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SISTER BLISTER ou COMO NASCEM OS HIPÓCRITAS

Posted by Clenio on 19:08 in ,
Assim como sempre depois da tempestade vem a bonança, sempre depois de uma grande tragedia surgem centenas de hipócritas, donos da verdade e solidários profissionais, que fazem questão de expor a todos sua extraordinária bondade e desprendimento com toda a falsa modéstia de que são capazes. Mas pior do que essa asquerosa autopromoção - que felizmente não se aplica a todos, uma vez que muita gente está realmente disposta a ajudar e cuja solidariedade é genuína - é a proliferação de Antonios Conselheiros, de líderes messiânicos que tentam tomar para si toda a dor do mundo e usá-la como combustível para a polêmica e o caos. Sim, a situação é trágica e imensamente chocante. Sim, é triste e dolorosa. Mas, deixando de lado o susto e a indignação diante de tamanho desastre, será que não é hora de parar para pensar e separar o joio do trigo?

Respeito e dou todo o meu apoio a todos aqueles que perderam familiares, amigos, conhecidos, colegas de trabalho e principalmente filhos nesse inferno. Concordo que eles tem todo o direito - e até o dever - de buscar explicações, respostas e conforto por suas perdas. Entendo que qualquer pessoa com um mínimo senso de humanidade fique chocado e apreensivo. Mas não aceito e me incomodo em perceber como tem tanta gente que se traveste de cidadão exemplar, de cristão perfeito e de criatura sensível quando no seu dia-a-dia não está nem aí para as regras de convivência e as leis, só lembra que existe um Deus quando precisa pedir alguma coisa ou gritar para quem quiser ouvir a respeito de sua fé e chora por desconhecidos quando nem sequer lembra de dar uma palavra mais gentil e amorosa a seus próprios amigos e pais. Esse cidadão exemplar - que cobra leis mais severas, punição e fiscalização - dirige depois de beber, não respeita as leis de trânsito e provavelmente não fornece nota fiscal a seus clientes. Esse cristão exemplar que reza de joelhos diante de câmeras de televisão e promove novenas, procissões e missas de sétimo dia nem olha pra cara dos pedintes na rua e se fecha em seu carro com ar-condicionado para se isolar das misérias de seus "irmãos" quando não há ninguém assistindo. E as criaturas sensíveis, que choraram lágrimas de sangue assistindo às reportagens sobre o incêndio são as mesmas que não atendem aos telefonemas dos pais quando estão se divertindo e reviram os olhos em desagrado quando precisam ajudar aos amigos necessitados de uma palavra de carinho. São hipócritas em alto grau que se julgam superiores àqueles que preferem manter silêncio em homenagem aos mortos, porque silêncio não dá ibope.

E por falar em ibope, é lamentável o estado das coisas em relação à imprensa nacional. Existe uma imensa diferença entre informação e sadismo. Manter o povo atualizado é função do jornalismo, mas o que se vê na televisão, nos jornais e na revista é uma espetacularização da tragédia, uma guerra por audiência, um reality show torturante que abdica da sensibilidade para privilegiar a tristeza e o exagero. Será que as famílias das vítimas gostam de ver os nomes, retratos e biografias de seus entes queridos publicados a cada dia em um veículo diferente? Será que cutucar a ferida ajuda a amenizar a dor? Existe um limite para a exploração da dor alheia, e isso não está sendo respeitado (e eu nem vou entrar na questão das piadas SEM O MENOR HUMOR a respeito do assunto). A batalha por mais pontos no Ibope parece ser mais sanguinolenta do que a pior das barbáries.

Pessoas burras, preconceituosas, ignorantes, insensíveis, hipócritas e arrogantes sempre existiram. Mas tenho a nítida impressão de que tragédias como a de Santa Maria as fazem aflorar com mais força e determinação, cultivando sua falha de caráter em um terreno de dor propício para seu germinar. Infelizmente, o irmão gêmeo mau da tristeza é o oportunismo barato.

