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O GRANDE HERÓI

Posted by Clenio on 17:54 in
Alguns já reclamaram que se trata de mais uma obra que exalta o patriotismo americano - como se ufanismo fosse crime ou alterasse a qualidade de um filme em termos cinematográficos. Mas o fato é que "O grande herói", dirigido pelo ator/cineasta Peter Berg - que já havia demonstrado seu interesse por temas polêmicos em "O reino", de 2007 e comandou o mastodôntico fracasso "Battleship, a batalha dos mares" em 2012 - passou por cima de qualquer ideologia política para criar um poderoso drama de guerra que vem surpreendendo nas bilheterias ianques (tradicionalmente avesso a produções do gênero, salvo raras exceções) e caindo no gosto da crítica - foi eleito um dos dez melhores filmes do ano pela conceituada National Board of Review.

A encenação crua e realista de Berg de uma história real, ocorrida em 2005, durante a guerra no Afeganistão - e que já estava nos planos do diretor desde 2008, quando ele leu o livro que deu origem ao roteiro - remete às duras e violentas cenas de "Falcão negro em perigo", que deu a Ridley Scott uma indicação ao Oscar de diretor em 2002. Porém, enquanto Scott aproveitou a oportunidade para explorar seu virtuosismo técnico, sem focar-se a contento nos dramas de seus inúmeros personagens, Berg segue um caminho quase inverso. Sim, as cenas de conflito físico são dirigidas com segurança invejável e não poupam a audiência de sentir-se dentro da ação - para o que colabora também a maquiagem detalhista e a edição de som (que concorre ao Oscar) - mas o roteiro também se dá ao trabalho de dedicar boa parte de seu segundo ato ao desenvolvimento de seus protagonistas. Logicamente não há tempo para uma maior profundidade, mas contar com um elenco coadjuvante formado por Emile Hirsch, Eric Bana e Ben Foster (especialmente o último, em mais uma atuação estupenda) já é meio caminho andado para provocar a empatia essencial a uma história que, de outra maneira, seria apenas mais um filme de guerra a preencher as sessões noturnas da televisão.

Outro ponto favorável a "O grande herói" - que conta a história de um grupo de fuzileiros americanos que veem falhar sua missão de capturar um líder da Al Qaeda nas montanhas do Afeganistão e precisam lutar pela sobrevivência - é a presença de seu ator central, Mark Wahlberg. Surgido no mundo do entretenimento como modelo de cuecas Calvin Klein e posteriormente como o rapper Marky Mark, Wahlberg se reinventou como ator respeitado, presente em filmes prestigiados como "Boogie nights", "Três reis" e "Os infiltrados", de Martin Scorsese, pelo qual chegou a ser indicado ao Oscar. Na pele de Marcus Luttrell - que lidera a missão e acaba encontrando a salvação onde menos poderia esperar (com a ajuda do grande herói do título nacional) - o ator mostra que sabe escolher boa parte dos projetos dos quais participa (deixemos de lado bobagens como "Sem dor, sem ganho") e se manter sempre em evidência na fugaz fogueira das vaidades hollywoodianas com filmes de visibilidade e qualidade dramática.

Uma das boas surpresas da temporada, "O grande herói" ganha o público logo nos créditos de abertura - em cenas que mostram o rígido treinamento dos fuzileiros - e mantém sua atenção durante duas horas de adrenalina nas alturas, que se encerram com uma melancólica versão da clássica "Heroes", de David Bowie, na voz de Peter Gabriel. Um filme imperdível.

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JOGOS VORAZES - EM CHAMAS

Posted by Clenio on 16:30 in
Já está virando meio tradição dentro da indústria hollywoodiana: talvez por não precisar apresentar seus personagens e poder partir direto pra ação, talvez porque seus criadores sabem que a exigência do público aumenta ou talvez porque existe uma maior familiaridade com o material, os segundos capítulos da maioria das franquias cinematográficas contemporâneas conseguem ser melhor que o original. Foi assim com o "Homem-aranha 2" de Sam Raimi, com o "Batman, o cavaleiro das trevas", de Christopher Nolan e com "X-Men 2", de Bryan Singer. E é assim com "Jogos vorazes, em chamas", continuação do mega bem-sucedido filme de 2012 , baseado na trilogia escrita por Suzanne Collins. Agora sob a batuta de Francis Lawrence - cujo currículo inclui o interessante "Constantine" e a adaptação de "Eu sou a lenda" com Will Smith - a história de Katniss Everdeen em sua luta pela sobrevivência em um jogo de vida ou morte cada vez mais violento (e com intenções sociopolíticas nada justas) se t

