos com sua protagonista. Não há um empecilho para o romance central (que só começa no terço final), não há vilões, não há coadjuvantes recitando falas engraçadas a cada cinco minutos. Há, isso sim, a história de uma mulher corajosa o bastante para correr atrás do que queria fazer.

E há também Richard Jenkins. O falecido pai de família de "A sete palmos" rouba descaradamente a cena na pele de Richard, um texano com sérios problemas de culpa que ajuda Gilbert a superar seus próprios fantasmas nas cenas mais emocionantes do longa. É Jenkins que eleva "Comer, rezar, amar" a um patamar maior de qualidade, é ele quem justifica o preço do ingresso - ainda que sem ele também seria bastante divertido assistir-se ao filme - e é ele quem faz o público parar de lamentar o fato do capítulo "Itália" já ter acabado (a primeira parte da viagem da personagem principal é, sem dúvida, a mais divertida - para ela e para o público).

"Comer, rezar, amar" não é ruim como dizem. Não é espetacular, mas diverte, emociona, instiga. E tem Julia Roberts com seu belo sorriso e seu inegável carisma em todas as cenas. Pode-se dizer que isso é mais do que o bastante.

Mais cinema em www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

|

Copyright © 2009 Lennys' Mind All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive. Distribuído por Templates