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O LADO BOM DA VIDA

Posted by Clenio on 05:10 in
Ao contrário do que quer fazer a Academia de Hollywood, o cineasta David O. Russell está longe de ser um novo gênio do cinema, capaz de duas indicações ao Oscar de diretor em três anos. Artesão competente, ele conseguiu fazer rir da guerra do Iraque quando ela ainda estava fresquinha na mente dos americanos - no ótimo e esquecido "Três reis" -, assinou o inclassificável "Huckabees, a vida é uma comédia" e entregou o apenas correto "O vencedor", que lhe colocou entre os finalistas do Oscar de 2011 (no lugar de um espetacular Christopher Nolan), mas nunca ultrapassou aquele limite que separa os contadores de histórias eficazes dos mestres do ofício. Por isso, se não fosse a exímia máquina marqueteira dos irmãos Weinstein (ex-proprietários da Miramax Pictures, empresa que, na década de 90 transformou o cinema independente em mainstrean), seu novo filme, a comédia romântico/dramática "O lado bom da vida" não passaria de alguns merecidos elogios à uma generosa lista de indicações ao Oscar deste ano (uma lista que inclui melhor filme, diretor, roteiro e os quatro atores). Se por um lado seu novo trabalho é simpático e agradável, por outro ele não escapa de mergulhar em clichês e só é realmente notável por seu elenco - que dá a Robert De Niro seu primeiro papel decente em anos e revela em Bradley Cooper uma competência apenas ensaiada em seus filmes anteriores.

Adaptado de um romance de Matthew Quick, "O lado bom da vida" começa muito bem, mostrando a volta do professor Pat Solitano (Bradley Cooper) ao lar, depois de um tempo em um hospital psiquiátrico. Logo de cara o público já percebe a animosidade que existe entre Pat - que saiu do hospital talvez cedo demais - e seu pai aposentado (Robert De Niro). Não fica claro, porém - propositalmente - os motivos que o levaram à sua crise e à separação da esposa, a quem ele tem esperanças de reconquistar.  No caminho para sua reconciliação, Pat conhece uma vizinha, Tiffany (Jennifer Lawrence), recentemente viúva e desempregada (por ter dormido com todos seus colegas de trabalho) que lhe ajudará em sua missão e, no caminho, vai redescobrir a autoestima.

Depois do começo promissor, no entanto, o filme de Russell cai na armadilha dos clichês. A tensão entre Pat e Tiffany - responsável por uma ótima cena em um restaurante que descamba para uma violenta discussão no meio da rua - se dilui na tentativa do roteiro de conquistar o público da maneira mais preguiçosa possível. A relação dos protagonistas - que apontava para um estudo sério e honesto (ao menos dentro do padrão hollywoodiano quando se trata de problemas mentais) - logo vira uma historinha de amor rasa e inverossímil, que culmina em um concurso de dança que parece só estar ali para criar uma sequência bonitinha mas sem muito sentido.

Salva-se, por outro lado, o elenco escolhido pelo diretor. Sem dúvida, Russell é um cineasta que, a despeito de sua pouca criatividade, tem profundo conhecimento em sua relação com os atores. Deu Oscar a Christian Bale e Melissa Leo por "O vencedor" e pode ajudar Jennifer Lawrence a levar uma estatueta este ano: Lawrence, a nova queridinha da Academia, está bem, mas entre convencer na pele de uma jovem desequilibrada e merecer ganhar um Oscar vai uma grande distância. O mesmo pode ser dito sobre Bradley Cooper, surpreendendo com uma atuação visceral e intensa, mas que só despertou admiração por ter revelado nele um ator competente - fato que as comédias insossas que estrelou antes escondia com eficácia. Jacki Weaver, como a mãe de Pat, arrancou uma indicação inesperada ao prêmio de atriz coadjuvante e tem poucas chances, mas é Robert De Niro quem é, definitivamente, o maior destaque do filme: há muito tempo o grande ator não tinha chance de mostrar o quão bom é, e basta uma cena com Cooper (em que revela seu amor pelo filho) para que tenha sua lembrança pela Academia justificada.

"O lado bom da vida" é um filme comum. Bom, sem dúvidas, mas destinado ao esquecimento em poucos anos. É mais uma prova do poder dos irmãos Weinstein dentro da indústria do cinema americano do que exatamente um grande trabalho cinematográfico.