Conforme dito acima, "Em chamas" tem a vantagem de não precisar perde tempo explicando sua trama e apresentando seus personagens - e para isso é crucial que a audiência já tenha assistido ao primeiro capítulo. Quando o filme começa, com eventos que acontecem um ano após o término do filme original, Katniss (Jennifer Lawrence, a nova queridinha de Hollywood) e seu parceiro Peeta Mellark (Josh Hutcherson), vencedores da 74ª edição dos jogos do título, começam uma turnê para todos os distritos, como forma de aproximar-se da população e dar credibilidade ao governo. Porém, ao perceber a desilusão do povo em relação os problemas sociais que os cercam, o casal (forjado para vencer os jogos) passa a questionar a liderança do Presidente Snow (Donald Sutherland). Temendo uma revolução, o presidente cria uma nova regra, que obriga todos os vencedores prévios a lutar novamente - sua intenção é acabar com a vida de Katniss, impedindo assim um levante popular.

Sob a forma de um filme de ação direcionado ao público infanto-juvenil - o que explica a violência apenas moderada considerando as possibilidades da trama - Lawrence aproveita a história de Suzanne Collins para, exatamente como aconteceu no primeiro, discutir temas de relevância, como desigualdade social, fascismo e manipulação por parte da mídia. Logicamente, por tratar-se de uma produção cujo público-alvo não esteja exatamente disposto a querelas políticas, o subtema é tratado apenas superficialmente (ainda que seja bastante claro para qualquer pessoa minimamente esclarecida), como pano de fundo para uma obra que oferece exatamente aquilo que sua plateia deseja: cenas de ação bem realizadas, um triângulo amoroso eficiente, personagens cativantes (interpretados por atores de qualidade inquestionável, como Philip Seymour Hoffman e Jeffrey Right) e um ritmo incapaz de cansar, apesar dos longos 146 minutos de projeção. Somadas a um criativo visual - refletido no figurino irreverente de Trish Summerville - e um roteiro redondinho - co-escrito por Simon Beaufoy, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" - essas qualidades fazem com que o único problema do filme seja justamente ter que esperar até o fim do ano pelo próximo capítulo - que, segundo mais uma nova tradição imposta pela busca por lucros, será dividido em dois filmes.

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A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY

Posted by Clenio on 19:44 in
Em 1947, uma adaptação do conto de James Thurber chamado "The secret life of Walter Mitty" chegou às telas de cinema, com o título de "O homem de 8 vidas", estrelado por Danny Kaye. No filme, o personagem-título era um introvertido revisor de livros baratos que se via envolvido em uma conspiração política quando encontrava com uma misteriosa mulher de posse de um ainda mais misterioso livro. Pouco lembrado pelas plateias contemporâneas, o filme de Norman Z. McLeod tem pouco a ver com uma nova versão do conto de Thurber, dirigida e estrelada por Ben Stiller. Adaptando a trama para a atualidade - mais precisamente para o ano de 2009, quando a revista Life saiu das bancas de jornais para transformar-se em um site da Internet e consequentemente teve que dispensar centenas de funcionários - e utilizando-se dos melhores efeitos visuais que o orçamento de 90 milhões de dólares pode comprar, Stiller assina um produto simpático e bem realizado, mas que peca em sua indecisão entre comédia, drama e filme de ação.

O Walter Mitty de Stiller - que teve Sacha Baron-Cohen, Jim Carrey, Owen Wilson e Mike Meyers entre seus possíveis intérpretes - trabalha no arquivo de fotos da revista Life, em um emprego que não exige maiores talentos sociais, mas que o faz manter uma cordial relação com o famoso fotógrafo Sean O'Connell (Sean Penn), cuja vida de aventuras e liberdade ele inveja conformadamente. Apaixonado pela colega de trabalho Cheryl Melhoff (Kristen Wiig) - a quem tenta contatar através de um site de relacionamentos - Walter Mitty encontra o desafio de sua vida quando recebe a missão de encontrar o negativo de uma foto de O'Connell que seu chefe exige que seja a capa da última edição impressa da revista. Seguindo pistas deixadas por outros trabalhos do fotógrafo, ele acaba embarcando em uma aventura que só mesmo seus sonhos mais radicais e sua imaginação criativa poderiam sonhar.... e que começa na Groenlândia.

"A vida secreta de Walter Mitty" tem inúmeras qualidades, desde a precisão de seus efeitos visuais (utilizados com parcimônia e sutileza) até seu elenco, que inclui a sempre fascinante Shirley MacLaine. Também é feliz ao examinar pessoas que muitas vezes ficam presas à sua imaginação em detrimento de levar uma vida mais ativa. Mas Stiller - conhecido pela direção dos hilariantes "Zoolander" e "Trovão tropical" - parece não sentir-se à vontade quando fala sério. Sempre que o filme começa a perder sua ingenuidade e seu nonsense há um queda no ritmo que compromete o resultado final. Felizmente os bons momentos que o ator/diretor consegue sempre que deixa sua veia cômica aflorar - e a presença magnética de Sean Penn em uma única sequência que vale por todas - fazem com que uma sessão descompromissada valha a pena.

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ELA

Posted by Clenio on 17:49 in
Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.

Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo está entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.

Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento, compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.

Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.

Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Se repetir-se na festa do Oscar, o prêmio de roteiro que já ganhou no Golden Globe não seria nada menos do que absolutamente justo.

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CLUBE DE COMPRAS DALLAS

Posted by Clenio on 17:53 in
Não é preciso ser especialista em cinema em geral - e nos meandros da Academia que oferece o Oscar em particular - para saber que um ator (ou atriz) que tem coragem de despir-se da vaidade para encarnar um papel tem enormes chances de sagrar-se vencedor de uma estatueta dourada. Exemplos não faltam, e provavelmente no dia 02 de março próximo a lista vai contar com outros dois nomes: Matthew McConaughey e Jared Leto, que vem fazendo uma limpa nas cerimônias de premiação consideradas prévias do prêmio máximo do cinema americano. Seus desempenhos são tão impactantes que, a despeito da qualidade duvidosa de "Clube de compras Dallas", levaram a obra de Jean-Marc Vallé ao Olimpo de duas das categorias mais nobres da premiação: filme e roteiro original.

Não que o filme seja exatamente ruim, mas dava para esperar muito mais da direção de Vallé, que conquistou todo mundo com o simpático e criativo "C.R.A.Z.Y", em 2005. Seu trabalho em "Clube de compras" é mecânico, quadrado e - pior dos pecados para um filme que trata de um assunto tão potencialmente dramático - indiferente. Mesmo que fique evidente a entrega de McConaughey e Leto a seus papéis é dificil envolver-se com a narrativa, porque o roteiro não permite a aproximação do público, tratando tudo com um distanciamento que, se mirou na neutralidade, acertou na frieza. Por mais que os atores - especialmente Leto, mostrando que seus bons trabalhos em filmes como "Réquiem para um sonho" e "Capítulo 27", em que interpretava o assassino de John Lennon, não eram sucessos isolados - se esforcem em cativar a audiência, a opção de Vallé em fugir do sentimentalismo contrasta com a potência emocional da história real de Ron Woodroof, um eletricista mulherengo do Texas que, contaminado com o vírus HIV em 1985 - portanto, quando a doença ainda era uma incógnita junto à medicina e era tratada como exclusividade dos homossexuais - precisa lidar com a burocracia acerca do tratamento com remédios experimentais e resolve criar um sistema para proporcionar aos doentes americanos o acesso às novas drogas, o tal Clube de Compras do título.

Preconceituoso e sem maiores preparos para lidar com sua nova realidade, Ron Woodroof é um personagem e tanto, repleto da complexidade que qualquer bom ator sonha, e Matthew McConaughey - que vem há alguns anos tentando ser levado a sério e finalmente conseguiu sua grande chance para isso - desencumbe-se do desafio com louvores, não apenas fisicamente mas também dramaticamente, apesar de ter que lutar contra um roteiro incapaz de explorar a contento todas as possibilidades de sua personalidade conflitante. Nesse ponto, Jared Leto sai-se melhor, já que Rayon, sua personagem, consegue ser um pouco (não muito) melhor desenvolvida, apesar do filme jogar fora a promissora relação entre ele - um jovem travesti que se prostitui e é contaminado pela AIDS - e seu pai - um homem rico e conservador que não aceita seu modo de vida. É de Leto a única cena capaz de ser lembrada futuramente - quando ele conversa consigo mesmo diante de um espelho - e mesmo assim a responsabilidade é muito mais sua do que da direção.

Por fim, "Clube de Compras Dallas" é um típico filme feito para ganhar Oscar. Nesse ponto, não se pode dizer que tenha sido mal-sucedido, já que as vitórias de seus atores já é quase certa. Mas, ao mesmo tempo, desperdiçou uma boa história e bons personagens em um roteiro raso e dinamicamente falho, que encontra espaço até mesmo para uma relação dispersiva entre o protagonista e a médica interpretada pela sempre fraca Jennifer Garner. Uma pena que um potencial tão grande tenha resultado em algo tão banal.

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