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LINCOLN

Posted by Clenio on 05:55 in
Se hoje os EUA tem um presidente negro, muito se deve agradecer à Abraham Lincoln, que, em 1865, às vésperas do final da Guerra de Secessão (confronto entre o Sul escravagista e o Norte abolicionista), usou de todo o seu poder de persuasão - e mais alguns outros talentos políticos - para fazer com que fosse aprovada a 13ª Emenda, que abolia a escravatura em todo o território norte-americano. Um dos mais respeitados e admirados comandantes da história da nação, é ele o protagonista do filme que tem tudo para dar ao cineasta Steven Spielberg seu terceiro Oscar de diretor. Indicado a doze estatuetas - e favorito em boa parte das categorias - "Lincoln" vem sendo unanimente elogiado e louvado especialmente pela crítica ianque, que vê nele todas as qualidades que deram a Spielberg o prestígio que ele tem na indústria do cinema. É impossível não perceber nessas loas todas, porém, uma generosa dose de ufanismo. Esplendidamente produzido, o filme estrelado por um impecável Daniel Day-Lewis (também em vias de ganhar um terceiro Oscar) é irrepreensível em termos visuais e técnicos, mas esbarra em um sério problema: quem não tem um vasto conhecimento da História dos EUA é bem capaz de ficar perdido diante de tantos nomes e detalhes que desfilam pelo roteiro de Tony Kushner.

Entre os inúmeros acertos de "Lincoln" está, sem dúvida, a opção de Spielberg em recriar apenas um período crucial na vida do presidente, ao invés de contar toda a sua vida. Focando-se nos meses em que a campanha pela 13ª Emenda estava a todo vapor, o roteiro pode também se dedicar a algumas personagens secundárias interessantes e dramaticamente bem construídas, como é o caso da primeira-dama Mary Todd (uma Sally Field mais velha do que a personagem, que lhe dá todas as chances de uma atuação que beira o melodrama e lhe rendeu uma fortíssima indicação ao Oscar de coadjuvante) e do político Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones, também com boas chances de levar um prêmio da Academia): Mary Todd tem que lidar com a perda de um filho e as possibilidades de ver outro (Joseph Gordon-Levitt) embarcando para a guerra, além de uma doença nervosa que a acompanha há anos e Stevens é um abolicionista com boas razões para tal (reveladas no final do filme de forma delicada e surpreendente). O roteiro também não se furta a apresentar várias e longas cenas em que a Emenda é amplamente discutida, assim como as táticas para que ela seja aprovada. São cenas bem dirigidas e bem interpretadas, mas que carecem do ritmo que o cineasta sempre imprimiu a seus trabalhos anteriores. São nessas cenas, por exemplo, que outros brilhantes atores dão seu show, como é o caso de Hal Holbrook, David Strathairn, John Hawkes e James Spader, todos pontuando o espetáculo que é a interpretação de Daniel Day-Lewis.

Assumindo um papel que hesitou por um bom tempo em aceitar, Day-Lewis entrega à plateia uma assombrosa atuação, que incorpora o gestual, a voz e até mesmo a personalidade carismática e simples do presidente Lincoln, um homem que tinha como seu maior trunfo o dom das palavras e a gigantesca empatia que lhe garantiu um segundo mandato, encerrado tragicamente com seu assassinato em um teatro pouco depois da votação da Emenda - sequência que Spielberg prefere não explorar em demasia, como prova de sua maturidade e sobriedade. Aliás, são justamente essas qualidades que fazem com que o filme sofra de um mal que muitos críticos não citaram: ao optar por uma narrativa séria e adulta, o cineasta abdica de uma característica essencial de sua obra pregressa -  a emoção - e entrega um filme belissimamente dirigido, mas que prescinde de uma empatia maior com uma audiência que não veja em seu protagonista o superhumano visto por seus conterrâneos. Para quem não é norte-americano, a história de Lincoln - mesmo que sua luta pelos direitos de igualdade entre negros e brancos seja parte essencial da história da humanidade como um todo - não é tão emocionante, ficando quase ofuscada pela fotografia deslumbrante de Janusz Kaminski e pela reconstituição de época irretocável.

Sendo um filme americano feito para americanos sobre um grande americano, "Lincoln" é, sem dúvida, o grande favorito ao Oscar, que, por mais cosmopolita que tente parecer, ainda é um prêmio da indústria americana. Não é o melhor entre os indicados, mas  sua vitória seria no mínimo coerente.

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BBB E AS TRAIÇÕES EM REDE NACIONAL

Posted by Clenio on 15:54 in
Então você tem um namorado (a), noivo (a) ou marido (mulher) e é chamado para participar do BBB. Ótimo, beleza, ser escolhido entre milhares de pessoas para demonstrar em rede nacional os seus defeitos, suas manias e seu caráter (ou falta de um). Até aí tudo bem, cada um com seus problemas - e imagine só que nenhum problema consegue ser maior que ter que conviver com o Dhomini por talvez dois meses e pouco. Mas enfim...

Você chega na "casa mais vigiada do Brasil" e aos poucos começa a se soltar. No início está comportado, discreto, fiel até a morte. Então a bebida chega e a vergonha sai. Aquele amor eterno já não existe mais, aquela pessoa especial que deixou fora da casa torna-se uma pessoa qualquer e sua fidelidade vai embora junto com o primeiro beijo ou o primeiro amasso debaixo do edredon. "Vou viver o jogo e depois penso no que fazer." Genial! Brilhante! Você acaba de mostrar o quão desprezível você pode ser.

Não consigo deixar de pensar e me colocar no lugar dos coitados e coitadas que - na torcida por seus entes amados que estão na disputa pelo prêmio do programa - testemunham, em rede nacional, as traições de que são vítimas. Não basta ser traído, tem que ser traído diante de milhões de telespectadores que, levianos, apenas gostam de ver o circo pegar fogo sem ligar para sentimentos de pessoas outras que pagam o pato. "É um jogo, tudo é para se manter no programa", dizem os menos suscetíveis a sentimentos abstratos como lealdade, decência e honestidade. E me pergunto quanto vale a sua honra. E indago quantos reais pagariam a sua dignidade. Para quem amor significa cutuques no Facebook talvez um milhão e meio de reais seja o preço. Pra mim não há o que pague a humilhação e a decepção de quem eu amo. Mas é tudo questão de opinião!

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AMOR

Posted by Clenio on 16:27 in
Dentre as inúmeras surpresas que vieram junto com as indicações ao Oscar no último dia 10 de janeiro poucas foram tão comemoradas pelos cinéfilos quanto a inclusão do franco-austríaco "Amor" em algumas das categorias mais importantes da cerimônia, como melhor filme, diretor, atriz e roteiro original. Nada mais justo. A nova obra do polêmico Michael Haneke foi o grande e merecido vencedor do Festival de Cannes de 2012 - além de diversos outros prêmios concedidos pela crítica americana e europeia - e é uma das mais potentes e contundentes obras sobre a velhice, a decadência física e, logicamente, o amor, celebrado no título e mostrado de forma dolorosa no decorrer das duas horas de projeção.

Longe do hermetismo de seu "A fita branca" - também premiado em Cannes no ano de 2009 - Haneke presenteia o público com um filme perturbador, denso e profundo que não tenta se esconder atrás de lágrimas fáceis ou exageros histriônicos. Sóbrio e seco, o roteiro prescinde das firulas melodramáticas que tratam o espectador com condescendência para se concentrar basicamente em suas personagens centrais e no devastador drama que os assola, sem preocupar-se em esclarecer didaticamente toda e qualquer cena. Haneke não é um cineasta fácil e justamente por isso, faz de seus trabalhos mais do que simples filmes. Dificilmente alguém sai da sessão de um filme seu da mesma forma com que entrou e, pro bem ou pro mal, uma dos objetivos da sétima arte é exatamente esse: abalar, confundir, emocionar ou surpreender de alguma forma. E isso "Amor" faz admiravelmente, graças principalmente a seus intérpretes centrais.

Excepcionais em seus desempenhos, os veteranos Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva vivem (na maior acepção do termo) Georges e Anne, dois professores de música aposentados que passam seus dias em um confortável apartamento, frequentando concertos e vivendo da melhor maneira possível seus dias - e recebendo, vez ou outra, algumas visitas de alunos antigos e da filha Eva (Isabelle Huppert). Sua vida pacata e feliz é abalada, porém, quando Anne sofre um derrame que a deixa parcialmente paralisada. Sem saber o que fazer, Georges contrata enfermeiras para cuidar da esposa, mas aos poucos, conforme a situação da velha senhora começa a se deteriorar ainda mais, ele resolve tomar conta sozinho do problema, se dedicando totalmente à mulher que ama.

Logicamente não é um filme para qualquer um. Que fujam das salas de exibição aqueles fãs de filmes com edição alucinada ou aqueles que acreditam que uma atuação boa é feita de gritos e trejeitos exagerados. Que se abstenham de comentários tolos aqueles que buscam no cinema pura diversão e entretenimento. Que se calem os que nunca amaram de verdade. Amor não é apenas uma palavra, conforme Michael Haneke comprova aqui. Amor não é beleza, juventude e saúde. Amor é cuidado, empenho, dedicação e abnegação. "Amor" é  um filme espetacular que jamais sairá da cabeça e do coração de quem se permitir deixar tocar por sua sensibilidade.

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